Precisamos falar do Ceará…Parte 11

Era a primeira metade dos anos 1970 e o governador do estado falava orgulhosamente de uma imensa e crescente floresta de cajueiros. Viajando para uma cidade vizinha, por exemplo, dos dois lados da estrada, por vários quilômetros, podiam ver-se as árvores carregadas, uma delas, uma bela floresta. Um espetáculo bonito, a união do verde da folha com o amarelo da fruta. Na capital acontecia algo como um Festival do Caju e o evento promocional chamou a atenção de todo o país, divulgado pelos meios de comunicação.

Nos anos 1980 já se industrializava o caju e a castanha. Havia o suco, o doce, o guaraná, a cajuína e as castanhas assadas em embalagens com rótulos também em inglês.

Nos anos 1990, o empresário Jaime Thomás de Aquino (CIONE) fazia nas instalações de sua fábrica, às quartas-feiras preferencialmente, um almoço especial para convidados. Carne de caju, torta de caju, omelete de caju, biscoito de caju, paçoca… para sensibilizar pessoas influentes (jornalistas, parlamentares, administradores de organismos públicos…) e mobilizá-las para valorizar todo o potencial industrial da fruta que, apesar de tudo, sempre foi majoritariamente desperdiçada.

Em alguns desses momentos nessas três décadas havia base para um projeto de desenvolvimento industrial sólido, substantivo, sustentável. O Ceará tinha tudo: matéria prima de qualidade, empreendedores, mão de obra farta, domínio do processo industrial, acesso a tecnologias, mercados compradores, até casos concretos para usar como inspiração e espelho.

O cajueiro é árvore nativa. Pouco exigente nos tratos e cuidados, resistente a adversidades próprias do clima e solo locais, é verdade. O que não significa desleixo, sobretudo quando se tratava de uma fonte de vida, saúde e riqueza.

Nos quatro cantos do estado, na geração de dezenas de milhares de empregos, na posição relevante dos lugares mais altos na pauta de exportações, o caju, a castanha, o líquido da castanha de caju (o valioso LCC) e todo o leque de oportunidades industriais que se abria, de novo a natureza segue entregando um infinito de possibilidades.

Era coisa visível, evidente. Estava aquele potencial ao alcance dos olhos de todos, um futuro a ser construído e consolidado,dentro das vocações locais, sem a exigência de mágicas e heroísmos, sem dependência de terceiros e estrangeiros.

Tão óbvia era essa projeção de futuro, que aparecia no passado e na análise do presente com as três primeiras letras do alfabeto. O Ceará tinha o ABC. Algodão, Boi e Caju. Valiosíssimos. Tradicionais. Este texto se refere no início a apenas três décadas. Entretanto, o ABC está na história do Ceará há muito mais tempo, séculos. Tempo mais que suficiente para ensinar e para aprender que havia a coisa certa a fazer.

Não foi feito.

Entramos os anos 2000 importando castanha de caju de outros continentes e um número expressivo das empresas do setor foi desistindo, abandonando o negócio.

Este setor da economia cearense sempre foi composto por empreendedores e gestores talentosos e capazes. A exemplo de Jaime Aquino e Edson Queiroz, podem ser citados mais dez. Não parece ter sido esta a fragilidade que impediu avanços. A questão se impõe e pede uma análise profunda e criteriosa, a golpes de por quê.

Não faz muito uma das pioneiras empresas do setor, a Cascaju, a primeira indústria da cidade de Cascavel, pertencente a sólido e poderoso grupo industrial, encerrou suas operações.

O silêncio em que tudo isso (esse declínio, esse desleixo, essa desatenção, esse desperdício) aconteceu ao longo de quatro décadas é constrangedor. Da mesma forma constrange pensar em tudo o que poderia (e deveria) ter sido, e não foi, e não é.

P.S.: Guardadas as devidas proporções e respeitadas as naturais diferenças, aconteceu algo similar com a carnaubeira e com a cera de carnaúba. A belíssima árvore está desaparecendo. Mais silêncio, mais constrangimento.

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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