Remédios amargos… e ineficazes!

“Para o capitalismo funcionar, a maioria das pessoas deve estar desempoderada, precarizada e dependente do mercado.”

Clara Mattei, autora do livro “A ordem capitalista”

Os remédios usados pela economia para debelar as doenças da relação social por ela mediada têm sempre efeitos colaterais, e o grave problema de serem sempre apenas paliativos, sem curar a doença que lhe é imanente e causando a destrutibilidade social e da própria forma.

O processo de segregação social introduzido na humanidade a partir das trocas de objetos transformados em mercadorias quantificadas como valor pelo tempo de trabalho abstrato nelas empregado, que substituiu a escravidão direta sem salário pela escravidão indireta do salário, desenvolveu-se há milênios parecendo algo civilizador. Não era e não é.

Mas se sempre foi segregacionista, agora, ao atingir o ápice de sua evolução pretensamente civilizatória, está a demonstrar sua verdadeira face carantonha, promovendo um êxodo migratório desesperado das populações empobrecidas e assassinadas pelas tiranias governamentais dos países da linha do equador e abaixo dela; a insatisfação dos jovens (mesmo europeus) aos quais é negado até a própria exploração pelo trabalho abstrato (desemprego estrutural); aquecimento global; e ameaça de hecatombe nuclear.
Observa-se um processo de depressão econômica mesmo em países que funcionam como locomotivas mundiais como é o caso do país que detém o maior PIB do mundo, os Estados Unidos, que neste primeiro semestre avançou apenas 1,1%, ante uma projeção anteriormente feita por economistas para 2,0%.

A expectativa para o segundo semestre por lá não é alentadora. Comprovou-se uma queda no investimento privado de estoques de mercadorias, bem como no setor da habitação individual, e isto após um período de inatividade causado pela pandemia, quando se esperava que a demanda reprimida pudesse alavancar melhorias.
Sintomático é que contrastando com a queda da atividade econômica observa-se uma renitente tendência de crescimento da inflação estadunidense que foi de 6,3% em 2022, e que coloca em risco os baixos índices projetados para 3,9% para o ano de 2023, muito altos para os padrões do Tio Sam.

Para conter o dragão da inflação, que nada mais é do que emissão de dinheiro sem valor pelo FED sem conexão com a produção de mercadorias, elevam-se as taxas de juros, que por lá saíram do patamar de 0% a 0,25% aa para 4,75% a 5,00% aa.
O efeito colateral disso é que o capital migra para as aplicações de curto prazo objetivando lucro de capital meramente especulativo, o que faz com que a atividade produtiva veja seus custos de financiamento encarecidos e as bolsas de valores estadunidenses caiam, tanto assim que o índice S&P 500, que reúne as 500 maiores empresas com cotação no altar do capitalismo, sofreu queda de 19,4% em 2022, seguindo sem recuperação expressiva em 2023 (crescimento de apenas 5,6% no semestre, que não recompõe a perda de valor da moeda pela inflação nos dois períodos).

Todos os rentistas com aplicações financeiras na S&P 500, de 2022 até esta data, perderam dinheiro, o que é um sinal de grave decomposição de lucros e rendas.
Há uma previsão de contração do PIB dos Estados Unidos (foi de 2,1% em 2022) que deve ter uma expansão de apenas 0,5% para 2023, o que significa um prenúncio de recessão técnica. Estamos falando da maior economia do mundo.

A União Europeia segue a mesma trilha, com o agravante de estar próxima e envolvida em uma guerra eurasiana entre países detentores de reservas energéticas (gás e petróleo ne Rússia) e outro grande produtor de alimentos (trigo na Ucrânia),
No Brasil de Lula, em que pese alguns indicadores econômicos positivos como a queda do dólar e da inflação, permanecem os altos indicadores de desemprego; o aumento da fome (segundo a FAO); e a queda nas vendas do comércio varejista no último trimestre, fatores que vêm causando preocupações num governo que sabe que se não houver retomada do desenvolvimento econômico dificilmente se manterão bons níveis de popularidade.

Um país que tem taxa de juros anuais de 13,75% ao ano, com altos ganhos reais de capital descontada a inflação, torna-se o paraíso dos rentistas especulativos, e o sacrifício da população endividada, que se vê obrigada à inadimplência, como está a registrar os altos indicadores de registro dos endividamentos privados.

Se o fantasma da inflação, que significa a forma mais agressiva de confisco salarial conjugada com a extração de mais-valia, produz as altas taxas de juros como forma de seu combate, por outro lado produz recessão, e esta é a causa da redução das vendas no comércio varejista no Brasil (aliada a outros fatores econômicos externos) que sinaliza para o setor industrial a redução de investimentos em capital fixo (das máquinas) e variável (de salários).

A soma de queda nas vendas e na produção, que projeta um novo crescimento pífio da economia brasileira, reeditando o que vem ocorrendo desde 2013 (quando se iniciou a chamada década perdida), situa as várias análises crescimento do PIB em torno de 2,% (que variam de 1,% a 2,3% para o IFI – Instituição Fiscal Independente).

E isto num ano em que o setor primário da economia (o agronegócio) tem dado resultados surpreendentes. Mas como alimento tem pouco valor e preço de mercado, continuamos alimentando o mundo, a tendo aumento da fome entre os brasileiros. Pode?

Considerando que estamos há dez anos sem crescimento econômico significativo, não se pode cogitar de melhoria substancial no alto grau de desemprego no Brasil, em torno de 8,6% (dados de dezembro de 2022) da população economicamente ativa, ou 9,2 milhões de trabalhadores, e nada é mais perturbador para alguém apto ao trabalho (e à exploração que lhe é imanente), do que ver o velocímetro dos custos familiares correndo e voltar para casa após um dia extenuante de busca por uma emprego que não existe.

Sobre este quadro desolador, o mercado, esta mão-invisível que se torna real e nos submete, exige austeridade fiscal (??????), ou seja, que se enquadre os gastos governamentais (e aí com prioridade para o corte do atendimento das demandas sociais, até as básicas como saúde e educação) dentro do orçamento fiscal cada vez mais reduzido por conta da depressão econômica.

Austeridade fiscal é bandeira da direita fascista que quer o Estado mínimo e com dinheiro suficiente para a manutenção das garras institucionais ditatoriais ou democrático-burguesas aptas ao exercício da sua função opressora, mas o relaxamento dos gastos públicos acima da receita provoca inflação, ou seja, se correr o bicho pega, e se ficar o bicho come, e o nome do bicho é CAPITALISMO.

Neste sentido aparece mais uma contradição sistêmica. Enquanto o centrão, formado por uma escória parlamentar eleita nos grotões de pobreza brasileira onde o capital e o poder político são dominantes, quer mais verbas para a sustentação eleitoral e enriquecimento pessoal pela via da corrupção das verbas públicas, os donos do PIB (que são os que mandam no Brasil) desejam a austeridade fiscal como forma de controle da economia às custas do sacrifício popular.

Lula cede às exigências políticas do centrão de Lira e companhia; cede Ministérios àqueles mesmos partidos que promoveram o mensalão e o petrolão sob os olhares acumpliciados do PT (partidos onde hoje estão os lavajatistas jurídicos e bolsonaristas que até ontem aplaudiam o genocida da cloroquina, e no comando político de gente como Valdemar da Costa Neto, o dono do PL que tem 99 parlamentares, e fora condenado por corrupção do mesmo mensalão).

Dá para acreditar num Brasil diferente quando Lula diz que é do jogo democrático conviver a partilhar a governabilidade com gente deste naipe????
Diante de tudo só podemos entender que com os remédios ora usados temos tudo para morrermos bem melhorados!!!!

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;