A promiscuidade eleitoral, por Cleyton Monte

Nos debates em sala de aula e na imprensa, sempre me perguntam sobre o que penso acerca das alianças entre antigos inimigos políticos e acordos que colocam no mesmo palanque líderes com perfis e bandeiras tão distintas. Desde então, passei a utilizar a expressão promiscuidade eleitoral como chave analítica. Deixando de lado qualquer traço moral que esse termo possa vir a carregar, aproveito o espaço do SEGUNDA OPINIÃO para explicar melhor do que se trata e iniciar uma breve reflexão sobre os impactos diretos de tal arranjo.

Acompanho o jogo político há tempo suficiente para reconhecer os ditames da governabilidade. Vivemos em um sistema com forças partidárias fragmentadas e, não raro, incoerentes. Isoladamente, não se governa no Brasil. Entretanto, penso que as alianças deveriam manter alguma unidade programática, ou seja, um conjunto de pontos que pautasse o futuro governo. Os acordos, constituídos entre lideranças tão heterogêneas e voltados exclusivamente para ocupação de espaços, contribuem para ampliar a percepção do fisiologismo e loteamento arbitrário da máquina pública. Não podemos esquecer que os maiores escândalos de corrupção tinham como sustentáculo as nomeações da coalizão de governo.

Se pegarmos o caso do Ceará, conseguiremos perceber os meandros da promiscuidade eleitoral. O governador Camilo Santana e o grupo dos Ferreira Gomes haviam rompido com Eunício Oliveira, Domingos Filho, Genecias Noronha e Gorete Pereira. A separação não foi amistosa, com acusações e xingamentos recíprocos. Com as eleições de 2018 se aproximando, as mágoas foram guardadas e um sentido de sobrevivência política ganhou corpo. Certamente, alguém poderá argumentar que a política é dinâmica e que as considerações práticas se sobrepõem às disputas ideológicas (realpolitik). As configurações históricas da política comprovam essa visão, porém, as consequências são trágicas.

Para além dos pactos políticos, a promiscuidade eleitoral confunde o eleitor, dificultando o processo de formação da opinião. Reforça a ideia de que todos os políticos são iguais – sentimento muito difundido entre os que pregam a antipolítica. Mesmo que a megacoligação alcance a vitória, suas lideranças terão grandes dificuldades para atender o apetite voraz de um número cada vez maior de aliados. A tensão será permanente. Em muitas situações, significa travar processos de mudança. Por fim, a ausência de oposição, longe de significar um bom governo, representa o enfraquecimento dos controles democráticos e vias abertas para gestores autoritários.

Cleyton Monte

Cleyton Monte

Doutor em Sociologia, pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (LEPEM), membro do Conselho de Leitores do O POVO e professor universitário.

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