Pré-leitura do livro ‘Dona Fideralina Augusto – Mito e Realidade’, de Dimas Macedo

O AUTOR

Poeta, jurista, historiador e crítico literário, Dimas Macedo é mestre em Direito e Livre Docente em Direito Constitucional. É professor da Universidade Federal do Ceará e Procurador do Estado. Na área do Direito tem oito livros publicados, nas outras, dez. É integrante da Academia Cearense de Letras.

A PUBLICAÇÃO

O livro ‘Dona Fideralina Augusto – Mito e Realidade’, de autoria de Dimas Macedo, foi lançado em 2017, pela editora Armazém da Cultura, com 181 páginas. O prefácio é do autor; as orelhas, escritas por Cristina Couto.

CIRCUNSTÂNCIAS

Dimas Macedo, cearense nascido em Lavras da Mangabeira, na região do Cariri, é um pesquisador apaixonado mas criterioso da história e da cultura de sua terra. Dona Fideralina Augusto, talvez a maior figura política da história de Lavras, inspirou a escritora Raquel de Queiroz para seu livro ‘Memorial de Maria Moura’, que virou série de enorme audiência na televisão brasileira. É nesse contexto que Dimas Macedo oferece sua abrangente e minuciosa pesquisa, em busca de colocar limites reais na trajetória daquela mulher, separando o mito da realidade.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Na orelha do livro, Cristina Couto diz que o historiador Dimas Macedo “faz justiça com as próprias mãos” e resgata a “história como ela é, e não como as pessoas gostariam que ela fosse”. A obra é especialmente rica em dados, datas, fatos, nomes e conexões. Trata-se de uma pesquisa rigorosa. Não espere o leitor um romance, uma aventura, relato de eventos heróicos. Dona Fideralina Augusto é uma personagem monumental, mas o autor bloqueia qualquer licença para fugir ao mais estrito limite dos fatos. Afinal, o livro é uma pesquisa séria, sóbria.

O LIVRO

Dona Fideralina é um livro de resgate da verdade histórica de uma personagem da vida real. O autor descreve seu tempo (segunda metade do século dezenove), seu lugar (Lavras da Mangabeira, região do Cariri, Ceará), suas circunstâncias sociais e políticas e sua família. A todo instante se percebe tratar-se não de um romance heróico, mas da apresentação de uma longa, detalhada e metódica garimpagem no túnel do tempo. Fideralina, seus familiares ascendentes e descendentes e seu domínio político na cidade, na região e no estado são descritos com mais precisão do que paixão. A leitura fluirá de maneira a formar um mosaico de um tempo e de uma região marcados pela violência, pelo preconceito e pelo atraso, mas deixará no leitor a imagem de uma mulher ao mesmo tempo excepcional e serena.

CURTAS

A cobiça do ouro, o conflito político exacerbado, a degeneração do clero e a falta de sentimento público na Vila de São Vicente de Lavras parece que são os traços de maior destaque da cultura e da civilização do Médio Salgado até meados do século dezenove…”

“… ele batizou a sua primeira filha com o nome de Fideralina (em referência à palavra Federação), criação idiomática que depois seria adotada por outras mulheres do Ceará e do Brasil.”

“…Raimundo Tomaz de Aquino não apenas injuriou o juiz a quem desejava surrar, como pôs um chocalho no pescoço do promotor de justiça e com ele desfilou pelas ruas daquele lugarejo, provando, dessa forma, que a Vila de Lavras era, também uma Comarca difícil de curar.”

“O assassinato de Ernesto Carlos Augusto, em 1874, a chegada do Monsenhor Miceno na Vila de Lavras, em 1875, e a morte do major Ildefonso Correia Lima, em 1876, constituem-se pontos de inflexão importantes na vida de Dona Fideralina.”

Com a Proclamação da República, houve uma reformulação do sistema político cearense, com a criação dos Conselhos de Intendência Municipal.”

“Lavras é uma das cidades do Ceará de traço social mais sólido. E a sua história política é uma das mais fascinantes do Estado.”

“Na sua terra de berço, (Gentil Augusto) destacou-se como o neto de Dona Fideralina que não a deixava sossegada, tamanhas as suas desavenças e a sua loucura.”

BONS MOMENTOS

“Trata-se de uma fase cruel e de pouco sossego, pois desde o começo do reinado de Dona Fideralina até o final do século dezenove, alastra-se no interior do Ceará, e especialmente na região do Cariri, a arregimentação de grupos armados, que viviam do saque e da depredação de cidades. Seitas místicas e visionárias de homens inconformados e bestializados e sem maiores ocupações. E a tudo isso a cidade de Lavras da Mangabeira não ficou imune…a comunidade lavrense, durante este período, foi diversas vezes invadida por bandoleiros e salteadores que para ali acorreram, contando-se, entre eles, aqueles conhecidos como Viriatos, uma das mais terríveis facções de cangaceiros registrada pela nossa Sociologia.”

Viúva ainda muito jovem, assim permaneceu até a data do seu desenlace, sublimando a sua solidão e, possivelmente, a sua libido, com a energia que movimenta o mundo da política, mas surpreendendo pelo gosto que demonstrou pelas coisas da cultura, tendo sido, em Lavras da Mangabeira, correspondente da revista Estrella, fundada em Baturité, em Outubro de 1906, pela poetisa Antonieta Clotilde.”

“Apesar de terem conferido significado ao papel da mulher numa sociedade de formação patriarcal, Fideralina e Maria Moura foram diferentes em diversos pontos. Dona Fideralina não foi guerreira, como se imagina, e parece que não se entregou a paixões carnais ou corriqueiras, ainda que existam versões acerca de sua vida sexual exitosa, após a viuvez. Na Política, e não na guerra pela posse da terra, Fideralina exerceu sua vocação. Destacou-se, especialmente, como mãe e, em nome da maternidade e dos valores dos seus ancestrais, soube preservar a memória da sua tradição e da comunidade que ajudou a soerguer em todo o Ceará.”

Na lista daqueles que deformaram a memória de Dona Fideralina, eu ponho o nome de Raquel de Queiroz, a qual, desde o seu artigo pioneiro, publicado na revista O Cruzeiro, do Rio de Janeiro, em 1946, até a redação da sua obra-prima Memorial de Maria Moura, inventou uma Fideralina que jamais existiu. Dona Fideralina foi muito maior do que a fantasia criada em torno do seu nome, porque viveu sempre com os pés no chão e soube transgredir, como nenhuma outra mulher do seu tempo, o contexto histórico em que viveu e no qual atuou com o poder das suas decisões.”

“E prossegue a autora de O Quinze: “Como toda pessoa que cai no folclore, acontece que a figura de Dona Fideralina foi algumas vezes deformada, envenenada, pois a boca do povo sempre altera o que repete, para o bem e para o mal. E assim, porque Dona Fideralina não tinha medo de ninguém, porque sendo apenas uma mulher, sabia fazer-se respeitada como um coronel de bigodes; porque num tempo em que o cangaço era a lei única e nem o exército podia direito com um bando de jagunços (exemplo: Canudos, Juazeiro, Princesa), Dona Fideralina também se cercava de cabras para a defesa dos seus e de sua casa.”

“Manteve Dona Fideralina relações de amizade com o Padre Cícero, e com os maiores coronéis do Cariri, colocando-se contra ou a favor dos que rezavam ou não rezavam pela sua cartilha, mandando e desmandando nas coisas da política, sempre que achava que assim devia proceder. E o vulgo popular compreendeu, e a literatura de cordel registrou que Dona Fideralina Augusto, diferentemente dos grandes coronéis do Cariri, queria mandar nas coisas da Política para além de sua região: “O Belém manda no Crato / Padre Cícero em Juazeiro / Em Missão Velha Antonio Róseo / Barbalha é Neco Ribeiro / Das Lavras Fideralina / Quer mandar no mundo inteiro.”

Vivendo num momento marcado pelo banditismo das hordas fascínoras de cangaceiros, Fideralina Augusto não deixou de preservar em torno de seus interesses e na defesa de seu código de honra, homens ágeis no manejo do trabuco, tais os casos de Antonio Preto e Nego Bento, ou de cangaceiros destemidos do porte de um Miguel Garra.”

(Leitura Resumida do livro Dona Fideralina, de Dimas Macedo para o WWW. LER. DIGITAL)

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