Reunião de primos!

Dez de agosto de dois mil e setenta. Quase meados do século XXI. O tempo voa. Nasci ontem e já tenho 52 anos. Estou ficando velho. Sou o Murilo Leite, mais conhecido por Murilim das meninas rsrsrs, o mais novo do bando. Vou puxar um papo com vocês a respeito de nossos ancestrais, especificamente, nossos avós … saber como era o tempo em que eles viveram, seus hábitos … só coisas de cinquenta anos atrás, topam?

Então começa, Abner, você que foi o primeiro neto e já está quase lambendo os oitenta.
Meu avô paterno chamava-se Arimatea, morreu muito novo e eu não o conheci. A vovó Rosa ficou viúva muito jovem e não quis mais se casar. Morava só em Recife, cuidando de seus cachorros. Era alegre e conversadeira. Meus contatos maiores foram com meus avós maternos, Gilmar e Marluce, super tranquilos; os filhos todos se casaram e eles viveram muito anos a sós. Ester, fala alguma coisa sobre eles.
– Morreram bem velhinhos. A vovó era vaidosa, organizada, preocupava-se facilmente conosco e com todos da família. Tinha muito medo de morrer. Houve uma pandemia nos anos vinte que matou muita gente no mundo inteiro. A orientação era muita higiene e total isolamento social. Ela não saía de casa nem recebia visita de ninguém. Eu queria muito bem a ela. O vovô gostava muito de ler e era bagunceiro. Certa vez, quando éramos pequenos, fomos tomar banho no apartamento deles e perguntamos se podíamos bagunçar. Ele riu e se deitou na cama, fingindo que estava dormindo. Nós demos um banho nele com a ducha e molhamos a cama toda. Estou com saudade deles e com vontade de chorar. Continua Rudá, você que puxou ao meu vô; desde pequeno só vive agarrado com um livro.
– Sim. Naquela época existia “shoppings” e eram muito freqüentados. Eu me lembro muito de todos nós almoçando lá e logo depois a vovó ia visitar lojas e o vó corria para as livrarias. Eu, muito malandro, um dia estava com ele e querendo comprar um brinquedo, disse: – vô, vamos ali comigo? Ele parecendo adivinhar, olhou pra mim com o canto do olho e falou: vá olhar quanto é o brinquedo, eu dou o dinheiro e você compra. A vovó ainda era melhor. Meus avós maternos, João e Iza, moravam em São Luis do Maranhão e nas férias íamos pra lá. Eram super legais. Gostavam de presentear e nós abusávamos. A Iara, que tem boa lembrança e gosta de conversar, pode falar mais deles. Fala, Iarinha.
– Eu sou a neta mais nova, devo ser a última a falar. Vejo que a Maria Clara, que está pensativa, quer dizer algo.
– Quero, sim. Não sei se vou conseguir. As lembranças do meu tempo de criança são maravilhosas. Eu gostava de ir ao “Shopping” com a vovó Marluce porque ela comprava sorvete pra mim e me colocava no pula-pula. Hoje que estou com 62 anos e tenho filhos e netos, entendo o quanto meus avós foram importantes para mim. A minha vó Marli, mãe do meu pai, eu pouco convivi com ela. A última vez que a visitei foi em 2020; eu era criança e ela, já com a saúde abalada, me abraçou e me beijou. Eu fiquei muito feliz e, quando nos despedimos, percebi que ela ficou muito emocionada. Não pude mais visitá-la porque houve um isolamento social em todo o Planeta. Os mortos eram sepultados sem a presença da família. Eu me lembro que eu tinha um medo medonho que alguém da nossa família morresse. Desculpem a minha emoção. Estou chorando com saudade da minha infância.
– Deixa de ser tola Clarinha! Faz tanto tempo! Eu era muito pequeno, mas lembro que eu achava massa porque meus pais ficavam em casa o tempo todo. O papai dizia: – Gabriel, pega os carros e vamos brincar. Deixa tua mãe aí amamentando o Murilo. Esse cara vivia mamando. De vez em quando a gente ia pra uma casa de praia com o vovô Augusto e a vovó Zilda. A vovó Zilda era muito dócil e o vovô Augusto, durão, com a voz bem grossa. Meus tios iam pra lá também e a festa era grande. A mamãe sempre …
– Gabriel, desculpe interromper. Eu propus uma reunião para falar especificamente dos nossos ancestrais, de avô pra lá. Nossos pais ainda estão conosco. Se formos falar deles agora a reunião não termina nunca, porque temos muitas coisas boas a contar deles. São todos e todas velhinhos e velhinhas adoráveis.
– Entendo, Murilo. Pede ao Abner e à Ester para falarem mais um pouco. Como são os netos mais velhos, devem ter mais informações sobre nossos avós.
– Posso falar um pouco sobre a forma de viver. Aqueles tempos eram bons, hoje é ainda melhor. Precisávamos ter carro, o trânsito era engarrafado, havia muita poluição, as relações de trabalho eram quase todas presenciais, precisávamos ir a médicos para consultas etc e tal. Eu e a Ester fizemos operação de catarata em casa em 2050, utilizando recursos da inteligência artificial. A qualidade de vida melhorou e as pessoas passaram a viver muito mais. Tive um tio espírita que dizia, brincando, evidentemente, que o céu ia ficar sem almas … porque o processo de desencarnação seria de longuíssimo prazo.
– Bom, a REUNIÃO DE PRIMOS vai ficar por aqui. No próximo final de ano, 2071, teremos outro encontro para falarmos sobre os nossos queridos pais. Eu, Murilo Leite, aprendi muito com vocês. Continuemos unidos e bons. Um dia alguém vai contar a nossa história.

Gilmar Oliveira

Gilmar Oliveira

Gilmar de Oliveira, Professor Universitário.

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