QUADRILHAS JUNINAS

Todo ano acendem a fogueira de uma velha discussão cujo combustível pretende saber se o poder público deve continuar financiando eventos que têm aparência tradicional, mas, ao contrário, são compostos de artistas modernos sem referências de preservação da cultura, representando invasão indevida. Ou
seja: o que os cantores goianos da música sertaneja têm em comum com os festejos tipicamente nordestinos?

A pergunta flutua como balão: dinheiro dos contribuintes devem financiar cantores e intérpretes que já têm espaço garantido na mídia brasileira, na máquina da indústria cultural? Melhor: cidades pobres,
com péssimos resultados de IDH precisam pagar enormes somas de dinheiro para cantores sertanejos?

E, aqui, faço uma revelação: são
tão espantosas as quantias carreadas a esses artistas, que alguns shows
foram cancelados e estão na mira do Ministério Público, com suspeita
de inúmeros delitos, crimes contra a moralidade, assaltos e sangrias ao patrimônio público.

Não sou saudosista, mas nessa quadra específica do ano gostaria de
assistir shows de gente compromissada com o espírito junino do Nordeste, reverenciando seus ciclos econômicos e sócio-culturais, a partir de manifestações como o forró, o baião, o xaxado, os aboios e as cantorias, em cenários agrícolas, nas cidades sertanejas, com gastronomia típica, em feirinhas, com quadrilhas juninas dançando, em autênticas “Noites Brasileiras”, o gênero aperfeiçoado por Luiz Gonzaga e internalizado por Mário Zan. Lamentavelmente, o que se
vê nesses cenários são outros modelos, pretensamente impostos pelo mercado, pelas políticas públicas mesquinhas que visam resultados eleitoreiros.

Aí vem a pergunta: quando é que os prefeitos dessas cidades
interioranas vão cair na realidade, sair dessa tendência cultural absurda, equivocada e, muitas vezes, até criminosa?

Certa vez, a polêmica maior rendeu enormes labaredas quando Elba Ramalho fez comentários sobre parte destas manifestações tipicamente nordestinas e destacou a falta do forró junto às festas, citando a presença de outro gênero: a música dos sertanejos. Disse: “no céu,
cabem todas as estrelas, ninguém atropela ninguém, porém eu não canto na festa de Barretos. Dominguinhos também não cantava. A festa é deles, é dos sertanejos”.

A princípio, a par de demarcação dos campos distintos, não há nenhuma
incoerência quanto ao alerta de Elba, porque realmente há essa invasão
dos sertanejos no terreiro dos forrozeiros. Acontece que o problema
deve ser resolvido em outro campo, convertido para a área de políticas
públicas. Que tal examinar a Constituição Federal justamente no capítulo dedicado à cultura? E, com base no Texto, baixar uma
legislação que regule a matéria?

A questão maior é que os políticos, sejam executivos e representantes do povo, em sua grande maioria, não querem esse tipo de discussão porque de alguma forma se beneficiam desse filão, desta reserva de
mercado, que provavelmente mistura interesse público com privado.

Quando o Texto Maior garante os direitos culturais, com conceitos bem abertos do ponto de vista antropológico, preconiza, de forma literal, a proteção das manifestações “culturais populares, indígenas, afro-brasileiras e de outros grupos participantes do processo
civilizatório nacional”. Quer dizer: a diretriz constitucional determina o sentido protecionista, conjugando preservação daquela manifestação cultural que foi necessária para a nossa formação.

Penso, finalmente, que o poder público deveria garantir essas manifestações legítimas, caras e importantes, através de uma legislação que, pelos menos nos dias de São João e São Pedro, sejam realmente difundidas nossas manifestações mais valiosas, os verdadeiros tesouros imateriais de nossa cultura, dentro do padrão constitucional de preservação, consciência e zelo, afastando essas verdadeiras quadrilhas que se apropriam desse formato típico da estação.

Foto da Internet

Durval Aires Filho

Durval Aires Filho é Desembargador do Tribunal de Justiça do Ceará, professor universitário e mestre em Políticas Públicas. É membro da Academia Cearense de Letras, tendo publicado os seguintes livros: “As 10 faces do mandado de segurança“ (Brasília Jurídica) e “Direito público em seis tempos. Autores relevantes e atuais” (Fundação Boitreaux). Antes da pandemia foi vencedor do Prêmio Nacional de Literatura para Magistrados, com a ficção “Naus Frágeis”.

Mais do autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.