Precisamos falar do Ceará

Depois de perder uma eleição, Virgílio Távora teve sua vitória na disputa para governar o estado, com base numa plataforma que tinha por lema a união pelo Ceará, coordenada pelo político adversário que o derrotou quatro anos antes. Começava naquele momento o período dos três coronéis, coincidindo com a ditadura comandada por generais no país. Durou de 1963 a 1983.

Introduziu-se o planejamento formal e a racionalidade administrativa avançou. O coronel governador aponta para o futuro e suas ideias prevaleceriam por cinquenta anos e mais. O Ceará precisava de uma refinaria e de uma siderúrgica, isso abriria o caminho para a prosperidade dos cearenses, através da industrialização que se seguiria, como um desdobramento natural.

O discurso oficial sempre foi e é de que o estado é pobre e o momento é de crise. Esses grandes projetos ficaram na história como uma espécie de linha do horizonte. Ela esteve sempre à vista. Nunca chega, quando alguém pensa que se aproxima, ela se afasta. Muitas linhas do horizonte apareceram antes de chegar a prosperidade dos cearenses. A floresta de cajueiros, a indústria do turismo, a pesca, a indústria têxtil e de calçados, a construção civil, a ZPE…

Depois de uma transição de quatro anos, 1983-1986, um moderno empresário enfrenta os três coronéis e os derrota. Era a hora das mudanças, os coronéis eram as forças do atraso. O discurso arrebatou os eleitores. Mudança em todo o Brasil – o momento de ouro do Plano Cruzado, de José Sarney, um partido venceu as eleições para os governos no Brasil inteiro, uma única exceção em Sergipe.  No Ceará, o foco da mudança (ou discurso de campanha) era o combate à miséria. Inegável que o Ceará tem governantes capazes e modernos, mas algo sufoca legítimas esperanças e diminui resultados.

Aos pés de todos permaneceram a crise a a pobreza. A linha do horizonte da prosperidade continuou a mesma. Refinaria, siderúrgica, ZPE. Muitas coisas andaram, como o turismo, a construção civil. O peso do Ceará no PIB brasileiro e a desigualdade mal oscilaram. Entrou a ideia de um porto grande e novo. E encaixava na visão anterior, pois ele abrigaria a refinaria, a siderúrgica e a ZPE. E haveria prosperidade. Investimentos pesados foram feitos, uma aposta no futuro.

Nestas seis décadas a siderúrgica, o porto e a ZPE aconteceram. Sua força transformadora, entretanto, estava, por mil razões, reduzida. Seu efeito multiplicador de riquezas só será perceptível se muito bem focado. O ponteiro da participação do Ceará no PIB deveria dobrar, não dobrou. A prosperidade deveria chegar aos cearenses, não chegou, a miséria deveria ter desaparecido, não desapareceu. Sessenta anos não foram o bastante.

Lê-se nos jornais a informação de que a metade da população apenas sobrevive graças a fundos federais de assistência social.

Lê-se também nos jornais que o Ceará é proporcionalmente o estado com maior número de bilionários.

Na internet alguém pergunta  para que serve um bilionário.

(Estão todos convidados para uma roda de conversa no Segunda Opinião).

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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