REALIDADE E METÁFORAS EM TEMPOS DE PANDEMIA NA REPÚBLICA DOS TRÓPICOS

O termo república – não é ocioso repetir –procede do latim res pública, que significa “coisa pública”, “coisa do povo”. Nessa perspectiva, um governo que se paute, entenda e respeite o republicanismo em um contexto democrático, para cumprir com o dever constitucional que se lhe impõe, deve buscar por todos os meios satisfazer e prover os interesses coletivos, para promover o bem comum do País, onde o direito à vida é o bem e o maior valor de um povo. Quanto a isso, parece não haver divergência ou, pelo menos, não deveria.

No republicanismo brasileiro, não é bem assim! A julgar pela experiência aprendida na realidade em curso, com amparo nas ações dos integrantes do governo, nomeadamente do presidente da República, remansam claros, não apenas a discordância e a rejeição aos princípios referidos, como também o entendimento manifesto se revela o oposto do conceito moderno de república. Isso mesmo, porque, por essas bandas dos trópicos, a vida não parece ser um direito, como reafirmado em todos os tratados internacionais de direitos humanos.

Metaforicamente, na república bolsonarista, viver está deixando de ser um direito para se tornar uma conquista, e muito difícil de ser alcançada, pois as pessoas, dentre outros requisitos, deverãoprimeiro, ter a sorte de não se infectarem pelo coronavírus. Segundo, em se infectando terão novamente de contar com a sorte para não serem tratadas à base de cloroquina, que, sem eficácia para a doença como restou provado pelos cientistas em todo o Mundo vai agravar os sintomas, levando-as a concorrer com outros milhares, a um leito de UTI. Terceiro, os vitoriosonessa disputa deverão rezar fervorosamente para que não faltem oxigênio e remédios para entubação. Ante de tão mórbida realidade, o resultado contabiliza quase 450 mil mortos, e esse número cresce a cada dia.

Aprofundando o capítulo da negação dos direitos civis, assim como a saúde, no pacto internacional pelos direitos econômicos, sociais e culturais, a educação se insere como parte integrante e fundamental à dignidade da pessoa humana, mas, na república dos trópicos esse também é um valor exclusivo, pertencente apenas à casta dos ungidos; pelo menos no que depender da vontade do Ministro da economia, para quem os filhos de porteiros não têm direito a cursar o ensino superior. Ainda no contexto da supressão dos direitos do cidadão, a Medicina está sendo considerada a culpada pela desestruturação da economia, afinal por aqui todo mundo agora quer viver cem anos, e o Estado não suporta bancar os direitos desses pobres miseráveis por tanto tempo assim protestou o Ministro para quem o ideal seria que estes miseráveis nem deviam ter nascido.

Voltemos um pouco no tempo, precisamente a fevereiro de 2020, quando a comunidade científica brasileira informou que aqueles tempos vividos já eram de pandemia e, seguindo as recomendações e protocolos sanitários, por vários estados, os governadores começaram a editar os primeiros decretos de isolamento social, e de restrições a algumas atividades econômicas não essenciais, com o objetivo de conter a disseminação do coronavírus.

Entendendo a gravidade da pandemia e preocupado com a extensão e as consequências do que estava por vir, como cidadão e jornalistapassamos a acompanhar com responsabilidade e atenção os desdobramentos da nova e desconhecida crise sanitária que começava a se configurar.

Desde então, aqueles que semanalmente nos honram com a sua leitura, acompanham o esforço que temos desenvolvido para observar, com o rigor que nos impõe o dever de informar, as ações do governo, da comunidade científica brasileira e internacional, assim como a bravura dos médicos e demais profissionais da saúde, no sentido de registrarmos os fatos desse período, deixando pegadas para a história dessa dramática realidade.

Diferentemente do teor das críticas que nos são assacadas pelos que integram a tribo dos embrutecidos, formada em sua maioria pelos chamados neoinsensatos, que por padecerem de dupla ignorância e escassos recursos mentais, são incapazes de entender a tragédia que estamos vivendo no País, nosso objetivo não é outro, senão analisar as ações ou a falta delas, que deram causa, a esse morticínio.

Como jornalista o que nos move é tão somente a responsabilidade que temos para com a sociedade, que nos impõe o dever de buscar desvendar e entender sua gênese, além de mostrar as consequências, algo que aliás é relativamente facilitado pelo que observamos no dia a dia, resultante do comportamento dos protagonistas dessa que já é a maior tragédia da nossa história recente.

Como é de sabença coletiva, as mais visíveis são o colapso no sistema de saúde, a desestruturação da economia com altíssimo índice de desemprego e empobrecimento da população, pelo simples fato de que um dos integrantes da tribo  talvez o de maior responsabilidade por essa situação de caos que estamos vivenciando, que atende pela alcunha de posto Ipiranga, não satisfeito em ser contra que os filhos dos trabalhadores entrem para universidade, também se mostra indignado contra a longevidade.

Essa revolta do Ministro Posto Ipiranga, contra as pessoas viverem mais, nos permite inferir que tenha sido essa a razão que o levou a não fazer o menor esforço para a compra de vacinas, como declarou o exMinistro da saúde, Henrique Mandetta, e o diretor da Pfizer para América Latina, Carlos Murillo, em depoimento na CPI, da Covid, configurando crime de omissão, ante as decisões que a realidade impunha.

Vituperam alguns integrantes da tribo que apoiam esse (des)governo, alguns até pretensos letrados, mas igualmente embrutecidos e indiferentes às quase 450 mil vidas perdidas, vítimas desse descaso e do tal tratamento precoce, agravado pela falta de leitos de UTIs, e medicamentos para entubação e outras patologias, e até de oxigênio. Tudo isso somado aos milhares de famélicos, deixados ao abandono e à míngua de tudo, pela incúria daqueles que constitucionalmente têm a responsabilidade de cuidar das pessoas.

Reclamam estes que a crítica que fazemos é injusta, pois não reconhecemos o esforço que tem sido feito para minimizar os efeitos da pandemia. Observem a contradição desses meus críticos! O que trago na reflexão de hoje nada mais é do que um amplo registro do que é feito e deixado de fazer por esse governo. Aliás, essa é uma outra característica do presidente e de seus apoiadores, intolerância aos que pensam de forma diferente.

A esses, mesmo aqueles que fazem as críticas mais desqualificadas, mas que respeitamos o direito de fazê-las, metaforicamente, o que nos cobram é que devamos atribuir ao governo uma aura de bondade e competência, que efetivamente não possui, muito pelo contrário, mas que seus defensores e os próprios ocupantes do poder vivem esse deslumbramento.

Ante os fatos, recorro ao que nos ensina o poeta paraibano Chico César, na bela canção e oração,“[…] Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa, da bondade de pessoa ruim, Deus ‘nos’ governe e guarde ilumine e zele assim”!

Arnaldo Santos

Arnaldo Santos é jornalista, sociólogo, doutor em Ciencia Política, pela Universidade Nova de Lisboa. É pesquisador do Laboratório de Estudos da Pobreza – LEP/CAEN/UFC, e do Observatório do Federalismo Brasileiro. Como sociólogo e pesquisador da história política do Ceará, publicou vários livros na área de política, e de economia, dentre eles - Mudancismo e Social Democracia - Impeachment, Ascenção e Queda de um Presidente - sobre o ex-Presidente Collor, em 2010, pela Cia. do Livro. - Micro Crédito e Desenvolvimento Regional, - BNB – 60 Anos de Desenvolvimento - Esses dois últimos, em co-autoria com Francisco Goes. ​Arnaldo Santos é membro da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo – ACLJ, e da Sociedade Internacional de História do século XVIII com sede em Lisboa.