Puerpério 1/1

       Existe algo importante sobre a maternidade que quase não é dito: dói.

    O pós parto é dolorido e não somente fisicamente, dói lidar com o redemoinho de sentimentos, dúvidas e medos que aparecem. Tem dias que a única vontade é dormir por horas seguidas ou chorar ou então, como em um passe de mágica, sumir. E claro que você vai se sentir péssima por não ser A mãe que esperam, porque tem isso: a mãe que gostariam que você fosse.

    Sempre ouvi dizer e só entendi depois de ser mãe: a cada parto, morre uma mulher, nasce uma mãe. A mulher que fui antes de parir morreu, mas não deixou de existir.

    Na sala de parto, entre uma contração e outra, ela ainda existe. Na amamentação, nas trocas de fralda, nos questionamentos diários – e medos e receios e tudo que o maternar traz – ela ainda existe, ainda que de uma forma diferente. Quase uma memória intocável. Uma lembrança permanente que deixa seu rastro em cada ação e sensação do cotidiano.

    Sempre penso em minha mãe e minha vó. Nelas, que vieram antes de mim. E me pergunto como seriam as mulheres que morreram quando delas nasceu o ser mãe.

    Minha vó materna foi mãe pela primeira vez aos 19. Depois disso, foram 16 gravidez. Minha mãe engravidou de mim aos 22. Quem elas foram antes de serem vistas como mãe e avó? Que sentimentos guardaram?

    Não existe linearidade. Tudo é e não é ao mesmo tempo. O fato é que, ao engravidar e tornar-se mãe você simplesmente não apaga tudo que já passou e passa a viver “do zero”. Meu eu anterior morreu, mas não deixou de existir.

    Pendências, sentimentos não resolvidos, angustias e desejos. Tudo permanece, ainda que diferente. Vida e morte se misturam e ao se tornar você mesma sua própria lembrança-viva, o mundo ganha outra cor, outro tamanho, outro sentido.

    Tudo isso dói. E a nossa cultura nos faz crer, ensinando-nos desde pequenininhas, que ser mãe é uma dádiva divina, quase sagrado. Mas não é. Ser mãe é tão carnal e profano quanto se pode ser.

    Séculos atrás, em alguns lugares do mundo, mulheres foram queimadas vivas por, entre outras coisas, terem total domínio sobre seus corpos e desejos podendo desejar, inclusive, não ser mãe. Ainda hoje, mulheres morrem e são criminalizadas todos os dias por não aceitarem a maternidade como algo obrigatório e determinado. No final das contas, o que deveria ser escolha e desejo torna-se obrigação. 

    E não devia ser assim.

    Maternar é tão dolorido quanto o parto, só que com uma duração mais longa. E é você consigo mesma, enfrentando fantasmas e reaprendendo a ver a vida brotar, crescer e fluir.

    Todos os dias, converso com a mulher que fui. Olho no espelho e encaro os mesmos olhos mas sei que algo mudou profundamente. Há renascimento no pós parto e também há despedidas. Eu e a mulher que fui concordamos em algumas coisas e, entre elas, com a necessidade mais que urgente de enfrentar o real e transformar todas as coisas. Negar os papéis pré determinados que nos enfiam goela abaixo em nome de uma moral obsoleta. 

    Não sou só eu e a mulher que eu fui que precisam e desejam um mundo diferente, onde maternar não seja uma obrigação ou um determinante traçado na linha do destino. Muito menos uma missão.

    Muitas mulheres morreram tentando lutar contra a condição imposta do ser mãe. Elas me lembram todos os dias que não sou só eu e a mulher que eu fui que sentem medo e até desespero ao lidar com a maternidade. Escolhi ser mãe e enfrentar esses fantasmas, sabendo que não seria fácil. Mas não sou só.  

    Carrego em mim tantas outras mulheres que fizeram suas escolhas, sendo mães ou não e decidiram enfrentar o mundo. 

 

Juliana Magalhaes

Juliana Magalhaes

Juliana Magalhães é licenciada em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e mestre na mesma área pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) . Atualmente é docente da UECE na cidade de Itapipoca. Mãe de primeira viagem do Fernando.

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