Quanto de intolerância você tolera? por Jessika Thaís

Em um livro chamado A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (1945), Karl Popper, um importante filósofo da ciência nascido na Áustria, faz o seguinte comentário sobre tolerância:

“Tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos ilimitada tolerância mesmo aos intolerantes, se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante do assalto da intolerância, então, os tolerantes serão destruídos e a tolerância, com eles. — Nessa formulação, não insinuo, por exemplo, que devamos sempre suprimir a expressão de filósofias intolerantes; desde que possamos combatê-las com argumentos racionais e mantê-las em cheque frente à opinião pública, suprimi-las seria, certamente, imprudente. Mas devemos nos reservar o direito de suprimi-las, se necessário, mesmo que pela força; pode ser que eles não estejam preparados para nos encontrar nos níveis dos argumentos racionais, mas comecemos por denunciar todos os argumentos; eles podem proibir seus seguidores de ouvir os argumentos racionais, porque são enganadores, e ensiná-los a responder argumentos com punhos e pistolas. Devemos, então, nos reservar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar o intolerante.”

Popper era liberal clássico e defendia a ideia de estado mínimo em sua essência e incentivava o pluralismo, a convivência harmoniosa entre diferentes ideais. O trecho retirado do livro se refere a um paradoxo. Muitas pessoas se perguntam se deixando de tolerar a intolerância, seria intolerante e isso não seria correto. No entanto, foi essa postura que fez com que muitos discursos de ódio tomassem proporções gigantescas.

Usando um exemplo raso – falemos sobre como a polarização entre esquerda e direta vem acontecendo no país. A esquerda acabou conversando e tolerando muitos discursos que feriam grupos de minorias e direitos garantidos.

Voltando ao texto – Popper fala da necessidade de combater com argumentos, no entanto, ele reforça que quando os mesmos não são válidos, há sim a necessidade de suprimir tais ações, pois os intolerantes poderão vir com “punhos e pistolas”. Mas quando saber que são válidos? Temos como norte uma Constituição, que não deixa dúvidas sobre o que deve ser feito. Temos ainda pesquisas, números e dados que mostram onde o dinheiro precisa ser aplicado, qual a necessidade de determinada região e qual grupo precisa de mais atenção naquele momento.

Quando falamos sobre isso, não cabe apenas o viés de confirmação de quem fala, é necessário estar munidos de argumentos de fatos válidos e sustentados, e quando ele não vem acompanhado de uma reflexão de fato embasada, o emissor vira o intolerante. Lembremos que a máscara da frase “É minha opinião” foi a mais usada nos últimos acontecimentos. As pessoas acabam ignorando conhecimento científico, estudiosos, fontes seguras e até mesmo autores que criaram os termos muito usados por ela para a confirmação de um viés que lhes agrada. Há repulsa ao conhecimento de base e aplausos a teorias que não possuem confirmações, provas e que nem teorias de fato são.

Darcy Ribeiro tinha razão quando citou, em uma palestra em 1977, que “A crise na educação no Brasil não é uma crise, é um projeto”. Não há interesse pela educação de base, não há tempo para o ensino ao raciocínio lógico, à crítica, o incentivo ao debate, o conhecimento de classes e, principalmente, o contexto histórico.

Estão afirmando que não houve escravidão no Brasil – calar-se perante isso é tolerar o intolerante. Estão exaltando um período sombrio e obscuro no Brasil, quando, até hoje, muitas famílias não enterraram os desaparecidos da ditadura – aceitar isso é tolerar o intolerante.

Reler esse trecho é sempre necessário – “pode ser que eles não estejam preparados para nos encontrar nos níveis dos argumentos racionais, mas comecemos por denunciar todos os argumentos; eles podem proibir seus seguidores de ouvir os argumentos racionais, porque são enganadores, e ensiná-los a responder argumentos com punhos e pistolas”. É preciso fazer algo para barrar a intolerância e o discurso de ódio disfarçado de opinião e, para isso, é preciso entender, escutar, estudar e não tolerar.

Jessika Thaís

Jessika Thaís

Feminista, jornalista, pós-graduanda em gestão ambiental, sonhadora, acredita em signos, no budismo e na apatia da natureza. Contraditória como todo bicho gente, curiosa e colunista do Segunda Opinião.

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