Precisamos falar do Ceará… Parte 9

Meu pai, o jornalista Olavo Araújo, escreveu, nos anos 1970, no jornal O Povo, 22 artigos com o título A Saga do Algodão. Procurei tais textos com apoio do departamento de pesquisa do jornal, e não os achamos. Devo, pois, desconfiar da memória quanto a números. O fato é que no maior e mais importante jornal do Ceará ninguém escreveria tantos textos seguidos se o tema não fosse de interesse público, se a tal comodittie não tivesse uma relevante dimensão econômico-financeira para o Ceará. Nem um jornalista, por mais experiente e habilidoso que pudesse ser, encontraria tanta substância se tentasse “encher linguiça“, driblando editores e diretores da empresa jornalística. O algodão era o ouro branco.

Um dos picos da produção cearense de algodão em pluma foi na primeira metade dos anos 1970, quando (de memória cito) a produção teria alcançado trezentos e sessenta mil toneladas e boa parte dela exportada (a preço de hoje um valor estimado em setecentos milhões de dólares, ou quase quatro bilhões de reais, mais de dois por cento do PIB do Ceará de hoje). O que isso (exportar, recebendo em dólares) significava para o produtor cearense, então, era o seguinte. Primeiro, preço de venda pela cotação do mercado internacional, sempre francamente favorável quando comparado aos preços para venda no mercado interno (moeda fraca, custo de frete, inflação…). Segundo, pagamento líquido e certo de cem por cento do valor através das cartas de crédito interbancárias internacionais, mediante a simples entrega do conhecimento de embarque (prova escrita de mercadoria a bordo) no navio, no porto – com possibilidade de antecipar até oitenta por cento desse valor via contrato de câmbio, com custo de juro próximo a zero. Vender para paulistas tinha, pois, preço menor e risco.

O algodão cearense era de boa qualidade e de fibra longa, conhecido no mercado internacional já por quase um século, dono de uma certa tradição. Dizem alguns historiadores que a guerra civil 1861-1865 tirou os americanos do mercado internacional de algodão (a guerra devastou a produção) e abriu oportunidade ao Nordeste, que soube aproveitá-la e preservá-la por longo tempo. No Ceará dos anos 1970, nos quatro cantos do sertão cearense se produzia algodão. E de preferência exportava-se. Isso movimentava uma máquina de produtores (dezenas deles, com escritório e estruturas administrativas em Iguatu, no Crato, em Acopiara, em Quixadá, Brejo Santo, Senador Pompeu…) que geravam empregos para catadores e outros tratos da mercadoria, serviços de transporte e armazenamento, clientes para corretores, representantes comerciais, despachantes aduaneiros..

Em havendo planejamento e uma estratégia de desenvolvimento para o Ceará, o passo seguinte seria industrializar o algodão, tecnologia basicamente desenvolvida desde o século XIX, sem segredos. Viriam os fios,os tecidos, as roupas, quem sabe até a moda. E esses passos iniciais aconteceram, só que de forma pontual, sem a devida estruturação, sem o devido suporte, sem pesquisa, sem suporte financeiro adequado. O Ceará teve indústria de fios, tecidos e roupa, e atreveu-se a divulgar algumas marcas e estilos. Até revista especializada teve, com circulação dirigida.

Uma pena, o Ceará perdeu quase tudo. Até o ouro branco que a natureza dava.

Vieram os golpes mortais. Um deles foi um ato do então poderoso ministro da Fazenda Antonio Delfim Netto, que proibiu as exportações nordestinas em momentos decisivos. Dizia o ministro que agia para proteger a indústria nacional – sim, ele protegia o interesse do industrial paulista e prejudicava o produtor nordestino, que, assim, era obrigado a se submeter ao preço imposto por São Paulo e ainda ter de vender a prazo, com risco de inadimplência. O Ceará sofreu, o produtor percebeu o risco e plantou menos, investiu menos – o ministro foi eleito no ano seguinte o Homem Têxtil do ano em São Paulo. Não perguntem o que fizeram as lideranças políticas regionais.

Outro golpe mortal foi o bicudo, um bichinho que atacou as plantações cearenses, década de oitenta. E o bichinho não encontrou quem o enfrentasse, ainda que fosse para com ele dialogar e aprender a com ele conviver. As lideranças políticas dessa época eram modernas demais para tratar a questão do jeito certo, diziam que o algodão era o passado. Hoje dominam a produção de algodão Bahia e Mato Grosso.

Ora, o algodão era uma comodittie como qualquer outra, nem é moderna, nem atrasada. Era uma vocação da terra e do homem, testada e aprovada por mais de um século, adaptada e resistente. Uma porta para o desenvolvimento, uma estrada para a interiorização desse desenvolvimento.

O ouro branco virou apenas mais uma história de frustração, outro erro a ser reconhecido.

Será que ficou pelo menos a lição? Sempre se pode aprender com erros, havendo humildade.

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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