RELATOS COMOVENTES E AUTORIDADES INCONSEQUENTES – Pesadelo

“[Ele] representava e representa uma outra face do Brasil: o lado capaz de nos salvar.” (Frase atribuída ao diretor João Moreira Sales sobre o universalmente celebrado pianista mineiro e carioca Nelson Freire, recentemente falecido).

 

Ylia.

Antes da pandemia, ela costumava chegar mal abríamos as portas da padaria para mais um dia de atendimento à prazenteira clientela. Vestia-se sobriamente. Sentava-se à mesinha mais próxima do balcão de atendimento e saboreava o cafezinho forte e fumegante, em goles curtos e meticulosamente sequenciados, com nacos de apetitosa tapioquinha de coco como guarnição. Conversava com todos sobre amenidades. Sempre tinha algo novo a contar. Comprava uns dois ou três carioquinhas, despedia-se alegremente e ia-se tranquilamente. Apreciava dizer que já vivera 76 anos e alguns meses, que ficara viúva há mais de duas décadas, que não procriara um único filho, que não havia parentes em seu entorno e que, por isso, sofria de apenas um mal: o da solidão; mas aprendera a resistir às intempéries de uma vida solitária. Não tinha com quem compartilhar nada. Não viajava, não lia, não se divertia. De costumes e hábitos bem convencionais, não se entregara a vícios. Ouvia músicas em um radinho de pilha colado ao ouvido; assistia às telenovelas. Recolhia-se cedo da noite. Sonhava apenas. E, em sonhos, alimentava a esperança de encontrar alguém que se dispusesse a servir-lhe de acompanhante nesta jornada tão exigente, tão rigorosa e tão prazerosa, cujo destino é o fim… “de todos nós”, costumava enfatizar. Debalde. Cansou-se de tanto esperar. Desesperançou-se. Passou a alimentar outros tipos de sonhos. Restritos se tonaram os desejos. Anularam-se os inconfessáveis. No dia da partida, que certamente viria mais cedo ou mais tarde, não contaria com quem quer que fosse da família a segurar uma das alças do caixão. Aos amigos, este ato de caridade cristã confiaria. Apesar dos cabelos grisalhos e curtos, mal chegados aos ombros; o olhar desprovido de esperanças; os lábios descarnados, sem brilho e sem enlevo de sorrisos; a pele amorenada e pelos ralos sem arrepios de viço; e o andar arrastado e lento (perfil nada comparável, portanto, ao da “virgem dos lábios de mel”, que, conforme o romancista, possuía cabelos dotados de um negror tal que se igualava ao das asas da graúna, a escorrer pelo gracioso e virginal corpo feminil, alongando-se bem mais que o talhe da palmeira; que era tão rápida, ágil e lépida como uma ema selvática desbravando as matas selvagens, os prados e as serras; que se banhava tanto nas mansas e escuras águas da lagoa de Messejana quanto nas desbordadas do alto da bica do Ipu), os olhos castanhos escuros desvelavam o prazer incontido de também chamar-se Iracema, o que, segundo ela, preservava as suas origens indígenas de que emanavam e ecoavam graciosidade e liberdade. Pois bem. Aos poucos, vamos retomando a normalidade das nossas vidas, embora sob a proteção da vacina, da máscara e do álcool em gel. Só ela não reapareceu. E por quê? Por haver contraído o vírus, invisível e letal. Por ter sido internada em estado grave, com o sistema respiratório profundamente comprometido. Por ter requerido cuidados médicos intensos. Dispensaram-lhe o devido tratamento. Mas ela não resistiu. A sua nau soçobrou ao inesperado vendaval. O seu caso passou a fazer parte das estatísticas que refletem quanta incompetência e insensibilidade grassaram no topo da pirâmide onde se instala o poder público.

Riaj.

E daí! (Leiam: E o que eu tenho a ver com isso?!).

 

Eddy.

Minha mulher já estava indo para o oitavo mês de gestação… já se passavam um pouco mais de trinta semanas… quando, juntos, contraímos o coronavírus. Não soubemos como, embora isso não venha ao caso. A descoberta abalou-nos profundamente. Tanto cuidado tivemos… mormente por conta dos riscos que isso impingiria à gravidez e, pior, poderia afetar o nosso bebê. O quadro logo se agudizou. Os sintomas iam apressadamente corroendo a nossa resistência, a capacidade de reação, a nossa resiliência. E nós íamos aos poucos fraquejando. Acionado o sistema de atendimento oficial para casos do gênero, fomos levados de ambulância a distintas unidades de tratamento. Acabei internado em hospital de campanha. Depois de ser entubado e tratado por longo período em leito de UTI, consegui sobreviver. Se me senti alegre por isso, confesso que essa sensação de vitória se evanesceu, se esvaiu tão logo soube do que ocorrera com a minha mulher e a minha filha. Assim que adentrou o hospital, os médicos avaliaram o estado clínico dela e logo decidiram pela cesariana, para salvaguardar a integridade do feto, para proporcionar-lhe o direito à vida. E assim agiram. A criança nasceu saudável; por razões óbvias, levaram-na diretamente à incubadora. A mãe resistiu à cirurgia, mas com ela não se verificou a desejada reversão do quadro viral; então, impuseram-na o mesmo trajeto por mim seguido, ou seja, a entubação e o recolhimento à UTI. Só que ela não resistiu. O vírus a matou, deixando-me viúvo, ora em processo de convalescença, de recuperação, com uma orfãzinha para encaminhar na vida. Esta é a minha dor lancinante, que de mim se apropriou, que insiste e teima em não me largar. Maldigo os que poderiam e deveriam ter feito alguma coisa em proteção e defesa das pessoas e, por incompetência, indolência ou teimosia, preferiram omitir-se, praticamente nada fazerem.

Riaj.

E daí! (Leiam: Que culpa tenho eu, se muitos ainda vão morrer?!).

 

Ézic.

Os meus pais eram sertanejos de raiz. Lá enterraram os seus cordões umbilicais, lá exigiam que fossem enterrados os seus restos mortais. Sobre isso havia até um acordo tácito entre eles firmado, com o aval não-verbalizado dos parentes mais próximos. Jamais trocariam o sertão, que aprenderam a amar desde sempre, pelos atrativos modernosos da cidade. Septuagenários e portadores de comorbidades, tornaram-se presas frágeis ante a ação invasiva e letal do vírus cruel. Antes que a vacina chegasse até eles, a desesperadora sensação de afogamento impôs-lhes a dor do sufocamento, além do prenúncio da inevitável morte. A necessária hospitalização rompeu definitivamente os laços que os mantiveram unidos por mais de meio século. Cada um deles deve ter lutado ao extremo das suas reais possibilidades, ter resistido o mais que pôde à crueza do fim anunciado.  A nós, filhos e netos, restou-nos a acabrunhante convicção da impotência, da incapacidade e da insignificância. Os dois morreram no mesmo dia… e nós nada pudemos fazer até no pranteado enterro. De longe, apenas choramos a dor da perda. E isso ninguém pôde negar-nos. Enquanto isso, o detentor circunstancial do poder republicano brincava de chacotas com o pessoal do chiqueirinho, debochava nas lives do sofrimento alheio, desfilava garbosamente nas motociatas, defendia inconsequentemente a imunidade de rebanho e recomendava irresponsavelmente o tratamento precoce à base de medicamentos sem eficácia comprovada.

Riaj.

E daí! (Leiam: Dos críticos do kit-Covid, quem cuida é a Morte!).

 

Elie.

A menina de doze anos chorava a perda dos pais. E em meio ao choro assumia publicamente a responsabilidade pela irmã de apenas seis. A que ponto chega a insensibilidade da Morte. Cumpre friamente com o seu tenebroso papel de ceifadora de vidas, de histórias, de amores, de sonhos, sem se preocupar minimamente com as consequências do seu ato. Os pais daquelas crianças, um futuroso engenheiro de produção e uma respeitável enfermeira atuando no front da guerra insana contra o vírus e seus estragos, contraíram o letal coronavírus, contra o qual ela tanto combatera. Enquanto os dois lutavam bravamente pela vida em leitos de UTI, as filhas – uma, pré-adolescente; a outra, criança ainda – não sabiam como enfrentar o caos que se abateria sobre as suas tenras idades. Identicamente a Tânatos, insensível também, a autoridade máxima da res pública, evocando o poder constitucional de Senhor Supremo das forças armadas, ameaçava a Nação, mesmo veladamente, com algum tipo de intervenção antidemocrática, menosprezando as agruras, as aflições, as amarguras do povo que cotidianamente perdia seus entes queridos para o vírus invisível, invasivo e letal. Quantas crianças sofrem hoje as consequências da orfandade porque seus pais tiveram suas vidas interrompidas pela Covid-19? Alguém me responde? (Silêncio sepulcral).

Riaj.

E daí! (Leiam: Eu sou apenas o presidente da República. Não sou Jesus Cristo.).

 

Marc.

Ele tinha apenas 25 anos incompletos. Ele era único. Único filho meu. Único neto. Estudioso, graduou-se em Tecnologia da Informação. Atuava profissionalmente na área que escolhera. Especializou-se. Pretendia doutorar-se. Crescia na organização com que mantinha vínculo empregatício à medida que amadurecia como indivíduo, como homem. Com a noiva, também graduada em TI, dedicavam-se integralmente na busca pela realização dos seus sonhos. Para mim, ele era a certeza da minha perpetuidade. Ele me fazia sentir o saudável orgulho de ser pai, até porque eu houvera conseguido dar a ele um pouco mais do que recebi do meu saudoso progenitor. Hoje eu acompanhei, de longe, o enterro do meu filho, vítima do coronavírus. Apoiei-me na mãe dele e, juntos, parceiros eternos, partilhamos a mais sofrida e profunda dor que a Morte pode infligir à Vida. O vazio apoderou-se de nós para todo o sempre. Jamais seremos o que fomos. A triste experiência não nos causou apenas a dor física; a marca mais cruel tornou-se indelével na alma, destruindo-nos nas entranhas. Nenhum sofrimento se compara ao que nos atingiu. Em quaisquer circunstâncias, o nosso choro jamais cessará. Essa dor irá conosco ao túmulo.

Riaj.

E daí! (Leiam: E que o Brasil não seja o país de maricas!).

 

Vany.

O marido da minha amiga, microempresária na prestação de serviços eletrônicos, era aposentado do Banco do Brasil. Seu único hobby consistia em ouvir, ao cair da tarde, músicas de Roberto Carlos, Nelson Gonçalves e Altemar Dutra, ao sabor de algumas tulipas de cerveja estupidamente gelada. Ah, tinha o hábito de acordar muito cedo e caminhar pelas ruas do entorno da sua casa, antes que o sol produzisse raios mais cálidos. Sentia prazer em ler jornais e revistas na rede de varandas armada em área coberta no fundo do quintal. Dizia ser tricolor, embora sem muito fervor. A pandemia impôs-lhe o recesso intramuros da sua residência. Por curto tempo. A dores nas articulações, seguiu-se o desconforto da respiração sob esforço. Os cuidados com a saúde levaram-no à clinica mais próxima para atendimento de urgência. De lá, ao hospital de exclusivo tratamento da Covid-19. Internação. Entubação. UTI. Morte. A mulher, agora viúva, diz ter sofrido a pior dor da separação: de longe, da calçada do hospital, acompanhou o traslado do corpo do marido, com quem conviveu por quase meio século,  em saco plástico preto envolvido, para a funerária onde receberia o tratamento adequado ao caso, incluindo o depósito em caixão lacrado e o enterro em vala comum em cemitério popular. Ali, dele despediu-se, sem choro. O choro copioso só veio quando se encontrou com os filhos, as noras e os netos. Algo indescritível, inenarrável. E a vida de todos jamais foi a mesma. O eixo da vida deslocou-se do centro. E quase perdeu o rumo. Muito difícil foi reunir os cacos. Restaram as emendas, as cicatrizes.

Riaj.

E daí! (Leiam: Quem recebeu as duas doses da vacina corre o risco de contrair Aids.).

 

Xyko.

E o mito morreu. Há mitos que não conseguem tornar-se imortais. Os atletas – mesmo os de ponta – não são amortais. Eles, como todos nós,  os cidadãos comuns, os normais, também fenecem (com poesia!) ou batem a biela (sem poesia!). E, como diziam nos sertões d’antanho, de morte morrida (de dentro pra fora) ou de morte matada (de fora pra dentro). Quem assume posições extremas e não se verga às condições e exigências da realidade riscos sempre há de correr. Ocorre que um dos mais sinceros seguidores do mito não suportou a amplitude e a profundeza da frustração. Nada de fechamento do Supremo. Nada da suspensão das atividades do Congresso. Nada das forças armadas assumindo os destinos da Nação, sob o firme comando do capitão, que fraquejou, que postergou, que procrastinou, que tergiversou, que enganou. Um domingo. Uma caminhada sem máscara. Um drone. Um tiro. Um projétil que perfura a parte alta da nuca e sai pela base do pescoço e queima os pelos do peito. Um baque. Um corpo que cai. Um beijo forçado no asfalto. E o mito já era. Quando a notícia chega ao céu, um grupo de mais de seiscentos mil anjos recentemente admitidos no seio do Senhor, unidos pelas mesmas circunstâncias – egressos de um país tropical e vítimas de uma pandemia –, postaram-se diante do trono do Altíssimo e respeitosamente encaminharam um pedido, aceito de pronto por quem mantém o universo sob seu justo e infalível pulso. Quando Riaj bateu à porta de acesso à eternidade prometida aos justos, Pedro, o mordomo celestial, quis saber (como se não soubesse):

– Quem é?

A resposta veio carregada de arrogância:

– Sou eu, Riaj. O presidente vitalício de Godland…

– Não creio. – Refutou Pedro. – O homem que manda na Terra de Deus… Vou consultar o seu dossiê. – Enquanto isso, mandou que abrissem o largo portão de acesso ao hall de entrada do céu. Ao ver o proponente ao acesso à eternidade, prosseguiu. – Infelizmente, você só apresenta um fator favorável, de baixa cotação. O “Messias” que carrega no nome. E isso lhe dá o direito de defender, com argumentação irretorquível, o seu mérito de virar anjo. Aproveite bem a oportunidade…

E Riaj, agora se percebendo sozinho, mas ainda envolto no véu da sua imortal incompetência, tremeu nas bases. (Meu pai costumava dizer que quem tem ânus, tem medo) Mesmo assim, engendrou um breve discurso em seu favor.

– Escolhido pelo meu povo, assumi o governo do meu país com o propósito de instalar um novo tipo de gestão, com que extirparia a corrupção que grassava em todos os níveis de poder e fazia sangrar as divisas públicas recolhidas de um povo que sofria. Agi nesse sentido. Mas veio a pandemia. E o meu projeto teve de ser alterado na essência, tomar outro rumo. Defendi o tratamento precoce, a imunidade de rebanho, o não-isolamento social, a não-vacinação. E, se muitos morreram, é porque preferiram seguir os meus adversários políticos…

E Riaj ouviu o coro de mais de seiscentas mil vozes:

– E daí! (Leiam: Que o inferno seja o teu destino!).

A mulher o acordou, indagando-o:

– Você está bem? O que houve?

E ele, sentado na cama, suando por todos os poros, respondeu:

– Estou bem. Foi só um pesadelo…

 

NOTA DO AUTOR:

Os personagens desta crônica, aos quais confiei a autoria dos seis relatos comoventes, receberam de mim nomes derivados dos de pessoas do meu mais benquerer, com os quais converso animadamente sobre quaisquer assuntos, sob o gustativo apreciamento de um cafezinho forte, quente e saboroso, por não mais de meia hora, em todas as manhãs – exceto as de domingo, reservadas para ir à missa na capela de São José Operário, quase nas biqueiras da minha casa, quando presto contas dos meus atos e omissões, além de pedir perdão pelos pecados (tantos que não seria de bom alvitre empilhá-los por prazo maior) cometidos no curso da semana. Assim: Ylia é Marília (a gentil atendente de balcão); Elie é Eliane (a prestimosa caixa); Vany é Vânia (freguesa com lugar cativo na padaria, por merecimento); Ézic é Francisco José ou simplesmente Cizé (freguês das antigas e bom de conversa); Marc é Marcelino (freguês e amigo, daqueles que a gente guarda no lado esquerdo do peito); e Eddy é Edigleuson, o seu Didi (o gerente geral). A Iracema – nome imaginário de personagem real, no caso –, que dá expressividade ao relato inaugural, carrega em seu perfil traços da senhora quase octogenária que até bem pouco tempo se fazia mais assídua nos nossos colóquios matinais, sobre quem não pairam sequer vestígios de que tenha sido visitada pelo coronavirus; ressalva que se impõe, porquanto, na condição de escrevinhador, eu posso até matar personagens, mas jamais ceifarei a vida de pessoas. Quanto ao Riaj e ao Xyko, desnecessária se torna qualquer referência ou apresentação. A obviedade está no texto. Os entendedores entenderão.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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