Quem não conhece o esquema do Aécio?, por Alexandre Aragão de Albuquerque

A semana iniciou com a divulgação pela Folha de São Paulo de uma conversa telefônica entre o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, e o senador Romero Jucá, presidente em exercício do PMDB. A Nação está perplexa com o conteúdo da conversa, recheada de palavrões de ambos os lados, cuja centralidade era a preocupação dos interlocutores com os desdobramentos da investigação Lava-Jato da qual ambos sentiam-se ameaçados.

Entre muitas palavras trocadas, eles chegam à solução para resolver essa ameaça sobre suas cabeças, documentada na gravação: a derrubada da presidenta Dilma Rousseff, com a consequente posse de Michel Temer tendo em vista a orquestração de um “pacto nacional” cujo objetivo seria o de barrar a Lava-Jato: quem estivesse dentro, dançaria, para garantir que ninguém mais seria investigado a partir desse “pacto”. Para os dois, com Dilma isso seria impossível de se arquitetar. Eis o porquê do seu impeachment. Se algum juiz ou juíza tinha alguma dúvida do que se trata, agora parece que tudo ficou esclarecido.

Porém, indo mais além, num exercício de previsibilidade, Sérgio Machado asseverou que caso isso não ocorresse, da parte do PSDB o primeiro a “ser comido” seria Aécio Neves pois “quem é que não conhece o esquema do Aécio?”.

Sem dúvida é uma conversa reveladora do mau-caratismo que acomete os bastidores do poder da Casa Grande brasileira acostumada secularmente a usurpar os bens públicos em proveito próprio por meio da cumplicidade estamental a qual já tivemos a oportunidade de analisar em artigos anteriores. Sempre acharam ser “lícito” roubar os bens públicos, pois se acham donos do poder. Os outros brasileiros e brasileiras, para esses elementos, não passam de meros escravos, sub-humanos para os quais não há o que prestar contas. É esse o cinismo que domina as mentes dos orquestradores do golpe contra a soberania popular brasileira.

Acontece que nessa assertiva de Sérgio Machado em relação ao conhecimento notório do “esquema de Aécio” paira uma acusação muito grave, uma vez que, em sendo notório, por que as instituições políticas e jurídicas, responsáveis pelo zelo da coisa pública, não tomaram as devidas providência para investigar e punir esse esquema? Pois um “esquema” não é perpetrado por uma única pessoa, mas por muitos que lhe dão sustentação. A obrigação republicana que paira sobre nossas instituições políticas e jurídicas impõe a imediata apuração dessas acusações públicas para que o mínimo de credibilidade delas seja restituído. Além, logicamente, da imediata cassação do mandato do senador Jucá, a exemplo do que ocorreu com Delcídio.

Faz-se mister a convocação de uma Assembleia Constituinte, composta não somente de membros do poder político, via partidos, mas também de atores da sociedade civil, livremente eleitos em sufrágio universal, com o escopo específico de arquitetar uma nova estrutura política em nosso país que entre outras coisas garanta a plena proteção à manifestação da soberania popular expressa em eleições livres, fonte do poder político; a implantação de mecanismo de controle popular dos mandatos eletivos de representantes em todos os níveis do Estado brasileiro; formas de prestação de contas continuada para a população dos respectivos mandatos, que vá além apenas das eleições periódicas.

E enquanto isso,  a Nação aguarda que as instituições políticas e jurídicas divulguem publicamente, para todos os brasileiros e brasileiras, o esquema Aécio, tão conhecido por muitos.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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