Precisamos falar do Ceará… Parte 14

Um amigo economista bem informado sobre finanças locais assegura que o Ceará tem doze pessoas com mais de um bilhão de dólares de fortuna cada uma. E acrescenta: o estado também tem mais quinze pessoas com mais de um bilhão de reais de fortuna cada uma. E conclui: a soma dessas fortunas equivale a um PIB (produto interno bruto) cearense de um ano, que ele estima em 130 bilhões de reais. Recusa-se a dar nomes e números ou fazer listas, aceita, entretanto, debater o assunto discreta e respeitosamente.

A perspectiva dele é interessante e reveladora. Ela diferencia os bilionários, separando-os em três grupos.

Há um primeiro grupo de empresas que aqui nasceram e aqui investiram, geraram empregos, pagaram tributos, acumularam energia e ganharam potência, aqui criando mais raizes. Começaram todos quase do zero e se tornaram milionários em décadas, evoluíram de forma orgânica. Cresceram passo a passo, ano após ano, por décadas, um avanço ordenado que exigiu tempo e trabalho para passarem do milhão para o bilhão. A retribuição social é maior neste processo mais longo.

Outros fizeram caminhos diferentes, alguns tomaram atalhos. Houve quem simplesmente se tornasse bilionário com a venda de seus negócios (bancos, indústrias ou comércio e serviços). Para isso foram especialmente hábeis em identificar o potencial comprador certo, escolher o intermediário acreditado internacionalmente e assegurar vantagens de longo prazo (como licenciamento ambiental, licenças de fabricação, benefícios fiscais, garantia de infraestrutura pública etc – o etcetera é vital). Também tiveram acurado senso de oportunidade, pois colocaram seus projetos quando os juros para investimento financeiro estavam próximos a zero em quase todos os mercados, voltando a tornar atraentes muitos negócios produtivos. A venda do negócio fez bilionários os membros deste segundo grupo.

A terceira opção da transição milionário-bilionário foi a abertura de capital via oferta pública de ações no mercado de bolsa. A grande habilidade está em conceber um plano de negócio consistente e rentável num ramo de enorme potencial de rápida expansão, como educação e saúde, por exemplo, onde o Estado é medíocre. Capta-se o dinheiro e compram-se empresas concorrentes de pequeno e médio porte, ganhando escala e reduzindo custos com sinergias. Nestes dois últimos grupos, se há, a retribuição social é muito menor, provavelmente nula, até podendo ser negativa. Basicamente, há transferência de propriedade, concentração de poder de mercado.

O Ceará tem um número absoluto expressivo de bilionários. Em proporção (relativa ao Nordeste e ao Brasil) também. Estes empreendedores têm mérito, claro, em matéria de negócios são vitoriosos. Podem ter sido favorecidos por circunstâncias e podem ter alavancado articulações políticas. Esses elementos compõem regras não escritas e fazem parte do jogo. O fato é que chegaram lá. Poucos conseguiram, poucos conseguirão.

Muito bem, parabéns. E agora? O que vão fazer? Qual será a sua próxima contribuição?

Afinal, numa terra como este Ceará, precisa perguntar pra que serve um bilionário?

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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