PROJETO PARA A COLETIVIDADE

Uma das virtudes de eleições em dois turnos é o de permitir que os partidos políticos com seus candidatos possam apresentar para a sociedade civil suas ideias e caminhos para concretizá-las, a partir de suas visões de mundo e história de luta.

O primeiro turno torna-se assim o tempo-espaço do diálogo franco e aberto, tornando a eleição ainda mais competitiva pelo fato de cada partido político querer apresentar-se à coletividade como possuidor do melhor e mais viável projeto.

Com o advento das mídias sociais, o grau de competitividade aumentou consideravelmente, exigindo das organizações partidárias uma ampla capacidade de comunicação de suas ideias e como também de maior percepção das demandas públicas.

Já no segundo turno de uma eleição, irão disputá-la as duas agremiações mais votadas no turno anterior, sem nenhuma delas haver alcançado mais de 50% dos votos válidos. É o momento em que os eleitores irão acompanhar ainda mais de perto a competição, cabendo aos partidos perdedores aproximarem-se com seu apoio daquele partido com o qual mais se identificam na segunda fase eleitoral. Sendo assim, o primeiro turno implica o exercício de civilidade e cordialidade na disputa entre os adversários capaz de lhes garantir a necessária aproximação no turno seguinte.

Ontem, 21/06, numa entrevista concedida ao programa Direto da Redação, da Revista Carta Capital, o governador do Maranhão, Flávio Dino (PSB-MA), alertou para esta questão. Dino destacou que posicionamentos beligerantes e irascíveis, como o de Ciro Gomes (PDT-CE), dificultam a composição de palanques no primeiro turno para a disputa de governos estaduais e senado federal, como também em relação às composições do segundo turno. Para o governador maranhense, é importante criar o clima para manter as portas abertas, mediante uma sinalização clara de civismo e de grandeza na disputa política.

Importante destacar que com a chegada do Partido dos Trabalhadores (PT) à Presidência da República do Brasil (2003-2016) ocorreu uma mudança paradigmática na condução da política nacional: 1) devido à novidade da compreensão e da prática da dimensão democrática participativa, prevista na Constituição Federal, na definição de políticas públicas, como aconteceu, por exemplo, com os orçamentos participativos, os conselhos e conferências temáticas nos níveis municipal, estadual e federal; 2) pela definição de programas voltados para ações afirmativas de distribuição de renda e garantia de direitos, no sentido de corrigir injustiças históricas contra enormes parcelas da população cometidas pelo Estado brasileiro desde a sua fundação; 3) pela ampla aceitação da diversidade cultural, visando à igualdade e liberdade de atuação dos sujeitos em suas subjetividades. Naqueles 13 anos dos governos petistas, o Brasil se tornou um exemplo mundial de inclusão social e de democracia participativa.

Agora, o necessário debate que se estabelece no Ceará, a partir da movimentação de alguns de seus importantes quadros, é o da apresentação do seu projeto político, pelo Partido dos Trabalhadores, mediante candidatura própria ao governo cearense. Diante do exposto acima, é inconcebível que um partido com a trajetória de lutas e de realizações do PT venha a omitir-se desse imperativo histórico. Trata-se de uma obrigação política apresentar para a sociedade o seu projeto para os próximos quatro anos.

A sociedade cearense tem plena consciência de que Lula (PT) e Ciro (PDT) representam projetos diferentes. Não há como querer esconder esse fato dos eleitores. Como também será impossível querer explicar, sendo Lula candidato à presidência do Brasil, o PT cearense vir a compor o palanque daqueles que irão pedir votos para Ciro. Essa incoerência custará caro para o Partido dos Trabalhadores. Pesquisas recentes mostram que Lula vence com o dobro dos votos do segundo concorrente, já no primeiro turno. Serão desconhecedores desses dados os petistas cearenses?

Apresentar a candidatura própria no primeiro turno não é somente legal e legítimo, é uma obrigação histórica. O momento exige que além de banir o bolsonarismo civil e militar do poder, o Brasil precisa retomar os rumos da democracia participativa e inclusiva golpeada em 2016.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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