PRECISAMOS FALAR DO ‘BC DO B’ – PARTE 2

Para gerir a economia brasileira em busca de desenvolvimento econômico e social, qualquer governo federal tem três grandes áreas para atuar: 1. a área fiscal (receitas e despesas públicas, via orçamentos aprovados pelo Congresso), 2. área monetária (manuseio da taxa de juros, principalmente, mas também depósitos compulsórios e oferta de crédito) e 3. área cambial (atuação nas taxas de câmbio do dólar e comércio e fluxo de produtos e moedas estrangeiras).

Como se vê, todas as três áreas são ligadas a dinheiro e a gestão delas é o próprio exercício do poder, concedido pelo povo aos representantes escolhidos pelo voto. O Poder Executivo o exerce, com vigilância e aprovação do Poder Legislativo, tudo com a supervisão da legalidade pelo Poder Judiciário (sendo que este não é votado).

O governo é o poder executivo. As questões econômicas e de dinheiro ficam com o governo, que tem a obrigação da iniciativa e tem uma máquina gigantesca. Os outros dois poderes têm atuação restrita, ambos servindo como freio e moderação do poder executivo. É assim no mundo democrático.

Há no Brasil outros dois poderes informais, a imprensa e agora o Banco Central, que desgarrou-se do governo federal e tornou-se formalmente autônomo, com a gestão atual (a primeira nesta nova concepção) estressando a relação.

Pois bem, neste exato momento, o Banco Central ocupou duas áreas do Poder Executivo: a área monetária e a área cambial. E superestressou as duas. E assim enfraqueceu o poder executivo, o governo, e de certa forma também estressa a democracia. O Banco Central está quase absoluto no poder. Manipulando a taxa do dólar e a taxa de juros pode-se fazer muito num país. Principalmente contra.

O Banco Central, para combater a inflação, elevou a taxa de juros de menos de menos de 3 por cento ao ano para quase 14 por cento ao ano em pouco mais de um ano (ainda no governo anterior). A inflação caiu rápido e muito. Caberia reduzir rápido e muito a taxa de juros. Mas, o Banco Central só deixou cair muito pouco e muito lentamente, já neste governo. HÁ duas semanas interrompeu a trajetória de queda do juro. E agora manda sinais de que quer aumentar os juros. E para andar efetivamente nesta direção, cria e amplia incertezas falsamente dramáticas.

Exemplo. A taxa do dólar subiu 15 por cento em poucos meses. Percebam o tamanho da bronca: juro alto e dólar sem freio.

A taxa de juros escolhida pelo Banco Central custou 790 bilhões de reais em um ano. A especulação tolerada com o dólar não se sabe quanto vai custar, porque seu maior custo poderá ser a inflação que tende a causar. E a ironia da situação: o Banco Central cobra austeridade do governo.

Agora o cereja do bolo: o Banco Central diz que se o dólar não cair, ele pode aumentar a taxa de juros.

É um típico ataque especulativo. O Banco Central criou e está alimentando uma crise financeira. De financeira, a crise pode virar econômica e daí ganhar dimensão politica. É institucional.

Este é um jogo pesado. Claro, há negócios grandes envolvidos. O estresse da especulação cambial e os juros da dívida interna somam um trilhão de reais.

Como se diz na linguagem popular, jogo de cachorro grande.

Sim, pelas escolhas diárias do Banco Central passa mais dinheiro do que por toda o resto do país.

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.