O LIVRO
Daniel Kahneman, em “Rápido e Devagar – duas formas de pensar “, trata do pensamento e do comportamento humano, a partir de uma perspectiva científica rigorosa, baseada em experimentos controlados, e focada em decisões, escolhas e julgamentos. Ele analisa o processo de pensar, decidir e julgar e aponta dezenas de erros e desvios comuns nesses processos. Ele explica os diversos tipos de heurística e de viés que condicionam nossa prática cotidiana.
O autor usa termos criados por outros pesquisadores para simplificar a compreensão de suas descobertas. Por exemplo, quando estabelece que o ser humano tem duas instâncias de pensamento, uma mais rápida, o Sistema 1, e uma mais devagar, o Sistema 2, que se articulam e se apoiam, mas nem sempre da maneira mais clara e positiva. Ou, noutro exemplo, quando debate o comportamento para colocar em confronto o racional e o emocional. Nessas circunstâncias, ele opõe os Econs (que se comportam segundo a mais clássica teoria econômica, livres e racionais) e os Humanos (mais próximos de ter seu comportamento definido pelas emoções). E, finalmente, quando ele estabelece a existência de dois “eus”: o eu experiencial (aquele que vive a experiência) e o eu recordativo (que usa a lembrança).
O livro está sempre relatando experimentos e apontando para o viés (uma espécie de preferência intuitiva que confronta a racionalidade) e para a heurística (investigação progressiva, por etapas, todas provisórias), e consegue manter-se no campo do rigor sem exageros, sem cansar o leitor, pois tanto os experimentos quanto as análises são feitas com situações típicas do cotidiano de pessoas comuns e a linguagem do autor é simples e direta.
Os exemplos e as análises envolvem juízes, empresários, serviço público, mídia, jogadores e apostadores, investidores e especuladores e, não raro, colocam essas figuras em situação muito próximas do ridículo. A figura dos CEO’s (executivos principais das empresas privadas), por exemplo, é bastante associada ao excesso de confiança, que beira a arrogância, lembrando que tais figuras costumam aparecer na mídia apenas quando acertam. As decisões em tribunais, por exemplo, prova o livro, têm enorme correlação estatística com a hora em que os julgadores se alimentaram.
A IMPORTÂNCIA DO LIVRO
Em termos clássicos, o mundo real (da política, da economia, por exemplo) sempre pautou-se pela premissa de que o comportamento humano é baseado na razão, o que dá enorme suporte ao pensamento político liberal-democrático e à ideologia capitalista. Nos últimos cinquenta anos, a turma do Marketing rompeu essa lógica e adotou a premissa de que o consumidor é mais regido pela emoção do que pela razão, e apostou e ganhou. Mais recentemente, desenvolveu-se a teoria das finanças comportamentais (ou economia comportamental), que, discretamente, os sistemas bancários adotaram imediatamente. Daniel Kahneman é uma estrela nesse campo de pesquisas e seu livro é uma excelente amostra do que esse novo saber é capaz de fazer em todos as áreas da vida moderna (política, economia, negócios, jogo, dinheiro, relacionamentos etc).
A leitura do livro exige fôlego e paciência, mas vale a pena percorrer todas as suas páginas. A absorção do conhecimento não é difícil, desafiador é aplicar suas lições à vida prática. Para psicólogos, psicanalistas, políticos e gestores públicos, profissionais das áreas de marketing e comunicação e para quem quer melhor compreender os erros de escolha e julgamento dos outros (e os próprios), trata-se de leitura mais que recomendada.
O AUTOR
Conforme a orelha do livro, Daniel Kahneman nasceu em Israel em 1934, é professor emérito de Psicologia da Universidade de Princeton e professor emérito de Psicologia e Relações Públicas da Woodrow Wilson School of Public Affairs de Princeton. Recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 2002 por sua obra pioneira com Amos Tvesky sobre os processos de tomada de decisões.
A PUBLICACÃO
“RÁPIDO E DEVAGAR – duas formas de pensar”, de Daniel Kahneman (Prêmio Nobel de Economia de 2002) foi publicado no Brasil pela editora Objetiva, em 2012 (um ano após seu lançamento no exterior), com 607 páginas. O livro inclui dois artigos científicos de Kahneman e quase 60 páginas de notas.
O Financial Times classificou o livro como “uma obra-prima”, e o New York Times Book Review o elegeu um dos melhores livros de 2011.
CURTAS
- Um compreensão mais profunda de julgamentos e escolhas exige também um vocabulário mais rico do que o disponível na linguagem do dia a dia.
- Os cientistas sociais da década de 1970 aceitavam amplamente duas ideias sobre a natureza humana. Primeiro, as pessoas são, no geral, racionais, e suas opiniões normalmente são sólidas. Segundo, as emoções como medo, afeição e ódio explicam a maioria das ocasiões em que as pessoas se afastam da racionalidade.
- Um tema recorrente deste livro é que a sorte desempenha um grande papel em toda história de sucesso; quase sempre é fácil identificar uma pequena mudança na história que teria transformado uma realização notável num desfecho medíocre. Nossa história não foi exceção.
- A expectativa de fofoca inteligente é um motivo poderoso para a autocrítica séria, mais poderoso do que resoluções de ano-novo para melhorar as próprias tomadas de decisão no trabalho e na vida pessoal.
- A intuição do especialista para nós parece magia, mas não é. Na verdade, todo mundo realiza prodígios de perícia intuitiva várias vezes ao dia.
- Dinheiro compra felicidade? A conclusão é que ser pobre torna a pessoa infeliz, e que ser rico pode intensificar a satisfação da vida de alguém, mas (na média) não melhora o bem-estar experimentado.
- Esta reforma não vai passar. Os que só têm a perder vão lutar com mais afinco do que os que só têm a ganhar.
- Os animais, incluindo as pessoas, se empenham mais para impedir perdas do que para obter ganhos… aversão à perda é uma poderosa força conservadora que favorece mudanças mínimas do “status quo” nas vidas tanto das instituições como dos indivíduos.
- O sucesso a longo prazo de um relacionamento depende muito mais de evitar o negativo do que de buscar o positivo.
- O cérebro de humanos e outros animais contém um mecanismo que é projetado para dar prioridade a notícias ruins.
- O estrago causado por CEO’s superconfiantes é agravado quando a imprensa de negócios os consagra como celebridades; a evidência indica que prêmios de imprensa prestigiosos para o CEO saem caro para os acionistas…Organizações que dão ouvidos a especialistas superconfiantes podem esperar consequências onerosas.
BONS MOMENTOS
- O Sistema 1 (de pensamento) funciona automaticamente e o Sistema 2 está normalmente em um confortável modo de pouco esforço, em que apenas uma fração de sua capacidade está envolvida. O Sistema 1 gera continuamente sugestões para o Sistema 2: impressões, intuições, intenções e sentimentos. Se endossadas pelo Sistema 2, impressões e intuições se tornam crenças, e impulsos se tornam ações voluntárias. Quando tudo funciona suavemente, o que acontece na maior parte do tempo, o Sistema 2 adota as sugestões do Sistema 1 com pouca ou nenhuma modificação. Você geralmente acredita em suas impressões e age segundo seus desejos, e tudo bem – normalmente… O Sistema 2 é ativado quando se detecta um evento que viola o modelo de mundo mantido pelo Sistema 1…Ao Sistema 2 também é atribuído o contínuo monitoramento de seu próprio comportamento – o controle que o mantém sendo educado quando está furioso, e alerta quando está dirigindo à noite… Na improvável eventualidade de este livro ser transformado em filme, o Sistema 2 seria um personagem secundário que acredita ser o herói. O traço definidor do Sistema 2, nesta história, é que suas operações são trabalhosas, e uma de suas principais características é a preguiça, uma relutância em investir mais esforço do que o estritamente necessário…O que os psicólogos realmente acreditam é que todos nós vivemos grande parte de nossas vidas guiados pelas impressões do Sistema 1.
- Uma “lei do menor esforço” geral se aplica tanto ao esforço cognitivo quanto físico. Essa lei determina que se há vários modos de atingir um objetivo, as pessoas acabarão por tender ao curso de ação menos exigente. Na economia da ação, esforço é um custo, e a aquisição de habilidade é impulsionada pelo equilíbrio de benefícios e custos. A preguiça é algo profundamente arraigado em nossa natureza.
- A ideia de dinheiro evoca individualismo: uma relutância a se envolver com os outros, a depender de outros ou a aceitar pedidos dos outros. A psicóloga que conduziu essa pesquisa notável, Kathleen Vohs, mostrou-se, de maneira louvável, contida em discutir as implicações de suas descobertas, deixando a tarefa aos seus leitores. Seus experimentos são profundos – suas descobertas sugerem que viver em uma cultura que nos cerca com lembretes de dinheiro pode moldar nosso comportamento e nossas atitudes de maneiras a respeito das quais não temos consciência e das quais talvez não nos orgulhemos.
- O mero pensamento de esfaquear um colega de trabalho pelas costas deixa as pessoas mais inclinadas a comprar sabão, desinfetante ou detergente do que pilhas, suco ou chocolate. Sentir que a própria alma está manchada parece disparar um desejo de limpar o corpo, impulso que foi apelidado de “efeito Lady Macbeth”.
- Um jeito confiável de fazer as pessoas acreditarem em falsidades é a repetição frequente, pois a familiaridade não é facilmente distinguível da verdade. Instituições autoritárias e marqueteiros sempre souberam desse fato. Mas foram os psicólogos que descobriram que você não precisa repetir a afirmação inteira de um fato ou ideia para lhe dar uma aparência de verdade.
- Ser pobre, na teoria da perspectiva, é viver abaixo do próprio ponto de referência. Há bens que os pobres precisam e não podem adquirir, de modo que estão sempre “no prejuízo”. Pequenas quantias de dinheiro que recebem são assim percebidas como redução do prejuízo, não como ganho. O dinheiro ajuda a pessoa a subir um pouco na direção do ponto de referência, mas os pobres permanecem sempre na parte abrupta da função de valor. Pessoas Pobres pensam como negociantes, mas a dinâmica é completamente diferente, Ao contrário de negociantes, os pobres não são indiferentes às diferenças entre ganhar alguma coisa e abrir mão de alguma coisa. O problema deles é que todas as suas escolhas se dão entre perdas. Dinheiro gasto em um bem é a perda de outro bem que poderia ter sido adquirido em lugar dele. Para os pobres, despesas são prejuízos.
- Confundir a experiência com a lembrança dela é uma ilusão cognitiva convincente – e é a substituição que nos faz acreditar que uma experiência passada pode ser arruinada. O eu experiencial não tem uma voz. O eu recordativo às vezes está errado, mas é ele que fica de olho no placar e governa o que aprendemos com a vida, e é ele quem toma as decisões. O que aprendemos com o passado é maximizar as qualidades de nossas futuras lembranças, não necessariamente de nossa futura experiência.. Essa é a tirania do eu recordativo.
Uma resposta
Há tempos algumas questões me inquietavam. A primeira era a de querer entender porque em geral temos mais interesse nas notícias ruins do que nas notícias boas. Os veículos de comunicação sabem tão bem disso, que se especializaram em vender notícias ruins. Uma outra era a de querer saber porque lidamos tão mal com nossos erros, ao ponto de as decisões no meio corporativo serem tomadas mais ancoradas no medo de perder do que na satisfação em ganhar. Me resta ler o livro do psicólogo Daniel Kahneman, para aprofundar meu conhecimento no tema e encarar o desafio de aplicar suas lições à vida prática, como alertou o professor Osvaldo em sua bem escrita resenha.