Quantos morrem naquela fila maldita? por Pedro Mourão

Por esses dias adoeci, suspeita de pneumonia. Seria até comum, se não fosse a segunda suspeita, uma doença nova, a famosa chicungunya. As dores são alucinantes, se você for um homem adulto e saudável dificilmente conseguirá sozinho tirar sua roupa para tomar banho. A dor e os inchaços não deixam. Você poderia ligar para o SAMU, mas dificilmente ele irá aparecer. Eu mesmo liguei, a atendente diz que não vai vir ambulância por que a demanda é grande para o SAMU atender. Ela desliga o telefone dizendo algo do tipo, “tenta se virar aí”. Acabo indo ao hospital com ajuda da minha namorada, e lá a fila é quilométrica, não há cadeira para todos e de longe parece com a fila do purgatório. Uma viatura do sistema penitenciário está na entrada de emergência, 5 agentes armados até os dentes e dentro da viatura sai um preso, maltrapilho, magro e caminhando. Penso comigo, e se um desafeto desse cidadão aparece aqui para acertar as contas? Eu não consigo nem andar, quem dirá correr.
Ou se um amigo dele aparecer para soltar ele? Não sei, mas não vi nenhuma enfermeira avaliar o preso pelo sistema de triagem Manchester. Os doentes o olham com ódio, logo ele que dessa vez foi obrigado pelo Estado a ir contra as regras. Eu cheguei quase às 11 da manhã, e a única médica que faz atendimento clínico também, mas logo saiu para almoçar. O porteiro adverte: “A doutora pode, mas se eu chego atrasado a direção me cobra, já os médicos podem chegar tarde ou sair cedo, eles não tem chefe”. As horas passam e converso com as pessoas próximas. Chega um homem de ambulância (coisa rara como já disse), com mais de 20 pontos no joelho, ele sai pulando que nem o saci, não tem um enfermeiro, maqueiro ou alma que pegue a velha cadeira de rodas enferrujada e torta que está no canto da emergência para ele. Eu me arrasto e levo a cadeira até ele, com um gosto de amargo na boca, de raiva e indignação por ninguém fazer nada. Nas paredes do hospital o mofo é quase parte da arquitetura, entre os funcionários o despreparo parece parte do treinamento. Porém, eles são os menos culpados, os comentários são de que já faz dois meses que o prefeito (que por sinal é médico formado em Harvard) não paga o salário dos funcionários do hospital, exceto o dos médicos, que está em dia é claro, pois têm um sindicato forte e fazem greve. As pessoas vão se amontoando na sala de espera, entre a sujeira, a poeira e o sofrimento. A lentidão do tempo soma a dor das horas e finalmente sou chamado para entrar no hospital, porque até então a fila era do lado de fora do prédio. Tem só mais 4 pessoas na minha frente, estou um pouco aliviado por que finalmente consigo uma cadeira para sentar, eram quase 3 da tarde.

 

O hospital tem 3 consultórios e uma médica que chegou do almoço as 2 da tarde para atender quase 100 pacientes. Do nada o porteiro passa pelo corredor para nós avisar que havia chegado um paciente com 4 tiros na cabeça, mas porque ele veio avisar eu não sei, me senti mal, por mim e pelos demais pacientes que estávamos passando mal e passamos ainda mais pensando na nossa morte e na do colega que não agonizou muito mais do que 20 minutos. Rezei comigo para que ele estivesse inconsciente de tudo, por que eu não estava. Sou atendido, a médica parece tranquila e até lembra um avião no modo automático, não olha nos olhos, não cumprimenta, nem olha minhas juntas inchadas e doloridas. Ainda bem porque a consulta é feita a portas abertas e eu não queria ficar sem roupas na frente de todos. Ela receita um analgésico, soro, e solicita dois exames. Ela vai se levantando com a bolsa na mão para o famoso lanche da tarde do qual às vezes só volta no dia seguinte. Minha namorada pergunta se ela vai ficar no hospital depois do “lanche da tarde”, a doutora com rosto entre a raiva e a vergonha diz que não vai lanchar, vai pegar um remédio para um paciente. Contei mais de 30 enfermeiros e técnicos, mas só vi uma médica o dia todo. A doutora só pode ser muito solicita com alguns pacientes para todo dia no mesmo horário buscar tal remédio. Em hospital público as horas são madrastas. Leve seu celular com bateria cheia, ou outra forma de distração pq o SUS é um purgatório que lhe mata no cansaço. Do meu lado um homem se queixando de muita dor abdominal se contorce, e explico a ele que tenha paciência e que mantenha o braço imobilizado se não a agulha pode sair e o sangue vai jorrar, ele se mal diz por não ter feito o plano de saúde, e eu penso comigo “que sorte a dele que ainda tem a chance de escolher entre fazer ou não o plano”, por que para maioria isso não é nem uma chance remota em um orçamento de 900 reais mensais.

 

Com só um dos exames prontos, levo para a médica me diagnosticar, ela me passa um xarope que eu poderia ter comprado na farmácia da esquina para meu catarro que vez por outra vinha com sangue e fazia uma semana que não secava. Sobre as dores, ela descarta chikungunya dizendo que se fosse de verdade eu não teria chegado ali ainda caminhando. Ela me receita um analgésico de bodega. Eu peço uma sorologia para o vírus, digo que quero entrar para as estatísticas da doença mesmo que não dê em nada. É meu testemunho para a saúde pública da minha cidade. Antes das 6 da noite a médica já não estava no hospital, e meu segundo exame só saiu bem depois das 7 da noite. Ligo para uma amiga médica e passo na casa dela. Conversamos um pouco, tomo uma água, e brinco com seu filho pequeno, mostro a ela meus exames, ela se surpreende e me dá uma receita de um antibiótico para meus pulmões e uma amostra grátis que já é metade do tratamento, me recomenda procurar um reumatologista por que minhas mãos estão muito inchadas da doença. Com minha amiga em 2 horas resolvi um problema que em um dia inteiro de tortura num hospital público não resolvi. Dou tchau a ela e ao bebê, e fico com uma pergunta na cabeça, “Eu tive o privilégio, tenho amigos em diversas áreas, quase sempre fui uma pessoa privilegiada. Mas quantos outros não são? Quanto nós pagamos para morrer lentamente nas filas? Quantos morrem naquela fila maldita?”

Pedro Mourão

Pedro Mourão

Profº. Ms. Pedro Jorge Chaves Mourão Cientista Social - UECE Mestre em Sociologia - UFCE Sociólogo MTE nº 327/CE Jornalista MTE nº 2822/CE Curriculum Lattes: http://lattes.cnpq.br/1705979956586966

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