Precisamos falar do Ceará… Parte 26

Nos primeiros anos da década de 1970, o jornal alternativo Pasquim, de circulação e prestígio nacional, era uma espécie de síntese da resistência contra o atraso, o conservadorismo e a ditadura. Seus 3 principais fundadores vieram a Fortaleza para uma feira de comunicação. Feira de comunicação nos anos 1970, sério? Tapete vermelho pra eles no aeroporto.

Num outro voo, mas no mesmo dia, chegaram (Mário Henrique Simonsen e Roberto Campos, a confirmar) dois dos mais brilhantes economistas brasileiros para participar de reunião do ‘conselho’ de uma empresa cearense do negócio do caju. Sim, houve, então, aqui, um “festival do caju”, também com repercussão Brasil afora.

Enquanto isso na periferia da capital realizava-se a feira dos municípios. Sim, uma integração incomum de gente e coisas simples e bonitas de ver, tocar, experimentar e conversar.

E nos estádios mais modestos o campeonato de futebol intermunicipal, com dezenas de equipes, cada uma representando uma cidade cearense. Quantas vocações e talentos revelados…

E num chique clube da orla, o Náutico, acontecia uma feira das nações, com stands de países de vários continentes com representação diplomática regional. Inesquecível.

Ainda no mesmo aeroporto chega um jovem cantor-compositor cearense que foi buscar (e alcançou) sucesso no sul-maravilha. E foi recebido já com atenções de celebridade (para surpresa dele próprio, talvez).

Nas ruas, o governador do estado (às vezes com sirenes) circulava em seu luxuoso automóvel com apurado esquema de segurança e até batedores em imensas e barulhentas motocicletas.

Flashes da cena política, econômica e cultural da gloriosa terra alencarina.

Eram os tempos de chumbo, ditadura. E ainda assim o Ceará fervia. Empreendia, criava, inovava, resistia. Era uma luta política, era uma batalha contra a mesmice, era um empreendedorismo difícil de adjetivar, era uma juventude viva, inquieta, criativa.

Um evento típico de globalização, outro de interiorização, outro de comunicação… Na linguagem de hoje, experimentos de Soft Power, diriam. Vida própria e pulsante.

Um texto breve como este não é capaz de transmitir a real dimensão e a verdadeira profundidade de eventos acontecidos há cinco décadas, nem de fazer entre eles uma segura conexão. Sobre alguns desses flashes já há boa quantidade e qualidade de informação. Livros e documentários. Outros, nem tanto; alguns, nada ou quase nada.

Sobre a feira de comunicação é possível dar algumas dicas, graças a alguns estudiosos (*).

Precisamos falar do Ceará. Leia:

“…Há 50 anos, na primeira quinzena de Setembro de 1972, acontecia em Fortaleza a “Feira Nacional da Comunicação”, uma Exposição pioneira de Artes Visuais e Publicidade , Criatividade, Cultura, Música, Artesanato, outras manifestações artísticas e novidades tecnológicas de produtos, bens e serviços.

O evento, incluído no Calendário Oficial do Ministério da Indústria e Comércio, foi sediado em toda a extensa área do antigo Clube Líbano Brasileiro (então chamado “Palácio de Mármore”), situado na Rua Tibúrcio Cavalcante, próximo à Igreja do Líbano.

Considerada à época inovadora, alcançou êxito de bilheteria, registrando-se um fluxo recorde de mais de 40.000 (quarenta mil) pagantes, que visitaram a Feira durante 4 (quadro) noites em que esteve aberta ao público.

Lá dentro muita coisa curiosa acontecia: concurso de dança “Esquisita” (um dos patrocinadores); concurso e premiação da melhor redação sobre o tema “Comunicação” (no apogeu das teorias de Marshall McLuhan: o meio é a mensagem e aldeia global); stands de inovações industriais; exposição das mais criativas peças visuais de propaganda (vídeos, jingles e artes gráficas); e até um inesperado circo de subúrbio instalou-se nas áreas ao-ar-livre do clube libanês.

Uma cena de rara beleza plástica atraía a atenção dos visitantes: uma legítima jangada tradicional de pescadores (símbolo da cultura cearense) flutuava na piscina, com efeitos de iluminação na enfunada vela. A extravagante cena abriu e encerrou reportagem de cerca de dois minutos no Jornal Nacional da Rede Globo (ano de inauguração da TV a cores, usando a técnica chroma-key), com narração do bronzeado Cid Moreira.

Com o Prêmio “Papagaio de Ouro”, foram homenageados profissionais das áreas de Rádio, Jornal, Televisão, Agências de Publicidade e Teatro, em suas respectivas categorias, escolhidos por uma Comissão de representantes desses setores.

A Mostra foi empreendida pelo Jornalista Marcondes Viana (do Jornal Tribuna do Ceará); Cartunista e Quadrinista Mino (Hermínio Castelo Branco, criador do personagem-herói Capitão Rapadura, inspirado em Mickey Mouse); Arquiteto e Programador Visual Ricardo Bezerra; e o publicitário Pedro Gurjão.

O ponto alto da iniciativa foi a presença e a participação dos humoristas e cartunistas Millôr Fernandes , Ziraldo (“Jeremias, o Bom, FLICTS) e Jaguar – a chamada “Patota do Pasquim” , os músicos Ivan Lins (no auge do seu sucesso “Madalena”); a vocalista da banda, Lucinha Lins, e a escritora Olga Savary (“Espelho Provisório”), depois vencedora do Prêmio Jabuti, com autógrafos de livros, shows e entrevistas para TV e jornais.

Nos principais momentos da programação de palco, atuou como Mestre de Cerimônias o jornalista, radialista e apresentador João Ramos. Uma vez que João era também um dos agraciados, na categoria ator de telenovelas; e não podendo entrega-lo a si próprio; o prêmio lhe foi entregue pelo jornalista Pedro Gurjão, que conduzia o script.

O evento mereceu distinguida cobertura da grande mídia (matérias ilustradas na Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, e da imprensa local (TV Ceará Canal 2, O Povo, Tribuna do Ceará, Correio do Ceará, Gazeta de Notícias e Jornal O Estado).

Depois de uma daquelas noites de Feira, Jaguar, Olga Savary, Ivan Lins, Lucinha Lins e o médico Mariano Freitas foram vistos tomando cerveja e caldo-de-peixe no Restaurante “O Anísio”, na Beira-Mar, onde a conversa virou a madrugada…”

(*)
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS –

CARVALHO, Gilmar. A Regionalização da Linguagem como Estratégia de Afirmação da Publicidade Cearense. Fortaleza. Revista Comunicação Social (UFC). 16 (1/2) Janeiro/Dezembro de 1986, p. 13.

2 BENEVIDES, Augusto César – Entre o Poder e a Madrugada. Fortaleza. RBS Gráfica e Editora Ltda, 2001, p. 88, 119, 123 e 165. M684 CDD B962.17.

3 NETTO, Raymundo. Curso Básico de Histórias em Quadrinhos. Fundação Demócrito Rocha. Universidade Aberta do Nordeste

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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