Represa

Ao longo dos anos construí em mim uma represa que foi necessária por um tempo. No entanto, hoje, vejo que as águas paradas e sem uso se tornaram densas e sufocantes. A cada estação em que a correnteza precisava seguir encontrava a grossa parede e ficava lá estagnada.

 

Hoje o que se vê são duas imagens completamente opostas. Tão distintas que me custa acreditar que fazem parte de um mesmo lugar. De um lado uma água opaca que não se enxerga muito além de um palmo de profundidade. Mergulhar nessas águas seria como ser sugado por algo sem nome, sem luz e que não deixa respirar. Do outro lado o sol reina, mas seca, esturrica, queima e não deixa nascer ou viver por muito tempo qualquer coisa. É duro, rachado, dói nos olhos, mas se pode caminhar. Suando muito, perdendo o juízo vez ou outra ou vislumbrando oásis inexistentes, mesmo assim, ainda se caminha. 

 

O lado cheio pesa, mas segura a densidade. O lado seco dói, mas ainda permite andar. 

 

Vez ou outra percebo rachaduras na parede da represa e corro para fazer o reparo. Elas aparecem, pois, a represa foi construída sem tantos planos e às pressas. As comportas, necessárias para deixar a água passar, foram esquecidas em meio a um projeto sem tanto orçamento e com curto prazo de entrega. 

 

Sendo assim, é preciso manter o status de vigilância e reparo ao menor sinal de rachaduras. Faço isso com medo, com álcool, com risos falsos ou mudando de assunto, comendo muito ou transando de forma vazia, sem dormir ou com o pensamento longe, bem longe, para não estar ali, pois fazer esse trabalho é, muitas das vezes, doloroso e inquieto.

 

De uns tempos para cá percebi que as bordas do lado represado morrem aos poucos. Sem fluxo nenhum a água e todo o espaço que ela ocupa têm sido condenados a um breu, que vem devagar, mas se mostra potente. O lado “protegido” está a morrer também, já que não há água e assim não se vive. A visão parece dura, mas é tudo tão delicado que um pisar errado dói, ofende, se prende a uma lama seca ou quebra a terra e deixa uma marca funda. 

 

– Preciso de cuidado comigo mesma. Onde piso e aonde vou com meus pensamentos.- Repito enquanto ando. 

 

Um dia sentei em um espaço em que podia visualizar os dois lados. Para ter aquela visão era preciso andar pelo meio. No muro construído. Qualquer ponto que pisasse além daquele espaço significava cair em um dos dois lados. Mas àquela altura só o olhar por muito tempo era sentido nas córneas e no corpo. Acho que até na alma. Doía. 

 

Precisava de ajuda para parar de construir, consertar e quem sabe, um dia, achar espaços para comportas ou até mesmo destruir a represa. Era necessário deixar o rio correr novamente e equilibrar as áreas e criar micro e macroecossistemas. O problema era que cada vez que eu tentava sozinha, era um desastre. Escorregava, chorava, me machucava parava e olhava para outras coisas além do além. Aquilo não fazia sentido, não sem ajuda. 

 

Aceitado o fato de sozinha não conseguiria, era preciso achar trabalhadores qualificados, companheiros de jornada de represa. Seria um trabalho de longa caminhada e meus passos são curtos, cambaleantes e cansados.

 

 – Nossa, que cansaço! –

 

 Eu aprendi a correr pequenas distâncias para sobreviver, mas longas caminhadas, mesmo que a passos curtos, não era minha experiência. No entanto, em grupo seria mais fácil 

 

Precisava sentar, não como agora me vejo – sentada de longe e a observar. Sei que, se começasse a caminhada de trabalho na represa, precisaria sentar entre as passadas, e ainda seria necessária uma mão para me levantar, uma voz que falasse sobre os caminhos já percorridos e os mais que viriam, e ouvidos que me escutassem sem julgamentos, sem soluções prontas, que só me deixassem reclamar. 

 

Seria necessário também achar uma boa fornecedora de ferramentas. Um banco, algumas cordas, um capacete, uma bússola e, com certeza, bons sapatos. Confortáveis. 

 

– Achei tudo isso! – 

 

Recebi explicações de que o banco seria para descansar e para descer nas paredes da represa, as cordas me ajudariam a segurar no caminho em cima do muro, serviriam para escalar a parede e me dariam segurança em dias de ventos fortes. A bússola me lembraria onde é o Norte, o capacete me protegeria em caso de quedas e os sapatos aliviariam as dores da caminhada. 

 

Além de tudo isso, achei uma guia com experiência em represas para compor o grupo. A voz e os ouvidos que, mesmo sem braços presentes, me acolheriam e me fariam perceber o trabalho feito e aquele a se fazer. Ajudariame a ler melhor os mapas e projetos que eu mesma construí em meio à bagunça e pressa para finalizar a represa, achando que assim ela me protegeria. E me protegeu por um tempo. 

 

O trabalho iniciou e eu ditei o ritmo. As pernas cansadas e cambaleantes, com o tempo, perceberam que poderiam percorrer muito sem nem mesmo sair do lugar. Começamos pelo lado seco. Seria o melhor caminho, pois o outro lado me sufocaria. 

 

Com algum tempo de trabalho começamos a ver as camadas da densa parede caindo. Pedaço por pedaço. E então a água jorrava em mim. Eu subia o banco segurando pelas cordas e sentava na divisa ouvindo a outra trabalhadora que me acompanhava. 

 

– A represa sangra! – 

 

A água atravessa um pouco a rachadura. Descanso um pouco no banco e nas cordas. Seco o molhado que a rachadura deixou em mim e respiro. Observo os dois lados e o pequeno sangramento, e me afasto de lá. Vez ou outra volto em pensamento e lembro do trabalho e do molhado. Como é difícil não molhar, como é difícil secar Mas é preciso sangrar.

 

Após idas e vindas e dias de trabalho na represa percebo que, finalmente, a primeira ação ao ver uma rachadura não esperada, ou meu primeiro pensamento, não é mais consertar a rachadura, é deixar derramar. O musgo, sei, uma hora irá estancar a abertura e depois irei novamente para o grande muro, e meu trabalho o fará sangrar novamente, e aos poucos diminuirá a umidade e a morte por sufocamento de um lado, e dará oportunidade do lado árido florescer. 

 

Os passos continuarão curtos, mas agora, com uma boa fornecedora de ferramentas — que me orienta a usá-las da melhor forma possível — e uma parceira de caminhada que me lembra de respirar e acompanha o ritmo das pisadas cambaleantes, mas persistentes.

Jessika Sampaio

Curiosa, tagarela, viajante, feminista, caótica e contraditória. Ignorante sobre quase tudo e em constante aprendizado sobre o vazio da existência. Além de ser bicho humano, já atuei como jornalista, radialista, assessora de imprensa e de comunicação, coordenadora de comunicação e em lutas ambientais e LGBTQIA+. Em processo de aceitação da escritora que grita aqui dentro.

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