Quem sustenta o bolsonarismo? por ALEXANDRE ARAGÂO DE ALBUQUERQUE

Desde a sua declaração afirmando em alto e bom som que “a CNBB é a parte PODRE da Igreja Católica”, Bolsonaro tornou público o centro do seu pensamento político: atacar e destruir instituições e organizações da sociedade, defensoras das liberdades civis e dos direitos das pessoas e grupos, promotoras de coesão social interna de um povo por meio de vínculos fraternos e solidários sem os quais nenhum Estado democrático sobrevive. Os fiéis católicos escutaram essa sentença, mas votaram no capitão, principalmente católicos e católicas das regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste, as regiões do Brasil que o elegeram.

No mês de julho do ano passado ocorreu outro episódio grave. Eduardo Bolsonaro, estimado pela claque bolsonarista como o futuro líder mundial da extrema-direita, afirmou em um vídeo gravado no dia 09, em Cascavel –PR, o seguinte: “Cara, se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Manda um soldado e um cabo. O que é o STF? Se prender um ministro do STF, você acha que vai haver manifestação popular em favor do ministro?”. Novamente, um torpedo midiático disparado contra a democracia, representada desta vez pela instituição que tem por dever garantir a defesa da Carta Constitucional. Muita gente viu, apoiou esse discurso e votou no capitão.
Atualmente ele está fazendo de tudo para manter o COAF sob o domínio do ministério da justiça de Sérgio Moro. Para que? Conforme analisam diversos congressistas, para barrar as investigações envolvendo as movimentações bancárias, de grandes somas, do seu filho Flávio Bolsonaro. O Coaf identificou uma movimentação financeira atípica de R$ 1,2 milhão feita durante um ano por Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro. Flávio Bolsonaro também negociou dois apartamentos em bairros nobres do Rio de Janeiro, no valor de R$ 4,2 milhões, entre 2014 e 2017. De acordo com reportagem do jornal Folha de S. Paulo, o período de aquisição é o mesmo em que o Coaf identificou uma movimentação de R$7 milhões nas contas de Fabrício Queiroz, que anda sumido do noticiário.

Para conseguir tal feito, um movimento realizado nesta semana, para cumprir promessa eleitoral à Bancada da Bala, foi a publicação do decreto presidencial 9.785, de 07 de maio, que regulamenta a posse e o porte de armas. No Capítulo IV o texto permite, sem discussão com o Congresso Nacional, o porte de armas para: instrutor de tiro; colecionador de armas; caçador de animais; detentores de mandatos eletivos dos executivos e legislativos da União, Estados e Municípios; agente público (inclusive inativo); advogados; oficiais de justiça; pessoas residentes em área rural; dirigentes de clubes de tiro; agentes de trânsito; motoristas de transportes autônomos; funcionários de empresas de segurança privada e de transporte de valores. Segundo a imprensa, as ações da fabricante de armas Taurus dispararam após o decreto. Mais uma vez, tem muita gente vendo e não fazendo nada em relação a esta generalizada ação armamentista, em um país campeão de assassinatos contra jovens e contra mulheres.

Em meu artigo passado destaquei que uma das estruturas do Golpe de 2016 centrou-se num tipo de comunicação social hipnótica, na qual o conjunto da mídia hegemônica produzia de forma orquestrada conteúdos diários, com verdades não comprovadas, para insuflar e conduzir o sentir, o pensar e o querer dos telespectadores. O objetivo era bem preciso: criar um clima de sentimento de ódio a Dilma e ao PT, por meio de notícias artificiais que penetrassem o pensamento popular capaz de levar as pessoas a uma ação de rua, seja vestindo camisas amarelas ou batendo panelas tramontina. Esse tipo de ação midiática cria uma base social denominada, pela cientista política Hannah Arendt, “RALÉ” (que podem ser ricos e pobres, conflitantes entre si, mas que buscam resultados políticos pontuais coincidentes). A terminologia surgiu para nominar os primeiros nazistas. A ralé vai sempre atrás de um líder com a capacidade de impor a ordem por elas imaginada e de transformar a sociedade em algo puro, harmônico e unitário. Para isso a ralé identifica alguém que se apresente como um ser superior, um detentor de uma missão divina, um messias no qual acreditam ter capacidade pessoal de combater o mal e de uniformizar a sociedade, proibindo assim a diversidade de ideias e a pluralidade de opiniões. Mas o nome que se dá a uma sociedade unitária centrada numa personalidade autoritária e messiânica é fascismo.

Para concluir, a última declaração dele para ruralistas na Agrishow, em São Paulo, foi a seguinte: “a propriedade privada é algo sagrado, e ponto final”. Ou seja, não há discussão, não há debate. Sua palavra é a lei. É ele quem decreta. Ora, mas se a lei de um só homem considera sagrada a propriedade privada, significa dizer que aqueles que possuem seus latifúndios são os que determinam as regras do jogo político, econômico e social. Estes donos de paraísos terrestres são verdadeiros deuses, enquanto o restante da população de trabalhadores e trabalhadoras “suspiram gemendo e chorando num vale de lágrimas”. Com a declaração da sacralidade da propriedade privada, induz-se a concluir que não existem pecado nem crime nas ações de repressão, violência ou tortura quando se trata da defesa dos interesses dos proprietários privados. Muitos estão vendo todo este espetáculo de horror e continuam a não fazer nada para barra-lo. E ele avança…

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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