Reinventar a ação política, por Alexandre Aragão de Albuquerque

O tempo em que estamos vivendo é pleno de discursos vazios que não conseguem mais responder às demandas de pessoas e populações. Se por um lado estamos presenciando a êxodos, a fomes, guerras, corrupções, concentração de renda privada, endividamentos das nações, por outro, desenvolve-se um movimento cada vez maior que clama por uma participação mais ativa dos cidadãos seja nas decisões sobre suas vidas bem como numa divisão mais equânime dos bens produzidos socialmente. Se no passado foram as vias marinhas, férreas e aéreas responsáveis pela aproximação das culturas, possibilitando por meio desse intercâmbio a compreensão de uma vocação universalista dos seres humanos na obtenção de seus direitos, hoje é a infovia a grande protagonista da produção do conhecimento coletivo acerca da realidade global e local, implicando o desejo de mudança na forma de se fazer política.

Se por definição a política é o aspecto da condição humana responsável pela condução do bem coletivo dos indivíduos e grupos em geral, impõe-se, diante da crise mundial na qual estamos imersos, repensá-la a partir de seus objetivos, métodos e conteúdos. O Homo, como bem relembra Theilhard Chardin, é um fenômeno ético, psicológico, cultural, material-e-espiritual simultaneamente. Por isso não pode ser reduzido a condições sociais e econômicas de mero produtor e consumidor de bens. Ao mesmo tempo, não sendo a sociedade uma massa homogênea, mas uma realidade complexa com grupos e sub-grupos que se imbricam, entrecruzam-se e se soldam, é fundamental estar atentos para as relações de reciprocidade necessárias à sobrevivência do contrato social no tempo presente. Os primeiros tempos do sistema industrial nos ensinaram sobre o resultado permanente e objetivo da exploração econômica capitalista: a distribuição injusta dos bens, conduzindo um enorme número de despossuídos à degradação da sobrevivência mais elementar, que não deixava espaço para mais nada. O domínio das massas que antes se obtinha com o despotismo político, por meio da violência e do medo, com a exploração capitalista obtém-se pela miséria material e necessidade bruta dos trabalhadores e trabalhadoras.

No tempo presente, o professor Milton Santos em seus estudos vem nos lembrar que a globalização não é apenas a existência de um novo sistema de técnicas de produção e distribuição. Ela é também a emergência de um mercado dito global, responsável pelo essencial dos processos políticos atualmente eficazes. Os fatores que contribuem para explicar a arquitetura da globalização atual são: a unicidade da técnica, a convergência dos momentos, a cognoscibilidade do planeta e a existência de um motor único na história, representado pela mais-valia globalizada. Um mercado global utilizando esse sistema de técnicas avançadas resulta nessa globalização perversa. Isso poderia ser diferente se o seu uso político fosse outro. Para ele, esse é o debate central.

A competividade atual, ainda nas palavras do professor Milton Santos, tem a guerra como norma: há, a todo custo, que vencer o outro, para tomar o seu lugar. Esta guerra como norma justifica toda forma de apelo à força, utilizado para dirimir os conflitos dessa “ética da competitividade”. Ela se funda na invenção de novas armas de luta, num exercício em que a única regra é a conquista da melhor posição. É uma espécie de guerra onde vale tudo e, desse modo, sua prática provoca um afrouxamento dos valores morais e um convite ao exercício da violência. Para exercer a competitividade em estado puro e obter o dinheiro em estado puro, o poder deve ser também exercido em estado puro. O uso da força sendo tornada uma necessidade. Não há outro telos, outra finalidade que o próprio uso da força, já que ela é indispensável para competir e fazer mais dinheiro. E tudo isso vem acompanhado pela desnecessidade de responsabilidade perante o outro, a coletividade próxima e a humanidade como um todo. A perversidade do sistema global consiste, portanto, na instituição da competitividade como regra absoluta, competitividade que escorre sobre todo o edifício social. O outro, seja ele empresa, instituição ou pessoa, aparece como um obstáculo à realização dos fins de cada um e deve ser removido, sendo considerado uma coisa. Decorrem daí a celebração do egoísmo, o alastramento dos narcisismos, a banalização da guerra de todos contra todos, com a utilização de qualquer que seja o meio para obter o fim colimado, isto é, competir e vencer. Como subproduto da competitividade surge a corrupção. Os papéis dominantes, legitimados pela ideologia, pela mídia e pela prática da competitividade, são a mentira, o engodo, a dissimulação e o cinismo, glorificando a esperteza, negando a sinceridade, glorificando a avareza, negando a generosidade. Desse modo, o caminho fica aberto ao abandono das solidariedades e ao fim da Ética e, consequentemente, da Política.

Talvez, ao aprofundarmos melhor nossa reflexão, consigamos entender os porquês do momento que estamos vivendo. E diante desse entendimento, perguntar-nos: o que fazer?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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