Quando o Tango encontra o Heavy Metal – por SÉRGIO COSTA

Tá, eu sei que o texto é sobre arquitetura. Mas como me acostumei a escrever sobre música, acabei edificando essa mania de sempre fazer algum título engraçadinho com estilos musicais ou com artistas, pilares sólidos da minha formação cultural. Fazer o quê, né? Casa de ferreiro… Mas vamos lá, mãos à obra.

 

Talvez uma das melhores características da raça humana seja mesmo a tal sensibilidade. Porque ela te permite – quando bem exercitada – entender a beleza por trás das coisas, mesmo aquelas das quais você não entende praticamente nada. Aguçe seu sentidos e tenha foco na observação do que está ao seu redor e você dificilmente não conseguirá experimentar ou apenas perceber algo novo sobre… algo novo!

 

Comigo isso acontece na questão da arquitetura. Tenho conhecidos arquitetos, mas com quem não converso tanto. Vejo algumas coisas em documentários e publicações nas mídias sociais, mas não conheço tanto. Porém, quando paro pra admirar, aí sim a tal da sensibilidade me permite ser não um especialista (seria muita pretensão!) mas ao menos saber/sentir um pouco do que aquele assunto está me “dizendo”. Um exercício mais atento de parar e observar o que temos ao redor nos faz aprender, nos faz crescer e até se identificar mais com o lugar e a história de onde estamos no espaço-tempo. Afinal, estamos falando de apreciar uma arte que atravessa esse continuum. A perenidade das obras arquitetônicas carrega não só estilo, beleza, pedras, tijolos ou outros materiais: carrega vida, história, saber e cultura tão sólidos quanto a própria obra.

 

Uma viagem, por exemplo, costuma ajudar muito nisso. Te abre a mente e os sentidos para apreciar o que há de diferente do habitual lugar onde você vive. No último mês de abril, tirei 12 dias de férias e me mandei pra Argentina. Já conhecia a capital do país em uma viagem feita em 2015. Mas desta vez vivi uma experiência totalmente diferente, muito mais rica e que permitiu admirar muito mais da cultura – e da arquitetura – de Buenos Aires, como não havia feito na primeira ida. Minha esposa elaborou previamente, com todo o carinho (e sensibilidade!) um roteiro massa para aproveitarmos de um tudo em nosso destino de férias. Aliás, viajar assim sem pacote turístico é algo que tem nos agradado muito, porque você não fica preso a horários ou passeios chatos/clichê/manjados. E convenhamos, hoje em dia com um celular na mão e acesso à internet você só se perde se quiser. Creio até que foi justamente essa coisa do “se perder” que deu a graça da nossa viagem inesquecível à capital de nossos hermanos.

 

Desde minha primeira ida, talvez a coisa que notei logo de cara – e isso é certamente um elemento que traz uma qualidade de vida superior à cidade e seus habitantes – foi a exuberância do verde na cidade. Suas praças são muito bem cuidadas, planejadas e mantidas com exímio carinho. Praticamente todas as praças por onde você anda possuem algum monumento arquitetônico, seja em forma de objetos ou mesmo estátuas lindamente esculpidas na pedra ou no metal. E todas elas sempre contam uma história sobre alguém ou alguma coisa que aconteceu ali e que foi importante para o país – o patriotismo dos argentinos é muito bonito e bastante diferente do nosso, e eles fazem questão de manter viva sua história, seus momentos e sua soberania.

 

E se arquitetura é história, não podemos deixar de falar da monumental Facultad de Derecho Y Ciencias Sociales. Imponente como um grandiosíssimo templo grego, é certamente um dos mais emblemáticos edifícios da cidade, erguendo-se com suas colunas dóricas (cada uma com cerca de 20m de altura) sobre uma área de 40 mil metros quadrados no doce bairro da Recoleta, cercada pelo verde agradável dos jardins, parques, da maravilhosa escultura metálica Floralis Generica e da reserva ecológica ali próxima.

 

Logo ali próximo, ainda no bairro da Recoleta, temos uma intervenção bastante interessante, que serve pra provar também uma das coisas que mais é digna de admiração pelos argentinos: a preservação. Existe uma enorme árvore no parque em frente ao cemitério (que é outro espetáculo à parte, com cada mausoléu mais lindo que o outro) que possui galhos muito compridos e pesados, ramificando-se por toda a região, em alguns trechos bem rente ao chão. E aí vem o elemento encantador: ao invés de cortá-los (como em certas cidades que nem a nossa), tiveram a ideia de sustentá-los com barras de ferro e inclusive com… estátuas! Sim, em um determinado trecho há uma estátua de Atlas segurando um pesado galho da árvore. Sensacional a capacidade deles de unir o antigo ao novo sem a necessidade de destruir. Combinar utilidade à preservação da natureza sem precisar utilizar o discurso polêmico e atual da motossera, tão infelizmente em alta no seu país vizinho.

 

Descendo um pouco mais, temos o bucólico bairro de La Boca. Lar do famoso time de futebol Boca Juniors, o bairro mostra uma cara mais humilde da cidade. São casinhas antigas, baixas, porém cheias de um afeto que salta aos olhos logo ao ver. É nele que está o conhecidíssimo El Caminito, um reduto cultural que preserva as raízes do Tango (e como é bom assistir a um casal dançando nos restaurantes no meio da rua) e de outras manifestações artísticas. Nessa área, ficamos sempre rodeados das mesmas casinhas antigas, porém coloridas com tons quentes em suas fachadas, trazendo uma alegria a quem por ali passa e mostrando que é possível se sobressair e se atualizar sem grandes esforços mantendo a identidade.

 

Voltando novamente mais ao norte, estamos no boêmio bairro de San Telmo. Foi onde ficamos hospedados num agradabilíssimo hostel e tivemos a sorte de estar no coração deste bairro tão pacato e cheio de casas coladinhas e que enganam à primeira vista. Enganam porque, em suas fachadas, você olha a maioria de frente e não dá nada por elas: portas estreitas, antigas, muitas vezes feinhas. Mas assim que você entra em alguma delas, descobre sempre um mundo novo, um imóvel imenso por dentro com pé direito alto, uma galeria de arte, ou um barzinho (aliás, de barzinho esse bairro é felizmente bem servido!). É ali que fica também a conhecida Feirinha de San Telmo, que todo fim de semana traz antiguidades, artesanato e muita coisa legal exposta nas mesinhas e barracas. Fica por ali também um charmoso centrinho comercial com muitos paraguas (guarda-chuvas) coloridos suspensos no ar – ponto obrigatório pra visitas e fotos. Toques sutis e de uma bonita simplicidade que só a “Paris da América do Sul” pode proporcionar.

 

Agora já foram 10 parágrafos e ainda não expliquei o por quê do título desde texto-roteiro turístico. Bem, pra explicar – e finalizar – é realmente possível sentir que é no bairro de Puerto Madero “onde o Tango encontra o Heavy Metal”. Com duas metades separadas pelo Rio da Prata, sua zona portuária traz o clássico da cidade de um lado: uma arquitetura tradicional pulverizada por muitos prédios como a Facultad de Ingeniería e, não longe dali, a icônica Casa Rosada, o Banco de La Nación e o Centro Cultural Kirchner, com seus estilos franco-ingleses classudos e imponentes. Do outro lado do rio, temos o próprio Heavy Metal: um contraste gritante surge com os arranha-céus metálicos, modernos e pontiagudos que elevam a vista da outra margem. O prédio sede da Oracle (a famosa empresa de tecnologia) é o mais baixo deles, porém não menos impressionante: surge no horizonte como praticamente uma caixa iluminada, que não dá pra deixar de notar e admirar. Ao seu lado, diversos espigões de hoteis como o Alvear Rooftop (de onde, do alto, se tem uma vista maravilhosa em 360º da cidade) e ainda muitos prédios corporativos.

 

Buenos Aires. Um charme de arquitetura por todos os lados mesmo para quem não a entende. E nem precisa, até: apenas apreciar seus prédios, praças, casinhas é um convite ao exercício da sensibilidade. Tão próxima ao nosso país e ainda assim tão distante, congrega o verde ao tradicional e também à modernidade. É o Tango, o Metal, o pop, o clássico, o boêmio e o cosmopolita ao mesmo tempo, mas de forma harmoniosa. Tudo junto numa cidade que vale a pena viver, conviver e reviver sempre que possível. A gente devia deixar essa rivalidade besta de lado e se inspirar mais um pouco naquilo que eles sempre estiveram ali pra ensinar sobre urbanização e qualidade de vida. Gracías!

Sérgio Costa

Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, guitarrista por atrevimento. Apaixonado incurável por música, literatura, boas cervejas e grandes ideias. Escreve quinzenalmente sobre música para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião. Contato: [email protected]

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