Quem é a Rosa, a guerreira da liberdade?

Corria a ano de 1970 e eu acabava de chegar a Fortaleza para cursar a Faculdade de Direito. Era o típico rapaz latino americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior, como cantávamos aos som do violão de Belchior e Jorge Melo, na cantina que abrigava os talentos do que viria ser conhecido nacionalmente como o pessoal do Ceará. Sem as informações da cidade grande, era na Faculdade de Direito que eu absorvia a efervescência cultural e revolucionária ali existente.

 

​Tudo era novo e encantador para mim. Aquele grupo não me perguntava sobre meu nome de família; sobre as minhas posses; se eu tinha carro, etc. Comer no Restaurante Universitário era barato e bom, além de ser quase uma sucursal do ambiente de faculdade.

 

​Mas por lá havia uma Rosa.

 

Quase da minha idade (apenas um ano jovem há mais tempo) eu ficava impressionado como ela sabia das coisas; como tinha coragem em pleno recrudescimento dos anos de chumbo da era Médici; perguntava-me de onde vinha aquele saber e aquela força de uma moça tão jovem quanto aguerrida?

Na minha ingenuidade de jovem vindo do interior, quis saber por que e de onde vinham aqueles gestos tão carinhosos para comigo, sem saber quem eu era, e ao mesmo tempo que negava e repelia os poderosos expondo-se forte e corajosa aos riscos da repressão política assassina que assistia às aulas disfarçada de aluno.

 

Depois veio a notícia de que Rosa havia sido presa; fazia noite e os movimentos sociais eram perseguidos e calados;

– os DCE’s banidos (na Faculdade de Direito virou Associação Atlética);

– muitos dos revolucionários estavam sendo assassinados;

– o falso milagre brasileiro fazia com que os que raciocinavam pelo bolso aplaudissem os ditadores (eram os tempos do ame-o ou deixe-o, que parecem redivivos);

– o Brasil era tricampeão de futebol com um futebol impecável (mas politicamente omisso);

– os militares consideravam-se eternamente vitoriosos!

Mas o milagre era tão falso como uma bijuteria de quinta categoria dada de presente numa noite de perfume barato e sobrevivência prostituída.

Alegria e esperança: Rosa saía da prisão.

Começava a luta pela anistia aos presos políticos, e foi ali que a guerreira da liberdade mostrou a sua força indomável. Criou-se, com sua participação decisiva, o Movimento de Mulheres para Anistia Ampla Geral e Irrestrita que do Ceará passou a ganhar expressão nacional.

 

Criou-se a União das Mulheres Cearense, um baluarte da luta pelos direitos das mulheres e reforço na luta pela redemocratização, que naquele momento tinha um significado especial no qual Rosa cumpriu um papel de liderança exemplar.

Com a participação da Rosa criou-se o CDOP – Comitê Democrático Operário Popular – que encabeçou lutas inéditas em defesa dos despejados das terras urbanas, como ocorreu na luta da José Bastos, marco histórico em 1979 da retomada do fôlego contra uma ditadura que se tornara impopular por conta da carestia e da falta de assistência social de governos sem compromisso com o povo.

 

Rosa, juntamente com a então Deputada Estadual Maria Luíza, em seu primeiro ano de mandato, fizeram valer a resistência contra a tirania, e conquistaram a terra num local onde hoje está situado o Parque São Miguel e Parque Genibau.

 

Como advogado aprendi que a luta na qual eu me engajava transcendia os aspectos jurídicos do direito burguês, e devo isso muito às conversas com você Rosa, guerreira da liberdade, e mestra da universidade da virtude e da honra.

Seguiram-se lutas populares vitoriosas nas quais não faltaram os brados incansáveis daquela voz que ecoará por séculos afora, porque o exemplo da Rosa está gravado na memória e na história do Brasil e do Ceará encravado numa rocha de granito do panteão das heroínas tal qual aquelas dos monólitos de sua cidade natal, o Quixadá cantado em prosa e verso pelo Cego Aderaldo em suas ruas ensolaradas e noites estreladas.

 

Rosa foi artífice de um fato histórico na Fortaleza rebelde e indomável do Dragão do Mar: a vitória de Maria Luíza, primeira de uma mulher a se eleger para uma Prefeitura de Capital no Brasil, e com um programa revolucionário.

 

Maria Luíza, sua companheira de tantas lutas, governou a capital com todas as adversidades de uma Prefeitura de antes da autonomia financeira constitucional (que só viria em 1989 após o término do seu mandato) e perseguições a um modelo que não podia, aos olhos das elites, ser vitorioso.

 

Entretanto, tal governo jamais cedeu às concessões e alianças fáceis e traidoras, e jamais renegou os seus princípios revolucionários. Daí a tentativa de apagá-lo da memória histórica revolucionária do Ceará.

 

Rosa sempre buscou a verdade revolucionária, mesmo que essa busca, em determinados momentos parecesse para muitos como desfocada da realidade momentânea.

 

Foi assim que, ao compreender as limitações e o esgotamento das lutas eleitorais, e compreendendo a profundidade da crítica do valor marxiana, bem como a convergência desta compreensão e constatação quanto ao limite interno e externo do capitalismo que está a ameaçar a vida no planeta, não se rogou a empunhar a bandeira da emancipação transnacional, mesmo considerando todas as dificuldades de um começo de lutas pela contramão do sistema capitalista, mas que desloca, desde já e mais inda num futuro próximo, a mesmice e a desesperança do processo eleitoral e da conciliação para a lata do lixo da história.

 

Hoje, Rosa, a dor pela perda da sua presença física nos embates e discussões, é substituída pela certeza de que seu exemplo é imorredouro.

 

Nós haveremos de empunhar a sua bandeira de luta e haveremos de honrar o seu legado.

 

Você agora é inatingível pelos seus algozes, o seu nome passa a ser uma lenda que fortalece a crença na liberdade, na justiça e na emancipação humana.

Rosa Maria Ferreira da Fonseca, presente!

Dalton Rosado, pelos companheiros do Crítica Radical.

 

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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