Receita para um mundo sem Acácio – CLAUDER ARCANJO

A partir do momento que chegamos à idade da razão, deveríamos nos dizer: “Resigna-te à derrota, em todo caso não te aflijas, considera que nela reside o sentido de tua vida. Vai mais além: faz dela uma conquista, tua conquista”.

(E. M. Cioran, em Caderno de Talamanca)

Desaparecido há quase um mês, eis que me surge Companheiro Acácio. Soturno, metido nas suas eternas confabulações metafísicas (suspeito eu) e com um olhar vago, quase afundado nas lonjuras do Além.

Tamanha foi a minha surpresa quando, antes de saudá-lo, ele me abraçou com um jeito de quem carrega nos ombros o peso da despedida.

— Não me diga nada, Clauder Arcanjo. Apenas me abrace, preciso disso.

Sabia-o diferente. Claro que, amigo como sou do Companheiro, já o vira em crises outras de funda melancolia. Mas, confie em mim, caro leitor, o caso agora era diferente. Muito diferente.

Pus-me ao seu dispor, não tinha mais compromisso na manhã de sábado (sim, era uma manhã de sábado) e fiquei calado ao seu lado. Em muitas situações, o silêncio professa mais solidariedade do que o palavreado oco e, no mais das vezes, descabido.

Meia hora depois, Acácio ainda abraçado comigo, senti-o em soluço de dor. Seguiram-se lágrimas.

Acácio chorava, e eu chorei também. Dois amigos, em plena manhã de sábado, a debulharem um choro convulso. Os passantes não notavam a nossa presença; alguns, desconfio, tinham-nos na corda dos amantes recém-apaziguados, ainda sob efeito do chororô do recomeço, depois do pedido de perdão mútuo.

Não que eu seja um machista de escol, no entanto, quase uma hora depois, por precaução, desgrudei-me de Acácio e toquei-o para o café mais próximo.

Lá, cuidei de enxugar-lhe a tristeza com uma piada filosófica, encoberta com alguns nacos de metaliteratura.

Acácio nem deu por nada. De cabeça baixa, metido no manto da solidão, apenas de vez em quando deixava escapar um arfar pela boca tensa.

Reuni coragem e o indaguei:

— Algum problema grave?

Nenhuma resposta. Insisti, resoluto.

— Tudo passa, tudo passa.

— Como?

— Sim, Companheiro Acácio, tudo passa — persisti.

Companheiro levantou-me os seus olhos mercuriais e me assacou, ao modo acaciano de opinar:

— Eu aqui, mergulhado nas profundezas de uma depressão tamanha, amigo Arcanjo; e você me vem com receita à Nelson Ned. Tenha santa paciência. Tenha paciência…

E, antes de fechar a frase, caiu num pranto ainda maior.

Caro leitor, aquilo me transformou num idiota. Não como O Idiota, de Dostoiévski. Não, quedei tal qual um maldito, pois, em vez de ajudar, jogara o meu maior amigo num fosso de sofrência ainda maior.

— Acácio, você bem sabe que eu sou um tremendo bobalhão! — Assumi, sem perda de tempo. — Tenho melhorado com o seu convívio, Companheiro, o seu convívio inteligente, porém a herança que carrego dos meus livros de autoajuda, das novelas de rádio, dos conselhos de botequim, dos filósofos de fancaria, dos poetas de mau tino, dos políticos afeitos ao bom discurso e ao mau exemplo… são tão fortes quanto eu. E despontam nas minhas palavras, tal qual uma cola difícil de me livrar. Desculpe-me, amigo. Desculpe-me, mais uma vez.

Acácio enxugou os olhos e abraçou-me fortemente. Retribuí-lhe o gesto, batendo-lhe forte nas costas magras.

— Ei! Devagar, devagar. Você bem sabe, Clauder Arcanjo, que ando fugindo da última crise de coluna — soprou-me, baixinho, com um nítido acento de troça.

Senti-o melhor. Abri um largo sorriso e pedi a nossa água com gás, seguida de dois cafés expressos.

— Com a perda de meu pai, amigo, foi-se o meu sentido de referência. Como se invadido por uma tremenda perda de equilíbrio, sabe? — Confessou-me Acácio.

— Sei. Sua “Carta a Papai” emocionou-me como poucos textos na minha vida. Você escreveu com a tinta do sofrimento…

Antes que eu continuasse, Acácio confidenciou-me:

— Sinto que não sou ninguém. Que, para o bem de todos, a melhor receita seria tudo seguir sem mim.

— Nem pense nisso! Nem pense nisso! O mundo, como nunca, precisa da sua maneira de ver e analisar os fatos, do seu modo direto de encarar os dilemas e as contradições do cotidiano, da sua arguta filosofia de escrevinhador de província, do seu menoscabo com os poetastros e com os acadêmicos tão afeitos à fama (sendo eles tão inimigos da leitura e da escrita), da sua maneira incomum de desvendar os verdadeiros dramas da alma humana, da sua fatal sociologia dos trópicos…

— Não me sabia tão… tão…

E, antes que Acácio fechasse a sentença, ataquei:

— E, para concluir, o mundo sem Acácio não seria o mesmo, ficaríamos privados da sua rabugice singular. Sem falar, Companheiro, do seu jeito brega de se vestir e flanar pelas ruas de…

Não pude concluir, Acácio levantou-se e partiu para a demonstração da sua receita de resolver os embates ao modo dos antigos: entre tapas e safanões.

Se alguém me viu correndo naquele sábado, fique logo sabendo, fugir fora minha única garantia de vida.

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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