Privatização: uma transação que se refina até o absurdo

1. Veja o mundo em grandes números: o PIB do planeta gira pelos cem trilhões de dólares anuais, China e EUA juntos perto da metade. As dívidas globais podem chegar a trezentos trilhões de dólares (governos, empresas e famílias) e os mercados especulativos se situam na grandeza de seiscentos trilhões. Vê-se que a especulação é muito maior que a produção. Em outras palavras, muito dinheiro sobrando, parado e buscando acumular mais. É a grana dos bilionários e dos grandes investidores (bancos, seguradoras, fundos de pensão, os principais).

2. Os bilionários renegam a filosofia capitalista ingênua e criam aversão ao risco, assim fogem de investir em produção. A vaidade e a ganância, entretanto, não lhes deixa dormir em paz. Repousam suas fortunas nas aplicações improdutivas. Enquanto Isso, imaginam e conspiram alguma “tacada” bilionária.

3. O que eles querem é basicamente um negócio de importância estratégica (produtos ou serviços cuja demanda a longo prazo é garantida), de gigantesco número de clientes (ou consumo geral obrigatório), em setores de pouca concorrência e que já tenham feito os investimentos pesados, já venceram a fase de riscos.

4. No século passado, anos 1980, essas oportunidades estavam, por exemplo, na siderurgia, na indústria de papel e celulose, alimentos e outros. Havia um certo número de médias e grandes empresas privadas competindo entre si. Mas, no nível mais profundo da consciência de cada empresário, seu sonho é o fim da concorrência. O que foi feito? Uma “consolidação”. Os bilionários se juntaram com os fundos trilionários e foram comprando o controle desses médios e grandes. Quem não queria vender, podia ser sutilmente sufocado. Assim, os bons negócios de produção foram “consolidados”. Adeus, risco. Adeus, concorrência. Tchau, capitalismo ingênuo.

5. Quando essas oportunidades privadas acabaram, os olhares bilionários e trilionários pousaram nas empresas estatais. São estratégicas, têm demanda ampla assegurada, sem risco, sem concorrência, investimento pesado já feito. Sem falar nas possibilidades reais de cortes de pessoal e custos e ganhos de eficiência.

6. Aí nasce o discurso da privatização. Como não há grandes vantagens na privatização, o caminho era demonizar as estatais. A imprensa, artilheira dos grandes interesses, fixaria a imagem das estatais: ineficientes, corruptas, mal geridas e cheias de preguiçosos bem pagos, uns marajás, uns gatos gordos.

7. Enquanto isso, a palavra “empresário” seria cuidadosamente trabalhada para representar a parte boa e saudável de uma sociedade em declínio, doente, a começar pelos governos, todos eles, os políticos, todos eles…A iniciativa privada seria valorizada, no mínimo por tabela, pelo escracho de tudo que fosse estatal. A desinformação, a descontextualização, a estigmatização, a escandalização e outros métodos da comunicação seriam usados se e quando necessário ou conveniente.

8. Nos anos 1990 um grande número de estatais no Brasil e mundo afora foram privatizadas. O debate era pouco ou nenhum. A privatização era uma espécie de vaca sagrada. E resolveria todos os problemas.

9. Imaginem um governante provinciano recebendo a visita ‘discreta’ de um bilionário e um fundo trilionário, acompanhados de uma dessas instituições multilaterais prestigiosas, tipo banco mundial, fmi, bid. O governante se derrete todo. Privatizar é a onda, é a moda, é o que há de moderno. São tantas as possibilidades, as promessas, as vantagens…

10. A adesão das pessoas aos interesses dos poderosos do dinheiro é rápida e plena. As pessoas médias identificam-se quase automaticamente com os de cima e com os interesses deles. Da mesma maneira que naturalmente procuram manter distância dos que ficam na base da pirâmide, os sem dinheiro, os sem poder. Uma distância, digamos, sanitária, quase de nojo, às vezes.

11. Uma privatização traz negócios concretos para consultorias jurídicas, auditorias, relações públicas, assessorias econômico-financeiras, parlamentares e outras pessoas e empresas do mundo privado. Assim como uma privatização também sugere a servidores públicos bem situados possibilidades variadíssimas. Nem sempre com uso do dinheiro, às vezes basta oferecer atenção e, digamos, proximidade. O poder financeiro tem enorme força de atração. Cada uma dessas pessoas ou empresas agora interessadas na privatização viram entusiasmados soldados de uma causa. E se imaginam recebendo benefícios tanto imediatamente quanto no futuro.

12. Os bilionários e seus consultores conseguiram assim fazer privatizações aos milhares em todo o mundo. E no Brasil também, sobretudo entre 1994 e 2002. Compraram a preço camarada grandes, rentáveis e sólidas empresas. A “modelagem” organiza e define tudo na transação, quem é quem, como, a que preço e quem deve comprar. E haja criatividade e esperteza nas modelagens.

13. O preço que alguém paga por uma estatal é a questão central. Algumas consultorias são craques em justificar preço baixo e tudo fazer para o negócio cair nas mãos certas.

14. Mais recentemente, essa turma refinou o processo e levou a esperteza ao máximo do impensável. Agora o “desafio” é comprar a empresa e assumir seu controle sem nada pagar, entregando apenas promessa de investimento futuro.

15. A Eletrobrás, uma das maiores e melhores empresas da América Latina, com valor em bolsa em torno de trezentos bilhões de reais, ativos de valor ainda mais altos, na qual o país investiu por quase setenta anos, passou para o controle privado com esta modelagem: compre o controle sem pagar. É estranho, mesmo, difícil de acreditar. Mas aconteceu.

16. Nos países desenvolvidos, a privatização enganou governo e população por duas ou três décadas. Essas operações foram avaliadas e consideradas um erro. E reestatizações estão acontecendo às centenas. Na Inglaterra, na França, na Alemanha… No caso mais recente da França, a equivalente deles da Eletrobrás foi reestatizada, a Électricité de France – EDF.

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

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Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.