RECORTES DO COTIDIANO – Para um doido, só doido e meio

– Jovem, é verdade que você acolheu na sua casa um homem com as faculdades mentais patologicamente alteradas?

– O senhor quer dizer um desmiolado, um maluco, um doido, né?

– Isso. Isso mesmo. É verdade?!

– É, sim. Não apenas acolhi, mas adotei.

Assim se iniciou uma recente e curta conversa que, numa manhã de quinta-feira, bem cedinho, com o sol ainda se espreguiçando, no cumprimento de obrigação fora da curva, um desses afazeres que nos pegam de surpresa, mantive com um dos vendedores de leguminosas – principalmente o feijão verde debulhado à mão –, com “guarnições” de quiabo, maxixe, macaxeira, acerola e berinjela, em banca armada num dos recuos da área de estacionamento no subsolo do mercado, ao longo de uma das rampas de acesso ao térreo. Brincalhões e espirituosos, além de quarentões e bem casados (é o que dizem!) – ele, o irmão mais velho, que mantém um ar de aparente seriedade, e o vizinho, de quem compro o feijão verde da semana há anos, os três envolvidos no mesmo ramo de negócio –, sempre dispenso algum tempo da minha agenda de feirante-comprador, nas manhãs de sábado, para um papo alegre e descontraído com eles, o que me faz minorar os efeitos estrambóticos dos preços, oscilantes com viés de alta que em nada afetam os oficiais índices inflacionários, segundo os entendidos do assunto. Lembrei-me do chuchu e a inflação do Delfim. O tempo flui e, às vezes, até me perco em mim e já nem sei mais quem fui. E ainda houve a do tomate… convém aqui dar ao assunto o oportuno arremate. Quanto ao caso do “doido adotado”, soube através de um outro permissionário, com boxe em ponto privilegiado no largo e curto corredor de acesso, pela área central do térreo, ao setor de frutas, verduras e frios.

E a conversa, um tanto e quanto inquisitiva, da parte que me toca obviamente – cumpre-me isso reconhecer –, assim prosseguiu:

– E você teve coragem, rapaz?!

– Não se trata de ter ou não coragem, senhor. Tudo depende das circunstâncias. Ele tem lá as maluquices dele. Sofre de síndrome de pânico. Não demonstra sentir o menor interesse pelo que passa nas ruas. Nos momentos de crises, sempre passageiras, diz estar sendo perseguido. Toma os remédios dele sem a menor resistência. Gosta de folhear revistas velhas e de ouvir música em radinho de pilhas, balançando-se na rede armada no meio do quarto. Alimenta-se pouco, embora dentro da normalidade. Fuma que nem caipora. À noite, assiste às telenovelas e aos jornais. Nada comenta. Nada reclama. Não ofende a ninguém. Não nos dá trabalho. Mantém-se na dele, sem invadir a nossa. Não mata uma barata sequer, pro senhor ter uma ideia. Nos momentos de aparente lucidez, chega a conversar com a gente. Lembranças vagas que se misturam com sensações de desesperança, de descrença, de desilusões. Jamais falou em morte, suicídio, essas coisas.

– Ele é seu parente? – E eu segui à cata de algum dado que, a meu sentir, justificasse o cometimento de ato tão demasiadamente humano (E haja Nietzsche! Só Freud explica… Talvez!):

– Não. Eu não sei nem se ele tem família. Deve ter, né. Só que até agora, e olha que já faz quase dois anos, ninguém o procurou. E, em todas as vezes que se pretendia obter dele alguma informação a respeito desse assunto, ele se perturbava, gaguejava, se inquietava, embrulhava num só pacote assuntos vários, sem deixar transparecer qualquer coisa que pudesse revelar um caminho a seguir. Deixamos de tentar. Acho até que ele deve ter sofrido alguma desilusão amorosa, porquanto, não raramente, ao sair das crises, deitado na rede, na posição… como se diz… assim… como o bebê no ventre da mãe…

– Decúbito lateral… ou fetal… – Assinalei.

– Isso. É comum ouvi-lo sussurrando, repetidas vezes, até entrar num estágio de sonolência: Mas eu amo ela… Mas eu amo ela…

– Há, pelo visto, alguém na vida dele por quem ainda nutre algum sentimento de… de… de amor, certamente não correspondido. – Ponderei. – E como ele chegou até vocês? – Agora já me posto como pesquisador acadêmico se preparando para produzir um estudo de caso ou jornalista colhendo informações para escrever matéria a ser publicada no caderno do cotidiano ou coisa que tudo isso valha.

Ele soltou um sorriso maroto, olhou de soslaio para o irmão que, envolvido no que fazia, parecia não prestar a mínima atenção à conversa, só que com as “oiças” antenadas na sua capacidade máxima, prontas para capturar e destrinçar até sons de poucos decibéis, e para o vizinho que, sem ter o que fazer, acompanhava atentamente como se de nada soubesse, e, portanto, demonstrando total e irrestrito interesse em conhecer os detalhes do inusitado caso, chegando até a estimulá-lo: Vai, macho, conta tudo… a feira tá fraca mesmo… É bem melhor que ficar aqui tangendo mosca.

– Pois bem. Vamos lá. – O irmão assumiu estrategicamente o comando da banca, embora ainda sem perspectiva de venda. Ele se recostou na grade de separação dos espaços, às suas costas o estacionamento. E satisfez as expectativas de todos nós, com calma, naturalidade e sem omissão dos mínimos detalhes. – Num dia de semana, movimento fraco como o de hoje, cedinho ainda, o celular tocou insistentemente. Era a minha mulher. Nós não temos filhos. Ainda não. Ela estava agoniada, pedindo que eu voltasse pra casa rapidamente, pois tinha de resolver um grave problema de última hora. Ela preferiu não adiantar do que se tratava. Venha! E logo! Aqui você vai ver o tamanho da coisa. Minha mulher quando fala assim, pra mim é uma ordem. Tenho que cumprir. Larguei tudo aqui, eles cuidaram para mim. Peguei a moto e, em pouco tempo cheguei lá, ali no Quintino Cunha, no trajeto de quem vai para a Barra do Ceará, em rua estreita, de pouco movimento de carros e de gente. A minha mulher, de pé em frente ao portão de ferro que dá acesso ao quintal pela lateral da casa, com uma pequena sacola de compras numa das mãos, conversava descontraidamente com uma das nossas vizinhas. Subi a calçada, como sempre faço, e aproximei da porta de casa, só a banda de baixo fechada, o pneu dianteiro da moto. Sobressaltei-me quando um jovem de altura mediana, rosto meio ovalado, pele amorenada, cabelo cortado rente ao couro, grossas e inseparáveis sobrancelhas, olhar desmastreado, barba rala, com a sisudez de quem não está nem aí pra coisa alguma, vestido em camiseta de meia branca, de gola redonda e mangas curtas, e bermuda jeans de cor preta, calçado com chinelos cinzas da Rider, levantou-se do sofá da sala, veio até a porta e indagou-me como se fôssemos velhos amigos – só que eu o via pela primeira vez –: O senhor vai botar a moto pra dentro? E eu, sem entender nadica de nada, respondi com a calma que nunca tive: Vou, sim! Ele abriu a porta. Eu entrei. Estacionei a moto no lugar de sempre. Ele voltou a sentar-se no sofá, com uma mochila de cor preta bem recheada aos pés. O televisor ligado transmitia um dos jornais locais. A minha mulher veio até mim, sem afastar totalmente os olhos do intruso desconhecido, e contou, em voz baixa, o que sabia a respeito do estranho caso.

Nesse momento, o meu gestual revelou a minha pretensão de lhe fazer uma indagação, algo que me incomodava. Ele rechaçou qualquer intervenção no seu relato, pedindo, com tranquilidade:

– Por favor, não me interrompa. Não me faça perder o fio da meada. Deixe-me prosseguir. Essa história nunca contei assim, com detalhes, a ninguém. Ela, a minha mulher, contou que saíra para comprar temperos no mercadinho da esquina e, ao voltar, já o encontrou bem acomodado no sofá, após ter ligado o televisor. Não procurei nem saber quem era ele, de onde veio e o que pretendia. Liguei logo pra você e fiquei esperando. Complementou. Então, eu e ele tivemos uma conversa séria, ao ponto de ameaçá-lo com ação policial. Em momento algum, ele se alterou. Mantinha-se calmo, apenas intercalava falas compreensíveis com outras sem pé nem cabeça. De repente, meteu a mão num dos bolsos laterais da mochila, de lá retirando uma carteira surrada que me entregou sem dela nada retirar, dizendo: Era minha; agora é sua. Lá estavam a cédula de identidade e o cartão de pensionista do INSS, além de um pedaço de papel com alguns números, mais parecendo tratar-se de uma senha, e algumas cédulas. Apontando para elas, observou: É pra comprar os meus cigarros… Os meus remédios estão aqui. (E bateu com a mão direita espalmada no bolso frontal da mochila). E acrescentou: Aliás, tudo o que me pertence está aqui. Eu não tenho pra onde ir, nem me lembro de onde venho. Mas tenho como me sustentar… a pensão. Coçou a cabeça com insistência. Girou os olhos em torno dos recantos da sala e, como nos fizesse um pedido, fechou questão: Eu quero ficar aqui… com vocês. E ficou. Nós o acolhemos. Nós o adotamos. E isso aconteceu antes da pandemia.

E antes que eu lhe perguntasse sobre qualquer outra coisa, ele reassumiu o papel de feirante-vendedor, atendendo a freguesia que, sobriamente, ia se achegando à banca. O moreno, o vizinho de banca, concluiu o meu atendimento e, após o pagamento devido e a respeitosa despedida, fui-me embora. Não mais voltamos a tocar no assunto. Eles continuam brincalhões, espirituosos e atenciosos.

Soube, alguns dias depois, que, ao casar-se, ele, o adotante, foi morar com a sogra, então viúva e ora falecida, que à época mandou construir para eles um anexo no florido e bem cuidado quintal – na verdade uma ampla e confortável suíte, com acesso independente pela lateral da casa, além de redes elétrica e hidrossanitária próprias. O adotado passou a morar ali, com direito a ventilador, frigobar e televisor, além da alimentação, roupa lavada e passada. Tudo às expensas da pensão previdenciária, sob o rigoroso gerenciamento dos adotantes. Até quando, não se sabe. Que seja para sempre!

O permissionário que me vendeu o caso a preço de abacaxi, na ocasião assim atou o pacote: Afinal, pra doido, só doido e meio.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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