Que formato de competição interessa à vida dos humanos? por Alexandre Aragão de Albuquerque

A cada quarenta segundos uma pessoa se suicida no globo terrestre. Não são a cada quarenta minutos, nem a cada quarenta dias. Um dos grandes problemas sociais enfrentados pela humanidade contemporânea trata-se do vírus HIV. Pois bem, o suicídio mata mais do que o HIV. Outro dado relevante em relação a este drama social centra-se no fato de 75% dos suicídios acontecerem em países com vulnerabilidade social, onde o Brasil ocupa o 8º. lugar entre aqueles com maior índice de suicídio. Entende-se aqui por vulnerabilidade social indicadores econômicos e sociais, tais como a má distribuição da renda e do produto interno bruto produzido internamente por homens e mulheres, associada a condições de insegurança social como moradia, alimentação, saúde, violência física e moral (esta última como acontece no âmbito das diversas relações trabalhistas de comando e subordinação por meio do assédio moral).

No campo do trabalho, o mal ainda agrava-se por não haver uma estatística clara, nas quais as mortes ocorridas por esta causa ora são abafadas, como foi o caso do suicídio de um filho de renomado jornalista de expressão nacional, ou são subnotificadas nos registros da causa mortis nos quais são apresentados outros fatores. Entre as categorias que mais se suicidam destaca-se a dos bancários (1 em cada 10 suicídios), segundo o psicólogo e professor universitário Vitor Barros Rego. São notórias as inquietações de trabalhadores desta categoria no que tange a obrigatoriedade de cumprir metas a cada 20 minutos, como ocorre notoriamente nos grandes bancos privados. Há relatos descritos por bancários pesquisados nos quais eles afirmam terem pesadelos diariamente com a pressão funcional que pesa sobre eles, não vendo horizonte possível de mudança de vida. Outra categoria que se destaca nesta estatística são os professores que declaram serem portadores de um sentimento de impotência diante da realidade educacional na qual estão inseridos, em contextos de trabalho materialmente e psicossocialmente precários. E entre os adolescentes e jovens, o problema também está presente, com um crescimento de 40% nos últimos anos. Dos fatores que favorecem essa situação está a vulnerabilidade das famílias, nas quais pais e mães, para poderem se sustentar, passam o dia fora de casa, no trabalho, abdicando da tarefa primordial de acompanhar e educar seus filhos em sua trajetória de crescimento, deixando para a escola – precarizada, como vimos acima – a missão de educar. Mas como sabemos, quando muito, a escola ensina conteúdos, não mais que isso, além de assimilar o modelo competitivo global repassando-o para os educandos.

Em artigo recente tivemos a oportunidade de gravar as características do modelo econômico global, baseado numa alucinada competitividade e consumo de bens materiais. Os fatores que contribuem para explicar a arquitetura da globalização atual são: a unicidade da técnica, a convergência dos momentos, a cognoscibilidade do planeta e a existência de um motor único na história, representado pela mais-valia globalizada. A competividade globalizada tem a guerra como norma: há, a todo custo, que vencer o outro, para tomar o seu lugar. Esta guerra como norma justifica toda forma de apelo à força, utilizado para dirimir os conflitos dessa “ética da competitividade”. Ela se funda na invenção de novas armas de luta, num exercício em que a única regra é a conquista da melhor posição. É uma espécie de guerra onde vale tudo e, desse modo, sua prática provoca um afrouxamento dos valores morais e um convite ao exercício da violência. Para exercer a competitividade em estado puro e obter o dinheiro em estado puro, o poder deve ser também exercido em estado puro. O uso da força sendo tornada uma necessidade. Não há outro telos, outra finalidade que o próprio uso da força, já que ela é indispensável para competir e fazer mais dinheiro. E tudo isso vem acompanhado pela desnecessidade de responsabilidade perante o outro, a coletividade próxima e a humanidade como um todo. A perversidade do sistema global consiste, portanto, na instituição da competitividade como regra absoluta, competitividade que escorre sobre todo o edifício social. O outro, seja ele empresa, instituição ou pessoa, aparece como um obstáculo à realização dos fins de cada um e deve ser removido, sendo considerado uma coisa. Decorrem daí a celebração do egoísmo, o alastramento dos narcisismos, a banalização da guerra de todos contra todos, com a utilização de qualquer que seja o meio para obter o fim colimado, isto é, competir e vencer. Como subproduto da competitividade surge a corrupção. Os papéis dominantes, legitimados pela ideologia, pela mídia e pela prática da competitividade, são a mentira, o engodo, a dissimulação e o cinismo, glorificando a esperteza, negando a sinceridade, glorificando a avareza, negando a generosidade.

Resgatando a reflexão de outros pensadores, citamos Martin Buber, para o qual a pessoa humana, portadora de dimensões diversas e interligadas, constrói-se no e pelo diálogo com o outro. Na relação Eu-Tu há a presentificação do Eu cuja construção se dá através da relação com o Outro-Tu. O encontro entre o Eu e o Tu é um evento no qual há o olhar face a face. Essa reciprocidade é fundamental na relação Eu-Tu, porque dela decorre a resposta ao apelo dialógico e, em sentido ético, à responsabilidade. E é dessa espécie de relação que nasce a comunidade, única capaz de fazer surgir verdadeira vida entre os homens. Trata-se de uma travessia em direção ao outro, no sentido de olhá-lo como um meu igual, aquele que, sendo ou não meu competidor ou adversário, compartilha comigo uma raiz fundamental: a humanidade.

Também o biólogo Humberto Maturana atesta que adoecemos porque o viver cultural, que transforma em um modo de vida o viver na negação sistemática da legitimidade do outro e de si mesmo, vai em oposição ao fundamento biológico do viver humano. O amor não é um sentimento, é um modo de relacionar-se, é um modo de conduzir-se com o outro e consigo mesmo, em que o outro surge na relação como um ser legítimo. Nossa biologia humana nos pede que vivamos desde pequenos na biologia do amor, centrada na confiança mútua, para todo o viver humano em consciência e responsabilidade social. Seremos adultos amorosos e responsáveis pelo nosso ser social somente se conservarmos o respeito e o amor pelo outro.

Por fim, o psicanalista Enrique Enriquez atesta que existem em nossas cidades muitas mortes, mortes físicas, mortes psíquicas, mas é o amor – seja como amor total, seja como ternura, amizade, camaradagem, solidariedade, fraternidade – que deve nos animar. É preciso pensar não apenas na liberdade e na igualdade. A fraternidade é também alguma coisa de essencial. É a percepção de que as sociedades não podem se fundar nem perdurar se não desenvolverem um mínimo de prazer, até o regozijo de estar junto.

Ao que parece, o festival da competitividade alucinada não é tudo. Como lembra o poeta Geraldo Vandré, “a vida não se resume a festivais”. É preciso pensar e agir na política com uma virtù comprometida com a construção continuada de políticas e estruturas que alimentem a dimensão civilizatória do viver humano em sociedades. Dessa forma, com certeza, a taxa de suicídios recuará.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Independente); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .