Privatização: por que sim, por que não, por Osvaldo Euclides

A privatização de empresas não é necessária e obrigatoriamente um mau negócio. Em muitos casos, a transferência para a iniciativa privada é positiva e pode trazer bons efeitos no futuro. Evidentemente, que alguns cuidados são necessários. Um deles é escolher a hora de fazer a privatização. Há momentos absolutamente impróprios para certas operações de mudança ou venda do controle de um empreendimento. Se o momento escolhido for impróprio, o prejuízo é certo. Outro cuidado essencial é escolher a forma certa de fazer essa operação. Esta decisão do formato envolve muitos aspectos e recomenda-se que uma privatização séria seja preparada ao longo de uns bons anos (digamos quatro anos, pouco mais, pouco menos), sem pressa, sem pressão. Mas, o primeiro cuidado é definir de forma planejada e consciente o que privatizar, porque privatizar, para que privatizar, para quem privatizar, por quanto privatizar. Pra começo de conversa, é isso.

O Brasil já tem alguma experiência de erro e prejuízo nessa área. Os dois governos social-democratas de 1994-1998 e 1999-2002, sob comando de Fernando Henrique Cardoso, fizeram ampla e acelerada privatização. Campanhas publicitárias e editoriais vendiam a ideia de que as estatais eram elefantes brancos, cabides de emprego, sugavam os orçamentos públicos e davam apenas prejuízo. O que não era de todo mentira, mas também não era de todo verdade. Diziam os “economistas”, “analistas de mercado” e “consultores” que a privatização resolveria problemas importantes do país (alguns ousavam dizer que haveria um abatimento expressivo da dívida interna, que haveria enorme redução do déficit público e que isso ajudaria a ampliar os recursos para áreas sociais). Tudo feito às pressas e sob pressão. Basta olhar para o retrovisor e ver que tudo saiu muito barato, entrou quase nada de dinheiro, o BNDES acabou financiando os compradores e nenhum abatimento de dívida ou redução de déficit expressivo ocorreu.

Entretanto, todo mundo sabe: o “mercado” adora programas de privatização. E não é à toa que a isso o ele reage com euforia.

Aqui e ali já saem notícias falando de um pacote de nove empresas estatais a serem vendidas por cento e trinta bilhões de reais. Coincidência? Este é o valor do déficit previsto para este ano.

Sobre oportunidade: vender Petrobrás num momento como este é quase um crime (a empresa foi atacada, desvalorizada, ferida, a cotação de suas ações em bolsa foi derrubada, o preço do petróleo está muito baixo) em matéria de preço, sem falar dos aspectos estratégicos.

Sobre o que privatizar: negociar Banco do Brasil, Caixa Econômica, BNDES, por exemplo, significa tirar da média e grande empresa brasileira qualquer chance de financiamento mais razoável, pois o sistema bancário privado tem aversão a risco, não gosta de emprestar, e quando o faz, custos são altos, prazos são curtos, garantias exageradas.

Claro que não cabe grande discussão sobre a privatização da Casa da Moeda ou dos Correios, desde que as condições sejam adequadas (inclusive na proteção dos trabalhadores). Nada disso é estratégico ou especialmente relevante.

Com esta introdução, fica claro que a a afirmação atribuída ao Presidente interino de que quer “privatizar o que for possível” não é um bom indicador de que ele está bem assessorado nesta questão. Se está bem assessorado e permanece com a ideia, pode parecer que ele está mal intencionado, quero dizer, estará privatizando pelas razões erradas e da forma errada, e o prejuízo será certo.

Este assunto vai e volta, vocês vão ver.

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.