PREFIRO FALAR SOBRE CULTURA

 

    As notícias sobre o Covid-19 invadiram as páginas sobre política, sociedade, arte e cultura de todos os meios de comunicação em formato escrito. A rede mundial de computadores não possui outro assunto porque outro tema não merece espaço à discussão. Da mesma forma ocorre com canais de TV. Enfim, todos os meios de comunicação foram infectados pelo Covid-19. As redes sociais, do Twitter ao Instagram estão infectadas por notícias ou imagens que nos remetem ao momento em que vivemos a pandemia imposta pelo Covid-19. Entretanto, se faz necessário falar sobre cultura. Afinal, de uma hora para a outra fomos retirados da sala de aula, do ambiente de trabalho, da rua, do caminhar, da academia para o ambiente da casa no universo de um isolamento social. Eis, aqui, um problema maior que o Covid-19, embora não tão letal quanto o mesmo.

    Em uma sociedade onde a convivência social era tratada na forma de isolamento social a partir de novas regras sociais estabelecidas ao longo das últimas décadas não é fácil aceitar o novo traço cultural imposto. De repente o óbvio acontece. Pais e filhos são obrigados a conviver sob o mesmo teto, no mesmo universo social denominado de casa onde os pais vieram a (re)conhecer seus filhos e estes foram apresentados a seus pais. A ruptura se fez presente ante a distância existente entre pais e filhos. De quem é o controle remoto? Quem irá conversar sobre qual assunto? Sabem, ainda, os pais educar seus filhos? Com as aulas suspensas a partir da quarentena e muitos pais trabalhando de forma remota como conviver neste novo universo cultural denominado de casa?

    São tantas as perguntas que o Covid-19 impõe à sociedade contemporânea (além de sua própria origem) que retornamos a discussões necessárias, e das quais estávamos a fugir. A imposição de um novo comportamento social e cultural a toda uma geração expôs a fratura, o distanciamento, existente entre os pais distantes da educação de seus filhos e destes carentes da presença dos pais. Se ao final de todo este momento conseguirmos desenhar um novo traço social teremos superado mais que um vírus. Teremos estabelecido um novo contrato social onde a empatia e o respeito pelo Outro serão os elementos fundantes desta sociedade a sair do Covid-19.

    Quando afirmamos preferir falar sobre cultura no título deste estávamos a fazer referência aos novos padrões culturais que irão ser erguidos passada a pandemia. Traços culturais a perpassarem de uma nova escola a um novo olhar sobre a religião. Com aulas não presenciais ocorrendo pelo país o papel do professor enquanto mediador, e não detentor, do conhecimento confirma o que sempre defendemos. Por outro lado, as missas e cultos transmitidos pela internet e televisão colocam em xeque a estrutura arquitetônica gigantesca de igrejas e templos. São necessárias? Afinal, a verdadeira igreja reside no interior de cada ser humano e não na estrutura arquitetônica. 

    Como estarão as relações sociais após este momento de pandemia? Não sabemos, e não temos, resposta para a pergunta que fizemos. Sabemos, apenas, que uma nova sociedade estará erguida e será diferente, muito diferente, da presente sociedade com fundamento no individualismo, no pensar em si, no título acadêmico para uma sociedade onde o pensar no Outro venha a ser a base, a empatia a leitura presente e o título acadêmico venha a ser, apenas, um título. Hoje, a titulação acadêmica constrói um abismo sócio-econômico-cultural no campo do conhecimento entre os ditos detentores do conhecimento e os defensores do conhecimento mediado pelo professor. 

    A crise imposta à sociedade não é uma disputa por modelos teóricos, embora enquanto resultado desta crise irá surgir um novo modelo teórico a explicar a sociedade nova ou a nova sociedade. Caso ao término desta crise a nova sociedade venha a ser explicada por um modelo teórico, mesmo que novo, teremos perdido a batalha para o homem em sua desumanidade mesmo que possamos ter vencido o Covid-19. As relações sociais não precisam de modelos teóricos para explicar a sua existência, elas são explicáveis por si enquanto relações sociais. 

    Aproveitemos o atual momento de crise para saber que empatia não é trocar de lugar (fisicamente falando) com o Outro. Empatia é colocar-se no lugar do Outro sem leitura de seu pensamento, mas procurando entender seu comportamento, suas reações. Que impere (no futuro) o respeito pelo Outro enquanto caminho ao estabelecimento de uma nova sociedade. Isto não é, portanto, um novo modelo teórico. Isto vem a ser o básico ao estabelecimento de relações sociais que se encontram esgarçadas ao longo do tempo e do espaço. 

    O Covid-19 não veio trazer apenas uma pandemia. Longe disso. Estabeleceu novas regras de convivência social onde o aprender a conviver socialmente passou a ser a única regra. Sim, precisamos aprender a conviver socialmente porque havíamos desaprendido tal situação. Cabe aos pais perceber que a educação de seus filhos também é dever deles e, é sim, uma relação social. Cabe aos filhos perceber naquelas pessoas com um pouco mais de maturidade, seus pais, um novo mestre que ali (nem) sempre esteve presente. A divisão das tarefas educacionais enviadas de forma remota pelas escolas com potencial para tal (é necessário lembrar que nem todas as escolas do país possuem tecnologia e alunos com condições sócio-econômicas à recepção de aulas remotas) passa a ser o óbvio entre pais e filhos. Aos pais, estes não mais serão (pelo menos durante a quarentena) chamados à escola para discutir o comportamento de seus filhos. Terão, eles pais, de entender que sua geração é diversa da geração de seus filhos. A (con) vivência é, portanto, imperiosa.

    Este conjunto de mudanças culturais trazidas pelo Covid-19 não é encontrado em nenhum livro de história ou biologia, muito menos em algum manual de “como lidar com seus filhos”. São mudanças a ocorrer enquanto pensávamos que tudo estava pronto e acabado. Nunca a frase “pensar fora da caixinha” teve tanta valia. Ocorre ser a frase necessária a toda uma sociedade e não a um seguimento apenas. De toda forma uma lição podemos, de forma antecipada ao término da crise, ter como concreta: a vida do outro depende de nossas ações e atitudes, assim como a nossa vida depende das ações e atitudes do Outro. 

Medeiros Júnior

José Flôr de Medeiros Júnior é Mestre em Direito Econômico - PPGD/Unipê e em Ciências Jurídicas - PPGCJ/UFPB, Pós-Graduado em História (UEPB), graduado em Direito - Unifacisa – PB e em História - UEPB. Professor de Direito e Consultor em Educação. Autor de livros, capítulos de livros e artigos sobre meio ambiente, cidadania e o tempo enquanto discussão filosófica. Apaixonado pela literatura com especial olhar aos escritos de Dostoiévski, Camus, Kafka, Borges, Saramago, James Joyce, Mário Vargas Llosa, George Orwell, Umberto Eco. Leitor de Nietzsche, Foucault e Certeau, mas prefere conversar com Walter Benjamin.

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