QUEM VAI PAGAR O IFOOD? – Ackson Dantas

Quem nunca pegou um UBER ou o 99, pediu uma comida no Ifood, Rappi, Uber eats e outros? Calma, senhores e senhoras, isto não é publicidade de aplicativos ou startups de serviços.  Pelo contrário, esta coluna traz à luz uma outra questão, na contramão de todas as benesses que tais empresas proporcionam ao público em geral. O que busco neste momento é colocar uma lupa em tais serviços e suas relações, uma questão crucial para a sociedade, o trabalho. Aliás, com a velocidade que as tecnologias impõem à sociedade, transformações, este tema tende a se tornar ainda mais evidente.

Comecemos por entender como funciona a relação serviço-cliente e a relação empresa-trabalhador. Estes aplicativos oferecem serviços que garantem ainda mais comodidade ao cliente indo até ele, geralmente com preços mais acessíveis do que o padrão, personalizados e ainda carregados de promoções e brindes. Este movimento recebe o nome de sharing economy. Traduzido para o português, economia colaborativa.  Surge na perspectiva da formação de uma cultura do compartilhamento onde pessoas comuns trocam seus serviços por outros serviços ou valores em dinheiro.

Inicialmente, se apresentava como algo transformador para a sociedade, aproximando pessoas no compartilhar de serviços, geralmente aproveitando-se das tecnologias e da abrangência intercontinental do mundo globalizado. Uma nova ideia de sociedade onde o poder das grandes empresas fosse, de certa maneira, enfrentado naquilo que os mesmos têm como falha (preços abusivos, atendimentos sem qualidade, burocracia e outros). O AirBnB, por exemplo, não tem como objetivo o aniquilamento do mercado hoteleiro, no entanto busca ofertar um serviço mais barato e personalizado, tudo isso graças ao compartilhamento de serviços entre pessoas.

Empresas se tornam apenas mediadoras deste compartilhamento, exigindo uma porcentagem em toda transação realizada. Assim a relação empresa e trabalhador é praticamente inexistente, pois não se trata de um trabalho formal, mas uma forma a mais de ganhar um dinheiro extra fornecendo aquilo que já se tem e emprestando a outras pessoas. Um motorista utiliza o aplicativo UBER para compartilhar carona a preço baixo e sem burocracia no caminho que faz de volta para casa. O proprietário de um imóvel o aluga por temporada a turistas que queiram visitar sua cidade. Neste sentido vínculo trabalhista não há, logo não existe patrão-empregado, apenas pessoas fazendo pequenos “bicos”, ofertando um pouco do seu tempo em benefício de todos, ganhando uma “graninha” por isso, claro. Para estas empresas, a massa de trabalhadores é apenas um grande grupo de pessoas cadastradas numa plataforma digital, podendo, inclusive, ser desconectada da mesma pelo simples fato de não conseguir pontuação adequada de seus clientes.

No entanto, e como tudo que acontece no capitalismo, o sistema tratou de se apoderar do conceito e criar empresas baseadas no enriquecimento unilateral dos seus mandatários. Talvez o fato não ocorra, como alguns discorrem sobre, tão maquiavelicamente pensado. Creio que o movimento capitalista em si tratou de fazer isso acontecer naturalmente. Alguns autores utilizam a nomenclatura “Uberização” para discutir a atualidade e o futuro do mundo do trabalho. É sobre esta atualidade do sharing economy que vamos nos debruçar.

Em uma sociedade, como a brasileira, onde milhares estão em situação de miséria o aparecimento de oportunidades para conseguir dinheiro sempre se apresentará como uma boa opção. Todavia, este fenômeno intitulado de “Uberização” tem trazido efeitos colaterais perigosos. O que se observa é a exploração da mão de obra, de baixíssimo custo, pelas empresas concentradoras do mercado mundial de aplicativos e plataformas digitais. Para estas empresas não existe vínculo ou responsabilidade alguma na relação dos parceiros cadastrados. Isso ocorre pelo fato destas empresas serem registradas apenas como plataformas que prestam serviços de tecnologia, assim se eximindo da responsabilidade de qualquer relação com quem fornece a mão de obra física.

Para um exercício de reflexão, imaginemos um motoboy que faz entregas de comidas para algum destes aplicativos,. No meio de uma entrega sofre um acidente no trânsito e ficará um mês sem poder trabalhar, devido à gravidade do sinistro. A esta situação pergunto: quem proverá seu sustento durante este tempo? A empresa pagava algum seguro? Que tipo de assistência médica terá, tinha plano de saúde em co-participação com a empresa? Infelizmente todas as respostas são negativas, não há relação alguma entre a empresa que presta serviço tecnológico, a empresa dona do produto a ser entregue e o trabalhador.

Em pleno século XXI, onde se apostava que os avanços tecnológicos trariam condições melhores de trabalho para a sociedade, o que vemos é uma relação precária, desprovida de qualquer retaguarda para o trabalhador. Entregue a sua própria sorte e tendo que se submeter a isso pela falta de outras oportunidades que este próprio avanço tratou de acabar. Ou não seria justo que as empresas desejantes de realizarem serviço delivery contratassem profissionais para a execução deste trabalho?

Aqui, cabe uma reflexão sobre o liberalismo, infelizmente não tão profunda quanto merece. O liberalismo é uma corrente filosófica e política na qual o indivíduo e sua iniciativa são a chave para o desenvolvimento em sociedade. O indivíduo é livre civilmente, e o papel do estado deve ser reduzido para que não atrapalhe as escolhas e comportamentos de cada um. O liberalismo versa sobre diversas áreas, dentre elas a econômica, na qual à medida que o estado intervém minimamente, garante igualdade na competição.

O sonho liberal forja o sonho empreendedor, coloca ao cidadão a ideia de que basta sua iniciativa e esforço para conquistar o que se deseja, a meritocracia se torna algo palpável e o sucesso profissional apenas questão de saber aproveitar as boas oportunidades com empenho e ousadia. Quando a Uber surgiu, este sonho liberal parecia estar batendo à porta, uma forma diferente de empreender aproveitando suas horas vagas e sem a intromissão do estado para atrapalhar a iniciativa privada de cada indivíduo.

Um trabalho que permita ser dono do seu próprio destino sempre foi algo sonhado por qualquer trabalhador. Fazer suas horas de trabalho, destinar tempo para lazer, família e cuidados com a saúde e bem-estar, agora parecia um sonho possível de realizar. No entanto, com o passar do tempo, o sonho começa a se tornar pesadelo. Hoje é possível constatar uma realidade diferente, pessoas cada vez mais dependentes de uma rotina de trabalho com longas jornadas ininterruptas para conseguir um ganho real que garanta o mínimo de dignidade a si e sua família.

O sonho de decidir como suas horas de vida serão organizadas, possibilitando escolhas saudáveis e produtivas, cai por terra no dia-a-dia de desesperadas jornadas em busca de sustento. Sem perceber, as pessoas mergulham exaustivamente no trabalho sem direito a fins de semana, folga, feriado e férias. Para a utilização de algum destes direitos, direitos existentes apenas na relação mediada por leis trabalhistas, deverão duplicar tais jornadas que em si já são hercúleas. Assim, sobrecarregam-se física e psicologicamente, prejudicando a si e, por consequência, aos clientes. Tal questão, em um primeiro momento, pode não ser tão nítida. No entanto, a medida que o tempo passa e as jornadas incessantemente se repetem, as consequências tenderão a aparecer. O indivíduo fica interligado ao trabalho por inteiro, torna-se servo de um aplicativo que funciona 24 horas por dia, basta ligar o celular e já tem trabalho a fazer. O homem que sonhou ser dono do seu próprio destino agora é escravo da tecnologia.

Atualmente uma nova configuração se estabelece nestes serviços, o que antes era plataforma digital e trabalhador, hoje ganha mais um ente para esta relação, o dono da máquina. É comum observar motoristas de aplicativos alugando carros para realizar seu trabalho. Pessoas que se tornam responsáveis por administrar o aluguel para os donos das casas. Neste sentido existem três instâncias: a plataforma digital que em qualquer transação fatura uma porcentagem do dinheiro com o menor esforço de trabalho possível; os donos dos equipamentos que alugam carros, motos, casas, para que outros possam trabalhar; e por fim o trabalhador que emprega a maior força de trabalho e que recebe a menor parte do dinheiro. Estes últimos são duplamente taxados, prestam serviço e pagam para dois patrões, o lucro sai das mãos dos que produzem e se concentra nas mãos dos que detêm os meios para a realização do serviço. Assim, o sonho empreendedor fica fadado ao incessante trabalho, aniquilando as forças do indivíduo para mudar sua própria realidade, seja ela profissional ou financeira.

Ainda caberia uma análise de outra forma de subserviência que este tipo de trabalho proporciona, a mendigação de curtidas ou notas favoráveis do cliente para que se possa permanecer trabalhando na plataforma. Uma lógica que nem o “sistema parasita” pensado por Max Weber teria sido capaz de compreender. Neste caso, o que está em curso não é apenas a exploração da força de trabalho, mas principalmente a irrelevância que o indivíduo tem em sociedade. O mundo do trabalho ainda nos reserva grandes surpresas, profissões surgirão, profissões desaparecerão, mas o desafio maior sempre será encontrar maneiras de dar dignidade aos trabalhadores, caso contrário caminharemos para momentos conflituosos.

Por fim, cabe pensar que estas comodidades advindas de tais serviços, beneficiaram a dinâmica social e trouxeram um novo olhar para quem presta e recebe os serviços. Porém, tal usufruto, se não devidamente regulamentado, trará sequelas sociais profundas. Quem pagará a conta do Ifood? Todos nós?!

Ackson Dantas

Ackson Dantas

Ackson Dantas é pedagogo e especialista em gestão escolar, neuroeducação e ensino de artes. Professor em curso de pós-graduação em Neuropsicopedagogia e coordenador pedagógico. Arte-educador, ator, diretor teatral e poeta estreando sua primeira obra em 2019 intitulada “O Costurador de Mundos”.

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