RETROSPECTIVA 360º

Tudo mudou de repente. Os dias passaram a ter o tamanho de meses e os meses o tamanho de séculos.

Um vazio enorme encheu todo o meu ser. Minha imaginação perambula, catando memórias singulares. Impossível, todavia. Todas têm o mesmo teor.

Afasto-me, sentindo necessidade de ficar só. Sento-me no meio-fio e devaneio, observando uma formiga carregando um folha gigantesca para o seu tamanho; tão grande quanto a dor que me habita e me desconcerta de forma cruel!

Não tinha estrutura mental para suportar essa perda súbita, tão natural quanto violenta.

Inspirado na coragem e na resistência daquela pequenina formiga que poderia sucumbir ao simples pisar de um coelho, criei coragem, levantei-me e fui ver meu ídolo que estava morto.

Olhando-o inerte e com os olhos cerrados DEI-LHE VIDA rememorando aquela tarde chuvosa em que me disse:
– Gilmar, atravesse o rio e tanja a vaca pro lado de cá. Quando ela começar a nadar, agarre o rabo que ela lhe arrasta.
– E se eu me afogar, papai, indaguei timidamente.
– Eu estou aqui e lhe salvo; pode ir sem medo.

Eu, menino de mais ou menos onze anos, aprendi a nadar e deixei de ser medroso assim, obedecendo o comando firme do meu ídolo.

Com a mente turva, respirei fundo e entrei na sala sem olhar pra ninguém. Milhares de pensamentos meus, contestavam aquele cenário de morte … inconcebível para mim.

EU O RESSUSCITEI também relembrando as caçadas de tatu nas noites de lua cheia, sobretudo no dia em que o Jolie acuou uma cascavel dentro de uma moita de mofumbo. A cobra, irada, tocava o maracá com o rabo levantado e dava bote tentando nos morder. Sua língua fina parecia eletrizada como um raio e causava espanto. Depois de uma luta inglória, resolvemos deixá-la em paz com sentimento de derrota. Éramos três contra um; nós dois e o Jolie, nosso amigo fiel, enfrentando a serpente que ora parecia estar longe, ora, bem perto, com os olhos raivosos e os dentes arreganhados que reluziam sob a claridade da piraqueira que eu segurava com a mão trêmula. A tensão do perigo gerava calor que fazia o suor escorrer. Cena de filme. Não fora o entrançado dos galhos da moita que nos impediam de recuos rápidos de defesa, essa cobra já era, e não teria saído cantando vitória.

Ah! bichinha de sorte, exclamei trincando os dentes, mas querendo me distanciar de um possível acidente. Jolie caminhava atrás de mim e, de vez em quando, lambia a minha perna demonstrando amizade. Papai, homem determinado e lógico não perdeu a postura de líder-campeão. Mas o silêncio conivente pautava o comportamento dos três: Papai, eu e Jolie, cão de caça, presente do “ti Chiquim” que morava no Tourão.

ELE ESTÁ VIVO EM MIM, igualmente, nas boas lembranças dos trabalhos da roça, dos banhos de rio, das estórias de Trancoso, das debulhas de feijão, dos adjuntos no roçado, das desmanchas na casa de farinha, dos cortes de olho de carnaúba, da quebra dos cachimbos pelo Sebastião e por ele, prometendo pararem de fumar; cenas recorrentes a cada ano na casa de cêra, mais para criar uma expectativa de animação do que para largar um vício. Essas atitudes brincalhonas me fascinavam e fazem com que eu o guarde mais vivo na minha mente e no meu coração.

Meu respeito por ele foi selado quando me flagrou num ato de onanismo escondido na tolda; recuou discretamente e fechou a porta, fingindo não me ver. Alguns minutos depois, gritou lá de fora pedindo para eu encher o tanque na bomba para dar água às vacas. Eu, envergonhado, não conseguia olhar para ele, que também não olhava para mim, com certeza evitando causar-me desconforto. Quanto respeito “às traquinagens de crianças” segundo o meu primeiro confessor. Nunca demonstrou para mim nem para ninguém, ter visto a mim em traje de Adão e com a mão na botija. Atitude exemplar de um pai-educador!

Procuro moldá-lo em tudo. É a receita segura que sigo para estar sempre no caminho certo.

Quando a saudade aperta, ponho a sua fotografia no meu perfil do WhatsApp e incorporo-o em meus sentimentos, sem luto. Ele está vivo. É uma homenagem direta e rica em emoção. Continua sendo minha referência primeira.

Essa retrospectiva de 360º me apraz e me fortalece. Agradeço ao meu Deus pelo pai que tive.

Gilmar Oliveira

Gilmar Oliveira

Gilmar de Oliveira, Professor Universitário.

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