QUE MÁS QUIERES, QUIERES MÁS

Um homem bruto, do passado, hoje já morto. Diz que quando tinha raiva de tudo que não podia resolver quebrava os dentes, os próprios, dele, batendo pedras grandes contra a boca. Ele anda. O homem de quem ouviu falar ouviu falar também que já morreu. Um golpe de chave de fenda. Ele dormia num ferro velho, na carcaça de um automóvel. Uma casa móvel abandonada. Morreu de jeito estranho depois de viver de um jeito estranho. Apodrecia em vida mas estava vivo. Eu por que foi que eu sobrevivi depois que o século passou? Se essa rua fosse minha. Mas a rua não é minha nem nunca foi: era no passado que eu tinha uma ilusão de posse, de invasão heroica. Como se eu fosse uma mulher nua numa revista antiga. Ou os pelos pubianos aloirados de uma mulher nua numa revista para senhores. Mãe. Me perdoa pelo quando te vi nua sem eu querer e me perdoa porque eu não esqueci e sonhei. Já era um homem adulto e não sabia o que era um homem adulto. Nós só trabalhamos ou procuramos trabalho e fazemos contas e pagamos contas ou não conseguimos pagar as contas que fizemos. Isso é de verdade ser gente grande. Eu que sou tão pequeno e, sim, medíocre. Eu não posso mais. O registro de todas as coisas, de cada planta dura que racha a pedra, das coisas que deixam na sarjeta. Que inventário imenso. Uma vez encontrei uma cédula nova e estalante de dinheiro venezuelano que valia quase nada. Ou era da Bolívia? O homem constipado que aparecia na cédula a legenda dizia que se chamava Sucre. Um homem de açúcar. Um pesadelo de crianças. Meu total desconhecimento de história do continente. Eu nem sei a história do patrono da avenida. Mas diz que falava com os mortos. O que diz que os mortos diziam? Parece que eram todos sempre bons até o tédio. Mas um espírito não é uma consciência pacificada que lida bem com o tédio? Deus. O tédio saiu de moda, já não é uma pose possível. Então chegou a minha vez. Morto ou vivo. A minha bruma fora de moda vai paralisar tudo que é vivo. Até as pedras: nunca mais vão transpirar. O homem ria enquanto andava na Bezerra de Menezes. Quando ninguém via.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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