Precisamos falar do Ceará… Parte 7

Maior desafio do que o desenvolvimento é a interiorização do desenvolvimento, sobretudo em estados pobres como o Ceará, que é também desigual e injusto. Essa missão tem ainda mais particularidades. O estado não é territorialmente tão extenso, mas mesmo assim não comporta juízos generalizados para suas frações geográficas. As regiões são diferentes umas das outras, claro, umas com bem mais potencial que as demais, a começar pela característica ambiental (disponibilidade de água, conformação da terra, fertilidade do solo, riqueza do subsolo, clima), por sua história, por vocações mais enraizadas de sua gente, pela qualidade dos vizinhos e pela maior ou menor proximidade da capital — para ficar só nos mais evidentes ao senso comum. Com o passar do tempo, esses elementos que um dia poderiam ter sido óbices absolutos ao progresso, estão perdendo nos dias correntes seu poder negativo. Sim, porque mesmo na seca, a água não mais acaba. Mesmo na crise, a renda da população não zera. Mesmo na oposição, os fluxos fiscais não se interrompem. Algumas outras diferenças também foram amenizadas com os avanços de infraestrutura (energia, comunicação e transporte) e pela prestação pública de serviços de educação e saúde. 

O fato é que há seis décadas, com todos esses limites, falar em interiorizar o desenvolvimento era mais que ousado. Entretanto, isso não impediu que ainda naqueles anos 1960 uma iniciativa tenha nascido, prosperado (marcada por sucessos e fracassos) e sinalizado que, sim, é possível vencer o desafio. O Projeto Asimov. Uma universidade norte-americana faz uma aliança com uma universidade cearense e resolvem implantar indústrias no Cariri. Os primeiros fundos financeiros vieram em dólares, do exterior (um programa chamado USAID), embora esses fundos costumem remunerar apenas os próprios gringos. Foram levantadas na região as suas vocações e as matérias primas que a natureza oferecia. O espírito empreendedor local foi informado e sensibilizado. O banco de desenvolvimento regional apoiou com orientação e financiamento os pioneiros.

O nome do projeto é o do professor Morris Asimov, da UCLA – Universidade da California. A Universidade Federal do Ceará estava nas mãos de Martins Filho, seu primeiro reitor. O Banco do Nordeste era dirigido por Raul Barbosa, seu primeiro presidente, então num segundo mandato. O governador era Virgílio Távora, no seu inovador primeiro quadriênio. Dizem que Martins Filho convidou Morris Asimov para conhecer Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha, quando ele planejava levar a iniciativa para a India — e o mestre americano teria se apaixonado pelo que viu. 

Nasceram várias empresas a partir da concepção de indústrias que pudessem se suprir de materiais disponíveis localmente. Pelas habilidades e pela atitude (capazes de se transformar em ação efetiva) se acolhiam os futuros industriais. Os projetos eram rapidamente elaborados. A mão de obra era de oferta abundante, o povo sempre foi trabalhador. E os novos negócios industriais brotaram. 

Uma montadora de rádios e motores. Uma fábrica de calçados e artefatos de couro — um pouco além do artesanato. A produção de máquinas de costura. Uma indústria de farinha e polvilhos de mandioca. Uma outra, de moagem de milho. Uma ainda, para produzir em fornos de alta temperatura telhas, tijolos e manilhas. Também uma indústria de cimento, mais uma de borrachas microporosas e outras tantas…
As informações são limitadas e imprecisas. O sucesso inicial de algumas delas foi exemplar, e elas produziram e deram emprego decente na região por algum tempo. Outras trocaram de ramo, trocaram de nome ou de dono e suas histórias se perderam no caminho. A região fez sua parte ao oferecer-se ao experimento e tentar. A região aprendeu com o Projeto, ganhou com o Projeto, acendeu-se a esperança e o atiçou-se o empreendedorismo. Não é pequeno, nem passageiro o impacto econômico, social e cultural deste tipo de ação articulada. Ninguém faz referência ao valor do investimento — isso sugere que os valores nunca foram expressivos. Evidentemente não se pode cobrar o resultado da universidade estrangeira, nem reclamar dos fundos do USAID. O trio Martins Filho-Virgílio Távora-Raul Barbosa se desfez com as idas e vindas das três instituições que dirigiam (a UFC, o governo do estado e o BNB) e do jogo político que tudo determina. 

É possível contar alguns lances marcantes da histórica trajetória da Cerâmica do Cariri S.A. – CECASA, uma espécie de empresa que espelhou o espírito verdadeiro do Projeto. Foram pessoas da própria região que entraram com o dinheiro para subscrever e integralizar seu capital. Mais de uma centena de pequenos sócios, uma empresa de capital aberto se insinuava pela força comunitária lá nos confins. Mais adiante a CECASA avança tecnologicamente. A empresa descobre na região uma argila especial que permitiria dar um salto qualitativo na produção. De telhas, tijolos e manilhas, a CECASA avançou para produtos mais nobres, os pisos cerâmicos naturais. As grandes indústrias paulistas do setor reagiram imediatamente á descoberta do “taguá“ e instalaram no Crato a Cerâmica Norguaçu S.A. (da poderosa Cerâmica Mogi Guaçu), com um sócio local, para impedir o avanço da CECASA. As duas empresas cresceram, apesar de disputarem o mesmo mercado com o mesmo tipo de produto. A CECASA chegou a dar mais de seiscentos empregos diretos e vendia sua produção em onze estados, da Bahia ao Amazonas. Bem localizada (o Cariri é quase equidistante das capitais do Nordeste), o frete de um produto de peso relevante (no custo para o comprador) ajudava na competição com os maiorais do sudeste. E aí novo salto acontece. A CECASA sobe o nível do produto e passa a produzir pisos e revestimentos esmaltados, sem descontinuar a oferta de cerâmica vermelha natural. E logo em seguida escreve outra página histórica. Abre o seu capital, registra suas ações em bolsa de valores e distribui dividendos. Imediatamente depois faz uma emissão de ações (o que hoje se chama glamurosamente de IPO – initial public offer) e consegue colocar todas elas, a primeira empresa cearense a fazer isso. Mais alguns anos se passam e a CECASA faz uma bem sucedida emissão de debêntures (títulos de dívida de longo prazo, que podem ser convertidos ou não em ações) em valor relevante, expressivo, junto a investidores institucionais. O negócio de cerâmica tinha lá suas características selvagens e quando a Mogi Guaçu desistiu de destruir a CECASA, esta associou-se á Norguaçu, adquirindo controle do capital desta, assumindo sua gestão. 

Quem viveu os anos 1980 e os anos 1990 sabe o quanto foi difícil manter empresas produtivas. CECASA não chegou a ver a estabilização da economia brasileira, faliu aos trinta anos de idade mais ou menos. 
Pensar o desenvolvimento, interiorizar o desenvolvimento, articular pessoas e instituições, orientar o espírito empreendedor, descobrir potenciais e vocações reais é algo que exige muito, muito mais do que a simples ganância pelo lucro através do mercado, amparando todo o complexo processo de quebra de inércia apenas na lei da oferta e da procura. 
O Projeto Asimov merece ser estudado. Pesquisas podem mostrar que aquela semente ainda hoje produz frutos. O sucesso estimula, o fracasso ensina. Alguma região do Ceará talvez mereça e precise de um projeto desse tipo. 

(João Correia Villar, Herialdo Matos, Eudoro Santana, José Vanderley Landim, Lúcia Leitão, Venílson Araújo e Jaime Rachid Pontes compunham a diretoria e o primeiro time de profissionais da empresa-símbolo do Projeto Asimov) 

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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