RETOMAR O CAMINHO, por Alexandre Aragão de Albuquerque

A estratégia definida pelo Capitão para demarcar os 200 dias de seu desgoverno foi ideologicamente clara. Acirrar a postura de palanque eleitoral, disparando sua metralhadora verborrágica contra quem discorda de sua práxis política de extrema-direita, em vez de buscar soluções apaziguadoras e de coesão social para o conjunto da nação. Essa postura é resultado de um “método político de ação”, baseado no preconceito, na perseguição, na amplificação do ódio social, por meio de linguagem e procedimentos discricionários para menosprezar setores da população brasileira. Esses discursos e posturas sistemáticos funcionam como reforços condicionantes com o intento de aumentar a frequência de uma reação social esperada, conforme anota a teoria dos condicionamentos humanos (Pavlov e Skinner), e como a Globo o faz com muita maestria com os seus telespectadores.

Com essa tautologia o Capitão visa aquecer continuamente o animus emocional do seu eleitorado, coordenado nas mídias sociais por um grande número de jovens de perfil religioso-conservador, e de suas milícias que recentemente promoveram ataques abertos aos jornalistas Glenn Greenwald e Miriam Leitão. Além disso, essa tática objetiva esconder os atos de desmonte do estado democrático brasileiro que o seu o desgoverno está perpetrando diariamente.

Se por um lado suas alardeadas propostas políticas pessoais apresentam-se patéticas, como bater continência para a bandeira dos EUA, suprimir a obrigatoriedade da cadeirinha de segurança para crianças em veículos e retirar os instrumentos fiscais eletrônicos de limite de velocidade das estradas federais, por outro lado a sua equipe de desgoverno age discretamente com o apoio estratégico da mídia para a implantação da reforma da previdência; para a liberação de 260 agrotóxicos, entre estes o Clorpirifós com riscos neurológicos comprovados, banido nos EUA pela Corte Americana; para a retirada das mãos dos reitores das universidades federais o direito de nomeação dos pró-reitores que serão feitas agora pela Casa Civil; para a criação de um grupo com apenas três pessoas para em 30 dias dar parecer sobre a simplificação do regime de outorga da lavra garimpeira; com o deslocamento do Conselho Superior do Cinema do Ministério da Cultura para a Casa Civil; com a venda da BR Distribuidora, subsidiária da Petrobrás, com mais de 8.000 postos de serviços, presente em todos os estados do país, tornando-a agora uma empresa privada. A BR Distribuidora, segundo a Revista Exame, foi a segunda maior empresa brasileira em faturamento em 2017 e a maior empresa do setor de distribuição de combustíveis no Brasil. Além disso, a Petrobrás já deu início às vendas de suas refinarias num processo que objetiva privatizar pelo menos metade da capacidade nacional de refino. Segundo a Petrobrás, “a proximidade dos campos produtores de petróleo na costa brasileira e o grande mercado consumidor fazem do setor de refino no Brasil um investimento único e atraente”.

Como bem anotou o Governador Flávio Dino, “um traço do discurso fascista é a identificação de inimigos para justificar suas próprias carências. As pesquisas mostram que o governo (do Capitão) não consegue cuidar do que é fundamental, como o desemprego e a recessão. Para esconder este fato, ele pratica a política da agressão, da busca de inimigos. É para tentar esconder o mau governo que ele faz”.

O cientista político alemão, Juan Linz, conheceu de perto os perigos que ameaçam as democracias. Ele dedicou grande para tentar entender como e por que as democracias morrem. Um dos pontos anotados diz respeito justamente ao papel das lideranças políticas, com seu comportamento podem reforçar a democracia ou coloca-la na cova. Assim, ele chama atenção para quatro sinais que devem preocupar o eleitorado e o sistema democrático como um todo. Primeiro, é preciso “atentar para quando políticos rejeitam, em palavras ou ações, as regras democráticas do jogo”, como o fizeram Serra e Aécio quando perderam as eleições ao anunciarem que estava aberta a trincheira contra o PT. Assim agiu o Capitão quando na campanha expressou que só aceitaria um único resultado daquela eleição: a sua vitória. Em segundo lugar, esses exterminadores das democracias “negam a legitimidade de seus oponentes”, ato contínuo do Capitão em suas verborragias, seja a nível interno como ao nível internacional. A terceira questão diz respeito ao “encorajamento da violência como método político”, algo que é a marca registrada dele e de seus seguidores. E por último, “a disposição para restringir liberdades civis dos oponentes”, o que o Capitão tem feito continuadamente seja no ataque à imprensa, à Academia, aos sindicatos, aos movimentos sociais, a partidos políticos de centro-esquerda, e agora de forma mais açodada na covarde violência preconceituosa contra brasileiros e brasileiras nascidos no Nordeste do Brasil, chamando-os de “paraíbas”, “paus-de-arara” e “cabeças chatas”.

Contra o Golpe de 2016 que nos foi imposto, não um golpe clássico, mas um golpe híbrido, o CAMINHO para vencê-lo é a UNIDADE das forças progressistas capaz de mobilizar a população para a reconquista de nosso estado de direito, assim como fez Gandhi na libertação da Índia: uma resistência ativa e inteligente. Um dos pontos fundamentais é a imediata libertação do PRESIDENTE LULA com a anulação de todos os processos que lhe são imputados indevida e ilegalmente pela estrutura do Golpe e da Mídia. E depois deste espetáculo de terror promovido pelo Capitão neste último final de semana, cabe aos Governadores dos estados brasileiros da Região Nordeste encabeçar o movimento de retomada de nossa democracia, unindo brasileiros e brasileiras dos quatro cantos do país. Chega de verborragia violenta, chega de discriminação, chega de estupidez. Retomemos o nosso caminho.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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