Princípios humanistas são inegociáveis

“O nacionalismo é uma espécie de seita. É uma idolatria que pode levar à loucura.”

Erich Fromm

O que diferencia um revolucionário emancipacionista e suas proposições de um comportamento conservador de direita é que colocamos o ser humano acima da lógica escravista e segregacionista do capital.
Para nós o respeito e a solidariedade ao ser humano devem se expressar na preservação da sua integridade e dignidade física e moral sob um código moral e ético consentâneo com o senso de realização do ideal de justiça.

Afinal, como disse Thomas Mann, “o humanismo nada mais é do que o amor pelos seres humanos, apenas isso”, e Karl Marx disse que “ser radical é tomar as coisas pela raiz e a raiz é o homem”. É neste sentido que somos radicais.

Por acaso o povo da República da Guiana, cuja etnia é formada por 81% de índios e afro-americanos majoritariamente pobres, merece ser atacado por uma pretensa decisão do povo venezuelano (questionável por conta de uma votação de baixo quórum e controlada por um aparelho militar ostensivo), que teria autorizado o seu governo a invadir um país vizinho por ocupação militar territorial e político-administrativa?

Seria razoável do ponto de vista humano uma guerra com suas costumeiras mortes e destruições numa tentativa de ocupação de cerca de 75% do território vizinho, cujas terras recentemente se teve conhecimento de que passaram a ser ricas em recursos minerais de alta qualidade cuja extração barata é alvo da cobiça pelo capital cujos correspondentes usos são poluidores da atmosfera e hoje são questionados por aqueles que ali em Essequibo os exploram, mas que discutem hipocritamente sua substituição e a inclusão da energia limpa na COP28 em Dubai, Emirados Árabes?
Por acaso ao invés de atacar esse país guianense e seu povo, com o fito de explorar petróleo, gás e ouro, reeditando o que faz a Exxonmobil estadunidense e empresas chinesas que ali estão instaladas buscando lucros sem pejo de promover o aquecimento do Planeta, não deveria um governo que se diz de esquerda, ter uma postura de preservação da dignidade humana de todos (dos seus nacionais e vizinhos), suas integridades físicas e morais e propor a solidariedade entre os povos contribuindo para o seus engrandecimentos físicos e intelectuais num contexto de produção de bens e serviços ecologicamente sustentáveis e sem a intermediação negativa e escravista do capital e sua repugnante e limitativa regra da viabilidade econômica para cada ato social, ao invés de se armar e propor a guerra?

Será que ser racional e humano é otimismo de um pensar ingênuo e impraticável?
Infelizmente, deste os tempos da pós-revolução bolchevique de 1917, questionar desvios comportamentais da esquerda, quando negadores de princípios humanistas, tem sido considerado como uma doença infantil que disfarçaria um espírito burguês pouco consistente perante a contrarrevolução burguesa (que sempre existe). Stalin, Putin, Mao Tse Tung, Deng Xiao Ping, Hugo Chavez, Daniel Ortega e tantos outros que o digam.

O imediatismo de interesses governamentais verticais do estado dito proletário, que tudo desculpa em nome da preservação de uma revolução que nada revoluciona, ao invés de aglutinar um sentimento de resistência à lógica do capital, e em nome de uma governabilidade ameaçada pelas forças do capital, tem sido considerada como a desculpa para a preservação das categorias capitalistas fundantes.

Em todos os países que fizeram a chamada revolução proletária estiveram sempre presentes as categorias capitalistas que dão sustentação ao modo de relação social negativo do capital, quais sejam: valor abstrato e sua representação numérica pela mercadoria dinheiro, a única sem valor de uso; trabalho abstrato; mercadorias sensíveis e serviços; mercado; acumulação de capital e sistema bancário; direito de propriedade; estado e suas instituições elitistas, partido político e político.
A preservação de tais categorias nos países do chamado “socialismo real” são de tal forma predominantes em relação à vontade política, que viciam o mecanismo político governamental, submetendo-o e o distanciando dos princípios humanistas em nome dos quais foram feitas as revoluções pretensamente anticapitalistas. Uma contradição no objeto, como diria Karl Marx a estes “marxistas”.

A lógica do capital é uma abstração numérica de produção e reprodução necessariamente aumentada de valor que tende ao infinito, mas que esbarra na finitude da capacidade de consumo predeterminada por vários fatores, e que transforma os objetos e atividades de serviços necessários à vida social em mercadorias que nada mais são do que meros instrumentos utilitários de sua existência negativa e segregacionista, ou seja, a produção e o consumo de mercadorias num processo social desequilibrado se constitui como uma equação matemática sem solução.

É por isso que se destrói alimentos excedentes de produção que possam afetar o mercado, mesmo que haja fome entre a população incapaz de aquisição da mercadoria alimento, o que bem demonstra o que dizemos.

A sua irresolubilidade decorre do limite da capacidade consumo humano natural ou forçada pela perda do poder de compra de mercadorias (ainda que estas estejam sempre reduzindo seu valor e preço) o que resulta, inevitavelmente da autodestruição da própria forma de relação social, mas não sem antes nos levar à destruição da própria vida humana pelas muitas formas nas quais isto pode ser tornar possível, como pela guerra, aquecimento global, poluição do solo, subsolo, rios, lagoas e oceano.

A obediência de governantes totalitários à lógica do capital, sejam eles capitalistas estatistas e privatistas, é o que está na base de comportamentos quais sejam:
– invasão genocida da faixa de Gaza pelo governo desgastado de Israel apoiado pelos Estados Unidos;
– apoio logístico e financeiro dos Estados Unidos aos golpes militares na América do Sul;
– tentativa de anexação da Ucrânia pela Rússia imperialista e seus magnatas donos das antigas empresas estatais;
– as permanentes tentativas chinesas de anexação de Taiwan;
– tentativa de anexação da República da Guiana pelo governo totalitário bolivariano da Venezuela (Simon Bolívar deve estremecer do túmulo ao ouvir o uso do seu nome para procedimentos antilbertários);
– exploração de petróleo pela Exxonmobil na República Goiana e correspondente aviso estadunidense sob um conflito bélico com recentíssima movimentação de tropas e equipamentos militares no interior da República da Guiana.

A tensão na região do Essequibo da República da Guiana pode ter dimensões maiores do que originalmente se supunha.
Não apenas Estados Unidos e Reino Unido de um lado, mas a Venezuela e a Rússia, que tem sido uma aliada dos governos venezuelanos desde Hugo Chavez e que para ele vendeu aviões de caças que estão nas mãos do que corrupto exército bolivariano, estão à espreita dos próximos movimentos de peças, mas também a China, que têm interesses econômicos já instalados na região.

Para se ter uma ideia da ligação do governo da República da Guiana com a China, por lá circula um jornal de notícias internacionais que somente fala das virtudes e crescimento econômico chinês. Como se vê, a riqueza mineral do Essequibo despertou o interesse do capital internacional como abutres que farejam uma carcaça a ser devorada.

Neste sentido, pergunta-se: esse teatro de prenúncio de guerra por riquezas materiais aptas a se transformarem em riquezas abstratas poluidoras, é alguma coisa compatível com o sentimento anticapitalista (em fim de feira) de solidariedade humanista, preservacionista da ecologia sustentável e emancipacionista que devemos defender?

A esquerda verdadeiramente anticapitalista somente consolidará uma reputação humanista capaz de lhe conferir credibilidade, mesmo que no longo prazo, a partir da tomada de posições contra as causas da barbárie em curso e em defesa da vida humana nos mais diferentes momentos de sua existência e se posicionando corretamente diante dos aspectos cotidianos da atual realidade social caótica.

Três itens programáticos.

01. São causas primárias a serem negadas:
– a relação social sob a forma valor;
– a mercadoria (dinheiro e valor de troca);
– o estado, governantes, seus impostos, suas instituições, partidos e segmento político;
– a democracia burguesa e seus instrumentos de manipulação da vontade popular;
– o totalitarismo eletivo ou militar;
– o mercado;
– o sistema financeiro;

02. São decorrências sociais das causas acima elencadas a serem denunciadas:
– o aumento da fome no mundo;
– a barbárie da violência urbana coletiva e rural na qual um celular ou uma vaca vale mais do que uma vida;
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– as guerras quaisquer que sejam as suas motivações confessadas ou inconfessáveis;
– a predação ecológica em seus vários níveis.
– a desassistência médico-hospitalar da população;
– a falta de habitação digna;
– o desamparo à velhice e à invalidez;
– a deficiente ou inexistente educação escolar e seu conteúdo que positiva aas categorias capitalistas (principalmente trabalho e dinheiro);
– o deficiente abastecimento de energia e água (caros e de pouco acesso);
– a decomposição da arte e dos esportes como mercadorias;
– a dissociação de gênero;
– todas as formas de segregação social e crimes contra a pessoa;
– a xenofobia, o racismo e supremacismo racial, a homofobia e a misoginia;
– a desesperança.

03. São proposições básicas que formatam uma relação social capaz de dar início ao combate às causas e consequências nefastas do capitalismo:
– produzir bens de consumo e serviços sem o entrave da viabilização econômica, mas apenas para satisfazer necessidades de consumo, ou seja, produzir coletivamente para consumir coletivamente e sem ônus sob a forma valor (dinheiro e mercadorias);
– organizar a sociedade sob um critério jurídico-constitucional de base comunitária que incorpore os conceitos humanitários de apropriação da riqueza material sob cânones civis, penais e administrativos que reflitam o direito como realização da justiça social e individual.

Qualquer que seja a luta contra a negação dos princípios humanistas, aí estará evidenciada a postura emancipatória da humanidade de uma esquerda digna desse nome.

Dalton Rosado.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;