Precisamos falar do Ceará… Parte 8

No livro “Made in Japan“, de autoria do empresárrio Akio Morita, principal executivo e sócio da grande companhia Sony Corporation, há um capítulo especial dedicado aos primeiros momentos depois de encerrada a Segunda Guerra Mundial. Cabe lembrar que o Japão saiu da guerra humilhado e literalmente destruído – sofrendo até o impacto mortífero de duas bombas atômicas. Este livro é dos anos 1980 e Akio Morita e Sony Corporation representavam, então, mais ou menos o que Steve Jobs e Apple representaram recentemente.

Diz o livro que, vencedores da guerra, os militares norte-americanos ocuparam o Japão. E deram partida à recuperação do país. A submissão era tão absoluta que o exército americano redigiu a nova constituição do país. Em inglês, claro, e os japoneses a aceitaram e a traduziram. Diz ainda o livro que a primeira e decisiva medida de reestruturação do país foi a imediata realização de uma reforma agrária. Explica o autor que o diagnóstico era de que a concentração da propriedade da terra era tamanha, que o desenvolvimento do país seria impossível sem a mudança. Assim, toda grande propriedade foi dividida e repartida. E os japoneses compreenderam a dimensão do gesto e passaram a acreditar, e a produzir na terra, em vez de especular com a terra.

Também na indústria os estrangeiros tiveram papel decisivo. Os produtos japoneses tinham, na época, a fama de ruins, fracos, imitações, bugingangas. Dois engenheiros americanos introduziram uma nova cultura de gestão de qualidade (o empresariado aderiu) do produto e deram ao trabalho e à qualidade dos empregos (o emprego devia ser estável, permanente, uma escolha para a vida inteira) a obrigação maior da empresa. Vinte anos depois, os produtos (inclusive eletrônicos e automóveis) japoneses dominaram o mundo. Nos anos 1970 aconteceu o que a imprensa chamou de “milagre japonês“.

Claro, não havia nenhum milagre. Houve escolhas políticas e ações econômicas com compromissos e objetivos de longo prazo.

Essas lembranças são trazidas pela leitura do livro “Evolução do Emprego Rural no Estado do Ceará“, de autoria da economista Desirée Mota, lançado em 1994 e depois reeditado em 2010, em virtude de ter sido reconhecido com o Prêmio Otacílio de Azevedo, na categoria de Autor Cearense. A origem do livro é o trabalho de pesquisa para a obtenção do título de Mestre em Economia Rural, e o estudo, entre inúmeras contribuições, trata da concentração da propriedade da terra no estado e sua conexão com a pobreza, com a desigualdade e com o emprego.

O trabalho científico da economista Desirée Mota analisa dados do que acontece com essas questões no período entre 1970 e 1985, a partir dos números pesquisados no início e no fim do período.

“Em 1970, quarenta e nove por cento dos estabelecimentos tinham menos de dez hectares e ocupavam cerca de 3,9 por cento da área (total do estado)… meio por cento dos estabelecimentos tinham mais de mil hectares e ocupavam 24,3 por cento da área…

“Em 1985, os estabelecimentos com menos de dez hectares, que representavam sessenta e três por cento do número total de estabelecimentos, detinham apenas 6,2 por cento da área…enquanto três décimos por cento (0,3%) dos estabelecimentos eram de mais de mil hectares e ocupavam 20 por cento da área total…“

Comenta a a autora.

“…Esses pequenos estabelecimentos não apresentam capacidade produtiva para o sustento de uma família, em condições mínimas de qualidade de vida, especialmente se levarmos em conta os condicionantes do clima semiárido…O padrão de vida é realmente muito baixo, aprisionando esse contingente demográfico à pobreza absoluta crônica, jogando à fome e ao desespero, sobretudo nos anos de seca…“

“De outra parte, verifica-se a ocorrência de um pequeno número de grandes propriedades que agregam enormes áreas, constituindo-se latifúndios que pouco contribuem para a geração de empregos e para a formação da renda, pois são inexplorados em sua maior parte. Essas áreas são destinadas, principalmente, à pecuária extensiva de baixa produtividade, pois aos grandes proprietários interessa muito mais a posse da terra como reserva de valor e fonte de especulação, do que como fator de produção…do ponto de vista social, a pecuária é uma atividade que requer uma baixa ocupação de mão de obra ao gerar um número menor de empregos por unidade de área que as lavouras, consubstanciando, portanto, um conflito entre os determinantes naturais e os objetivos sociais do desenvolvimento. Do ponto de vista ambiental, o sistema de produção da pecuária, que prevalece no Ceará, é altamente degradante, pois é semi-intensivo“.

Não e pode falar em desenvolvimento no Ceará sem levar em conta tal informação, tal diagnóstico. Não se pode falar em combate á pobreza sem enfrentar tal tipo de questão. Ignorar e silenciar não ajuda.

Muita gente pensa que o desenvolvimento é uma tendência natural ou inexorável das sociedades humanas, que o tempo e o mercado conduzem ao crescimento econômico e que o resultado se distribui conforme o mérito, de maneira que ao final todos se sairiam bem. Outros podem acreditar (com alguma razão) que o subdesenvolvimento é a probabilidade maior, e que dele não se escapa sem algumas atitudes e ações econômicas e políticas especialmente ousadas. Se a economia é a ciência da escassez, há os que acreditam no crescimento econômico, mas duvidam da distribuição justa de seus benefícios. O fato é que há escolhas a serem feitas, e elas são feitas. Escolhas foram feitas. Quem escolheu entre o subdesenvolvimento e o desenvolvimento e tomou as ações necessárias na direção certa, colheu a longo prazo os frutos do que semeou. Sim, porque sabemos, desde Nelson Rodrigues, que “o subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos“.

No Ceará também é assim.

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

Mais do autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.