RECORTES DO COTIDIANO – Na fila do caixa da farmácia – FRANCISCO LUCIANO GONÇALVES MOREIRA (XYKOLU)

Eu era o décimo terceiro numa fila que teimava em não andar.

A olhos vistos, a causa de tamanha lentidão carregava rótulos atualmente bem conhecidos – contenção de despesas ou redução de pessoal ou fechamento de postos de trabalho, tudo isso concorrendo para um mal que ora aflige a todos nós: o alto índice de desemprego. [Afinal quem não tem um familiar ou amigo tentando sobreviver em tempos de incertezas, lutando por equilibrar-se em renitente corda bamba?]. Com efeito, de um total de seis guichês que compunham o setor de recebimentos daquela unidade empresarial, pertencente a uma rede portentosa no setor de vendas de medicamentos, com ramificações até em outros estados, apenas dois se mantinham em atendimento.

A ouvidos atentos, culpa cabia, segundo o pessoal da casa, à morosidade do sistema de emissão de cupons fiscais, um complexo programa eletrônico recentemente imposto às empresas pelo órgão fazendário estadual. O governo interferindo (leia-se “infernizando”), mais uma vez, na vida das pessoas.

A bem da verdade, os dois procedimentos – o privado e o público – se conjuminavam para atazanar a vida de cidadãos comuns, a quem restava apenas refrear os ímpetos, de consequências sempre imprevisíveis, manter-se calmos e recolher-se na paciência que a necessidade os impunha. Lá em casa, por exemplo, um ente querido aguardava, com esperança, os medicamentos que curariam as enfermidades que tanto o faziam sofrer.

Logo se incorporou à preguiçosa fila, na décima quarta posição, um senhor de meia idade, cabelos brancos que não bem condiziam com a aparência corporal, sob corte que, nos velhos tempos da minha juventude interiorana, era conhecido como “escovinha”. De pronto, com um sorriso de troça nos lábios, indagou-me ironicamente:

– O Deusmar está distribuindo dinheiro?

E eu assim lhe respondi:

– Pior que não. Nós é que vamos deixar dinheiro nosso nas mãos dele! E ainda temos de enfrentar fila enervante…

As duas últimas frases certamente ele já não as ouviu, haja vista o imediato enclausuramento em seu mundo virtual, certamente repleto de atrativos, o celular de última geração servindo de porto de passagem à estimulante navegação por mares de múltiplas oferendas, bem como de anteparo às agora indesejáveis interveniências do mundo real. Homo technos.

À minha frente, postava-se irrequieta uma jovem senhora, de longos cabelos negros, com aspecto severamente triste, revelando um quase quebrantamento, um arranjo quase mórbido de angústia, cansaço e impaciência, num perceptível contraste com generosos dotes físicos naturais e atraentes atavios que denunciavam os encantos próprios de quem pertence a classe mais bem favorecida.

Todos dão um avanço de um único passo; curto, mas psicologicamente positivo. Logo chegará a minha vez. Acho, pelas reações faciais, que todos pensam identicamente a mim.

Adiante, o rapaz alto, de ombros largos, cabelo raspado nas laterais, topete frontal e corte em “V” na nuca, camisa de gola polo e da cor de salmão, um brinco anelado na orelha esquerda, quebrou o silêncio com saudação dirigida a quem acabara de passar pela porta envidraçada de acesso à farmácia:

– Olá, Tiaguinho!

O outro jovem, de estatura mediana, óculos de lentes azuis e arredondadas, cabelo em corte moicano disfarçado com coque no alto da cabeça, piercings em forma de cone minúsculo nos lóbulos das duas orelhas, no centro do lábio superior, bem próximo ao septo nasal, e do lábio inferior, ali onde alguns curtem a mosca da barba, camiseta regata de cor verde-limão, bermuda de jeans desbotado e tênis branco sem meias, caminhou sorridente em direção ao rapaz da fila, também saudando-o efusivamente:

– Dieguito! Há quanto tempo, meu garoto!

E uma animada conversa envolveu os dois amigos numa prazerosa aura de inesperado reencontro.

– Pois é, amigo. O que fazer? A vida quis assim.

– Folgo em revê-lo, com essa aparência jovial, as ideias revolucionárias sempre fervilhando nessa cabecinha genial…

– Onde vocês estão tocando?

– A gente se mantém lá no Cajazeiras. Você não anda mais por lá.

– No Cajazeiras!

– Sim. Das quintas aos domingos.

– Mas a casa não tinha fechado as portas?

– Só por alguns dias. Enquanto eles resolviam algumas pendências com órgãos ligados à Prefeitura.

– Pois me falaram que eles tinham quebrado… questão financeira.

– Sabe o que realmente aconteceu? Aquele pessoal que sempre aparece por lá, se apresentando como da fiscalização, mas na verdade vai mesmo é pegar uma ponta…

– O velho não pagou os caras?!

– Não. Ele sempre paga. Só que os outros, o da lanchonete do meio da praça, os dos barezinhos do entorno, aqueles do lado oposto, que não dispõem do mesmo espaço, não têm a mesma tradição, nem desfrutam do mesmo tipo de freguesia, deram uma gorjeta mais robusta, com a condição de que os ditos fiscais pressionassem o Cajazeiras. Pois não é que o velho vacilou e os caras descobriram alguma documentação vencida… então, eles decidiram lacrar a casa.

– O diabo da concorrência desleal…

– Pois é, amigo. Só depois que toda a documentação foi regularizada, depois que o velho torrou boa parte das suas economias, é que tudo voltou ao normal. E a gente está por lá.

– Será que vai haver revide?

– Não acredito. O Cajazeiras não se presta a esse tipo de coisa.

Nesse meio termo, abriram mais um caixa para atendimento preferencial. Metade da fila se deslocou para lá. A jovem senhora triste olhou-me de soslaio e questionou-me:

– O senhor não vai…

Nem deixei que concluísse:

– Não, senhora. Lá, pra eles, é só um caixa; aqui, pra nós, são dois. Espero levar alguma vantagem nisso.

E ela ensaiou um sorriso desenxabido, desgracioso.

– E você, Dieguito, por onde anda, rapaz?

– Pois bem, Tiaguinho. A vida se constrói por fases, por ciclos. Eu me cansei do aqui e agora. Pretendo sair por aí, Brasil afora, violão debaixo do braço, mostrando a minha arte. Essa fase de barezinhos, de praças de alimentação de shoppings, de pequenos eventos sociais… essa fase estou deixando pra trás. Eu quero correr riscos, meter-me em aventuras, vivenciar novas experiências, criar tutano. Você me entende, né? Amigo, é o fim de um ciclo, muito proveitoso por sinal.

A conversa ainda teve prosseguimento, com certeza. Eu é que me desinteressei por ela. Os meus pensamentos me envolveram completamente. A vida em fases. A vida em ciclos. Será que já não chegara a hora de inaugurar um novo ciclo? Uma nova fase? Talvez.

Uma voz feminina me despertou para a realidade de uma fila que se arrastava:

– Caixa livre!

É a minha vez. Até que enfim.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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