Réu confesso, por Álder Teixeira

Olhando para o que aconteceu de importante no país nos últimos dias, surpreende-me a pequena atenção dispensada por setores da grande imprensa às declarações do senador Tasso Jereissati em entrevista ao Estadão. Refiro-me à espécie de mea culpa do tucano acerca do comportamento do PSDB no que seria o fim prematuro do segundo governo de Dilma Rousseff. Vamos por partes.

“O partido cometeu um conjunto de erros memoráveis. O primeiro foi questionar o resultado eleitoral. Começou no dia seguinte (à eleição). Não é de nossa história e de nosso perfil. Não questionamos as instituições, respeitamos a democracia”.

Tasso era, à época, presidente do PSDB, ocupando vaga deixada por Aécio Neves para disputar a eleição presidencial. Este fato, por si só, não isenta o senador Jereissati de responsabilidade pelo que, agora, considera um erro. Antes pelo contrário: ou Tasso comungou com o inconformismo (“molecagem, para encher o saco do PT”) de Aécio Neves ou, na contramão do que sugeriu sempre o seu perfil empafioso, nega qualquer liderança sua à frente do PSDB, hipótese aliás corroborada pelo afastamento humilhante que lhe foi imposto pelo parlamentar mineiro do comando do partido. Por que, então, à época, não veio a público para revelar sua posição em face disso?

“O segundo erro foi votar contra princípios básicos nossos, sobretudo na economia, só para ser contra o PT”.

A emenda parece ter saído pior que o soneto. Se as medidas eram de fato incompatíveis com o que diz ser “princípios básicos nossos” (dele ou do PSDB?), por que não conduziu o partido de modo a demonstrar coerência na sua votação? Tasso e seu partido, diga-se aqui, na sua totalidade, votaram a  favor de medidas que oneraram o governo da presidente Dilma Rousseff com o intuito único e exclusivo de desestabilizá-lo, o que contribuiria de forma decisiva para o que viria depois: o golpe.

“Mas o grande erro, e boa parte do PSDB se opôs a isso, foi entrar no governo Temer. Foi a gota d’água, junto com os problemas do Aécio (Neves). Fomos engolidos pela tentação do poder”.

Por que, então, senador, não manifestou naquele momento suas convicções a respeito do que hoje identifica como “o grande erro”? Por que ir à tribuna da forma como o fez a fim de proferir o seu discurso “histórico” em favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff? Por que o silêncio obsequioso diante do relatório inconsistente e mal-intencionado do senador Anastasia, capacho de Aécio Neves, que “deveria ter sido afastado da presidência do PSDB”, como afirma agora?

Por último, por que se opor aos interesses do país apenas para ser contrário ao PT?

Na tentativa mal alinhavada de transferir toda a responsabilidade do “lesa-pátria” tucano para o senador Aécio Neves, Tasso Jereissati “chuta cachorro morto”, procurando, sem convencer, justificar o injustificável, e suja de forma irreparável o seu currículo de homem público. O tiro de misericórdia, todos sabem, está por vir com a derrota acachapante que seu candidato sofrerá na eleição.

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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