QUANDO O MEDO ME ABRAÇA

 

“pego o ódio agressivo e enfio em um   buraco tampo com ignorância

rego com vontade de esquecer

e espero que algo bom aconteça

como quem planta feijão no algodão”

(Poema Terra de inanição, do livro O medo     de tocar o medo, de João Henrique Balbinot)

À noite – e às vezes durante o dia também -, ele chega se arrastando por entre as frestas das portas e das janelas. Vem pelos cantos, diluído, ébrio, sórdido… chega como a morte, me olhando de soslaio, em altivez e me diz “ainda?”. Depois, como uma mãe com remorso após castigar o filho danado, me abraça.

Tento abrir qualquer livro para ler, mas tenho medo do que posso encontrar. Tenho estado tão frágil que qualquer coisa pode me tirar do prumo, inclusive o vento ou um banho de mar. Qualquer coisa imbuída de lembrança pode me ser fatal como o canto de uma sereia. Não tenho talento para ser marinheiro, por isso mesmo tapo os ouvidos com a voz de qualquer escritor que consiga me distrair de mim mesmo. Algum escritor homossexual que possa narrar algo menos patético do que eu mesmo em meus pensamentos. Alguém que grite mais alto do que a voz do passado em minha cabeça.

Navegar minha própria vida já me parece absurdo. Absurdo como pensar Deus neste aqui-agora.

Qual tipo de verdade uma pessoa medrosa, mesmo que provisoriamente, pode querer encontrar em um livro? Vale a pena correr o risco em aterrorizar-se?

Levanto, lavo o rosto, visto-me de medo e caminho despido pela casa até postar-me diante da cremalheira recém instalada onde repousa a sabedoria prepotente da literatura cheia de páginas. Respiro fundo, aspirando o resto do aroma decomposto do último amor, oro para que a imagem do falecido amante evanesça de vez de meus pensamentos, e tento preencher-me das paisagens do Peru – última viagem na qual me aventurei como louco.

Leia duas páginas e não consigo entender nada. Na verdade não consigo prestar atenção no que leio, dado o medo que me controla. Fecho o livro e penso no medo, em sua origem, seus fundamentos. Não encontro fundamentos. Ele simplesmente é e está.

Subitamente me vem a sensação de que até minha vocação para sustentar meu fracasso nos últimos tempos tem se esgotado. O medo me faz levantar e escrever ou querer ler ou fazer qualquer atividade mesquinha diária. De algum modo – e não sei como ou por que -, estou desejando, sem ação alguma, me reerguer.

Constato: estou fracassando no meu projeto pessoal de fracassar na vida. Tenho medo da familiaridade excessiva com a falta de êxito constante. Decido: nada pode ser pleno e permanente; nem o medo, nem a coragem, nem a alegria, nem a tristeza. Tudo perpassa-nos, tudo por nós transita.

Penso no capitalismo selvagem e em sua vitória sobre a racionalidade humana. Corro no banheiro e escarro o gosto da derrota política e social na privada e dou descarga.

Elenco perguntas para mim mesmo, em busca de cura:

De que serve esse existencialismo todo?

O que eu fiz a mim mesmo nos últimos tempos?

E a dor, de que serve?

Para que serve o poema escrito e borrado com lágrimas, o qual jamais será lido em voz alta por medo?

O que faço com essa vontade de chutar esta dor em forma de medo para viver a promessa de delícia da vida?

E o efêmero, de que me serve?

Para que nos serve uma pergunta sem resposta?

Me olho no espelho: vejo uma resposta para mim.

 

Jair Cozta

Jair Cozta

Jair Cozta é Produtor cultural, artista, ativista queer e revisor de textos em Língua Portuguesa. Às vezes é do tamanho da duração do instante. Cursou Letras na UECE e atuou como produtor em diversos espaços culturais de Fortaleza.

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