Quem devora quem?

“Suas falas [de Bolsonaro] fomentam direta e indiretamente a violência”. (Carlos Piovezani)

 

Em 1996, numa entrevista concedida ao atual ministro da Fazenda, Fernando Haddad (Encontros: Luiz Felipe de Alencastro. Rio de Janeiro: Beco do Azougue Editorial Ltda, 2019), o historiador e cientista político Luiz Felipe de Alencastro, que em seu doutoramento (Universidade de Paris X) foi orientado por Frédéric Mauro, com quem trabalhou durante quinze anos, lembra que sua formação no exterior deu-lhe elementos para pensar o Brasil fora da chave nacional, desde uma perspectiva conectada, pelos ventos e correntes marítimos, por pessoas que se deslocavam por espaços aproximando o antigo Estado Brasil da África Ocidental e Centro- Ocidental.

Para o historiador, no Brasil há uma dupla tradição perversa. A primeira é da escravidão. O país viveu por trezentos anos nela mergulhado, na violência doméstica, na administração da tortura e do terror, edificando uma situação de infra-cidadania generalizada para uma grande parte da população. Adotando como normalidade social, política e jurídica a tortura pública e a mutilação como métodos exemplares para submeter os escravizados aos ditames do sistema Casa Grande. Todas essas aberrações estavam banidas da maioria dos outros países de tradição ocidental, mas o Brasil carrega isso oficialmente até o final do século XIX. Lembrando que o número de africanos desembarcados no Brasil entre 1550 e 1850 representou seis vezes e meia o número de portugueses entrados na mesma época.

Por outro lado, a outra perversidade era a Inquisição ibérica, que se constituiu como uma reação da aristocracia contra a burguesia mercantil, caçando judeus em toda parte. Oficialmente definiu-se que todo comerciante era um judeu em potencial, trazendo como consequência o estrangulamento da ampliação dos direitos civis por meio do impedimento do crescimento da classe burguesa, elemento de modernização da Europa ao destruir a aristocracia parasitária. Os países da península ibérica católica, justamente pela perseguição violenta aos protestantes e aos judeus, criaram um entrave com a não-generalização dos direitos civis. A Inquisição privilegiava a confissão obtida pela tortura, que era uma prática legalizada. Então essa coisa de torturar, de humilhar um simples suspeito, de ocultar o delator, é algo que atravessou Portugal moderno e chegou ao Brasil.

Alencastro conclui que herdamos como um dos episódios mais trágicos da nossa história a indiferença com o sofrimento da parte de baixo da população do Brasil. A escravidão legou-nos uma insensibilidade, um descompromisso com a sorte da maioria pobre, que está na raiz da estratégia das classes mais abastadas, ao se isolar, criando um mundo à parte só para elas, onde a segurança está privatizada, a escola está privatizada, a saúde está privatizada e assim por diante. Essas perversidades históricas permitiram, entre outros eventos, o surgimento do legado abominável – a Ditadura civil-militar de 1964 a 1985 – que, entre tantos horrores, armou para seus agentes torturadores não serem julgados nem punidos pelo Estado brasileiro, estimulando a aceitação do inadmissível, isto é, a possibilidade do crescimento de uma ampla narrativa, promotora da recepção de discursos de ódio e de atos violentos que vêm alcançar seu ápice com o emergência do bolsofascismo a partir de 2014.

A retórica violenta e pornográfica de Bolsonaro, intensificada e amplificada pelas redes sociais e pelos meios do comunicação tradicionais, acolhida pela classe dominante, irá favorecer o crescimento de grupos neofascistas pelo Brasil afora, produzindo um efeito já estudado no passado por Theodor Adorno quando do surgimento do nazismo alemão na primeira metade do século XX. Adorno escreve que na formação de grupos fascistas, ao fazer do Líder o seu ideal, os sujeitos seguidores também amam-se a si mesmos ao se livrarem das manchas de frustração e descontentamento que estragam sua autoestima pela triste imagem que têm do seu próprio eu empírico (A teoria freudiana e o padrão de propaganda fascista. Blog da Boitempo, 25 de outubro de 2018).

Assim, um considerável grupo de brasileiros e brasileiras desconhecidos e menosprezados, repentinamente, são elevados à condição de alguém que têm o que dizer, de quem agora tem voz e vez para falar e ser ouvido. Desta forma, abre-se espaço, pela potência dos grupos das redes sociais, que o fiel seguidor neofascista se torne também seguido por outros ávidos de atenção e notoriedade. Em uma sociedade profundamente injusta e desigual, visto acima, como é a brasileira, dizer e conquistar algum reconhecimento não é pouca coisa. Esse gozo narcísico foi uma das estratégias pelas quais se notabilizou a ação político-propagandística bolsofascista.

Neste sentido, no dia de hoje, corre notícia pela mídia digital que a Secretaria de Educação do município de Joinville – SC informou em nota oficial estar tomando todas as medidas cabíveis para apurar as denúncias contra um professor da Escola Estadual Georf Keller por haver apoiado, em gravação em vídeo, o massacre das crianças de uma creche em Blumenau ocorrido no último dia 05/04. No vídeo o professor afirma que mataria ainda mais, umas 15 a 20 crianças, com dois facões. Além disso, os alunos afirmam que o referido professor faz frequentemente comentários preconceituosos e de ódio, incluindo casos de racismo, homofobia, misoginia. Afirma ainda que mulher não deve ter os mesmos direitos dos homens.

A antropóloga Adriana Dias (1970 – 2023), uma das maiores referências em pesquisa sobre o neonazismo no Brasil, em uma de suas contribuições mais importantes, descobriu uma carta de Jair Bolsonaro publicada em sites neonazistas em 2004. No texto, Bolsonaro agradeceu ao apoio dado por eles e afirmou: “Vocês são a razão da existência do meu mandato parlamentar”. Ainda segundo a pesquisadora, há uma onda neonazista no estado de Santa Catarina. Em 2020, de acordo com ela, já eram 85 células neonazistas organizadas em ação naquele estado, com a maior concentração desses grupos em atividade, tendo como centralidade ideológica a supremacia branca e eurocêntrica, com aversão à presença do outro diferente, sentindo-se ameaçadas (contaminadas) por qualquer relação com o migrante, principalmente aquele pobre.

Na eleição presidencial de 2022, Blumenau, cidade onde ocorreu a recente chacina das crianças na creche, 75,28% de seus eleitores votaram no candidato neofascista armamentista. Também no estado de Santa Catarina, neste ano, o cantor e compositor baiano e negro, Gilberto Gil, ocupante da Cadeira 20, da Academia Brasileira de Letras, ex-ministro da Cultura do Brasil, embaixador da Organização das Nações Unidas (ONU), além de haver recebido diversas premiações na área da música e da cultura, teve vetada por maioria absoluta, pela 2ª vez, a proposta do título de cidadão honorário apresentada à Câmara de Vereadores de Florianópolis.

Por fim, vem também de Santa Catarina bolsonarista, as postagens do governador Jorginho Mello portando um fuzil, corroborando com a campanha de proliferação de armas, e o comportamento nazista da deputada federal Júlia Zanatta (PL), sexta mais votada no estado, com a pauta armamentista, segurando uma metralhadora e uma camiseta fazendo apologia ao crime, dizendo em inglês “come and make it”. Ou seja, é um incentivo ao crime contra o Presidente Lula, com uma imagem de uma mão com quatro dedos alvejada por três tiros. Lembrando ainda que, entre as muitas mensagens incentivando a violência, Bolsonaro já havia defendido no passado o assassinato de Fernando Henrique Cardoso e o homicídio de 30.000 brasileiros.

Eis, portanto, algumas questões concretas para uma Sexta-Feira da Paixão que talvez tenham a ver com o sentido de nossas existências reais. Apesar de alguns leigos consagrados do tempo presente defenderem a alienação de que é preciso “cortar os laços que nos mantêm ligados à terra”.

 

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Editora Dialética); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

1 comentário

  1. Valdenir viana

    Vejam bem. O bolsonarismo tem esse poder de tirar das pessoas aquilo que está quardado de ruin dentro delas, e expor para fora, seja opiniões preconceituosas incitações ao crime de ódio, e até violência ou de se acharem melhores que todos. Mas está em nos a missão árdua de bater de frente mesmo. Pois os argumentos deles são muitos fragios e fraco para um debate. Agora temos que ser prudentes e vigiar nossos derredor meu amigos