REFLEXÕES DE RAMLIG

 

Sou Ramlig, um monge de vida intensa e idade avançada. Minha barba está longa e branca. Meu corpo é saudável porque vivo a Natureza. Moro só num mosteiro bem no topo de uma montanha, lugar calmo e maravilhoso. Vim pra cá muito jovem, atendendo a um chamado.

 

Dediquei-me à meditação, com maior intensidade ao nascer do sol e no ocaso. A luz da lua também me presenteia com um bom fluxo de paz e inspiração.

 

Agora é noite e estou no lago azul, lavando meu corpo. Sinto o cheiro fresco das algas e ouço os deliciosos sons do meu entorno. Levanto a cabeça e vejo a lua nascer por trás de uma oiticica. Ideias geniais me ocorrem: que belo quadro! Que vida boa eu levo!

 

O frio bateu. Meu corpo nu despediu-se da água fria e caminhou lentamente para o mosteiro. Sentei-me no batente da porta de trás. Estava com fome. Peguei alguns cajás e enquanto comia contemplava a lua clara e parecida com um queijo redondo que pairava no céu límpido, despido de nuvens.

 

Uma sopa de exclamações, idéias, dúvidas e perguntas povoavam minha mente:

 

– Quão imenso é o Universo!

– Quão bela é a Natureza!

– O que é a consciência?

– Onde ela está localizada no corpo humano?

– Será que a consciência existe?

– Vivo só. Se eu tivesse uma companheira a vida seria mais colorida?

– Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas!

 

Olhei para trás e ví a sombra do meu corpo magro na parede. Cabeça, tronco e membros, todos lá, bem delineados e harmônicos, como aprendi na escola. Estirei o braço e pincei com o médio e o indicador um livro de história. Na página 13, li: “O Estado é regido por três Poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário que são independentes e harmônicos.”

 

Questionei: como podem ser independentes e harmônicos se Montesquieu afirma:  “todo homem que detém o poder tende a abusar dele?” E Karl Marx proclama:  “a história de toda sociedade até hoje é a historia de luta de classes.” Por concordar com Montesquieu e Marx escolhi ser Monge e viver só,  com integração total à natureza. Confesso meu medo de ser corrompido e de tentar corromper.

 

Agucei os ouvidos e, lá, bem distante ouvi o clamor:

– Trabalho e Justiça para Todos;

– Trabalho e Justiça para Todos;

– Trabalho e Justiça para Todos;

 

Num impulso, vesti a roupa e desci correndo para integrar-me à multidão. Entendi a necessidade de uma revolução que só começará com o pulsar dos corações de todos e de cada um.

 

A pirotecnia multicolorida enfeitava os céus. Agarrei o microfone e bradei bem alto para o mundo todo ouvir:

 

– Trabalho e Justiça para Todos!

– Marielle está viva!

– Abracemos 2020, com Paz e Luz!

Gilmar Oliveira

Gilmar Oliveira

Gilmar de Oliveira, Professor Universitário.

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