QUEM MANDA DE FATO NO BRASIL?

Bolsonaro e Lula não são os atores principais desta ópera cômica a que assistimos perplexos. Quem manda e decide é o coro, lá na boca de cena…
Matérias  relevantes para o ordenamento constitucional do País transitam pelo Congresso como se fossem procedimento clandestino. Às escondidas e a mercê de negociações circunstanciais ambiciosas.
Numerosas versões de um mesmo texto de reforma constitucional viram a luz do dia ou conheceram o fundo  das gavetas da

conveniências ao longo de muitos meses. Não se conhecem manifestações de juristas respeitados sobre matérias legais delicadas que alteram, a fundo, o entendimento de valores políticos consagrados. A ninguém terá ocorrido a importância de colher a contribuição de especialistas que não fossem a dos “capa-pretas” da inteligência domesticada pelos gabinetes da praça dos 3 Poderes.

O pior, o que enche de medo as pessoas dotadas  de um restinho de equilíbrio e racionalidade, é que os atores, no senado ou na câmara dos deputados, são criaturas opacas, só eles se enxergam, alheios à realidade, dominados pela  persignação de uma ignorância abissal dos assuntos sobre os quais decidirão.
Lula no poder ou Bolsonaro,  nos anos de inquietação em que mergulharam  os brasileiros na agonia sem fim de vagas esperanças, nada controlam. As suas ideias são velhas e cediças, arrancadas de uma sebenta marxista  caída em desuso ou em aforismos liberais que remontam a um liberalismo fora de época. Nada que tenha serventia, de fato, à gestão complexa do Estado.
A nação está sendo guiada por “não-líderes”, mergulhada na onda de marqueteiros, agentes eleitorais que se atrevem a falar de governo, governança e governabilidade, como tratassem de assuntos de uma simplória economia doméstica.
A mediocridade parece ser a medida ponderada para a escolha dos multiplicadores das suas ideias limitadas, quando as têm. Arrivistas, que sempre existiram, e oportunistas, políticos de província, criação das velhas oligarquias, sobreviventes e fortes, bafejadas pela modernidade ambiente, dão as cartas, compram consciências e vendem as próprias a preço de mercado. Mudam de opinião ao ritmo das próprias conveniências e das de sua grei.
As “elites”, conceito apagado das análises políticas da academia, desapareceram; todos são agora companheiros  e integram os “coletivos” que moldam a opinião e as aspirações do povo..
Aprestam-se a introduzir alterações especiosas no velho texto do dr. Ulisses. Enfiam goela abaixo da população uma reforma tributária, sabe-se de onde surgiu e sob qual inspiração. Regulamentam a Internet e as redes sociais, as coisas menores, as miúdas, as miudíssimas, sem povo, sem informação e explicação a uma população atônita em face  da mediocridade conquistadora.
E tudo permitimos, calados, convenientes, respirando aquele arzinho impuro de uma ditadura anunciada.  Por conveniência, esperteza ou pela preguiça de usarmos a própria voz em defesa de questões vitais à sobrevivência da nação inteira.
A participação de militares de carreira nas grandes decisões nacionais foi afastada pelo receio de que fizessem uma ditadura por aqui.  Receios justos, admitamos, que só uma democracia fragilizada por pressões radicais sensíveis pode cultivar. Nem assim, com estes cuidados preventivos, a politização da justiça, da mídia e de grupos público-privados, a educação e a saúde pôde ser evitado.
No passado, entretanto, eram os políticos que, em casos extremos, assim considerados, buscavam os militares para os convencer a criar um anteparo forte para um governo forte.  Castelo Branco chamava a estes patriotas brasileiros de “vivandeiras de quartel”.
Hoje, os políticos oriundos das velhas oligarquias não cercam mais os quartéis. Elegem, a contra-gosto, a modernidade de serem de esquerda — progressistas — e se embaraçam nas citações de Marx que, aliás,nunca leram porém se contentam com as reduções disponíveis do seu pensamento nos convescotes congratulatórios.
Lá estão, atentos, à procura das vantagens que poderão retirar da votação dos PECs e, patrioticamente, dispostos a colaborar com quem empalma o poder. Não importa quem seja, não importa o que pense.
Bolsonaro e Lula são personagens passageiros, foram inventados como “fake news”.  Já os tivemos no passado —  com outros nomes. Não foram melhores, nem piores.
Por estas vias escusas, pretendemos ambiciosamente, construir um novo e poderoso país…

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.