Pré-leitura do livro ‘Um Provinciano no Caos’, de Clauder Arcanjo

O AUTOR 

Clauder Acanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil, da Academia Norte-rio-grandense de Letras e da Academia Mossoroense de Letras, publicou quinze livros, contando este, entre romances, novelas, contos, crônicas, poemas, aforismos e discursos. 

A PUBLICAÇÃO

O livro “ Um Provinciano no Caos“, de autoria de Clauder Arcanjo, foi lançado em 2024, com 94 páginas, pela editora Sarau das Letras. 

CIRCUNSTÂNCIAS

Clauder Arcanjo tem com a literatura uma relação evidente de vocação, missão e paixão. Um completa o outro. E ambos desafiam-se continuamente e seguem de mãos dadas. Buscam a cada livro um estágio mais elevado de excelência.

Um mergulho dentro de si, um roteiro de conteúdo autobiográfico sugere a qualquer autor (e leitor) uma prosa extensa, cheia de nomes, datas e detalhes de circunstâncias. Clauder Arcanjo quebra todo paradigma e surpreende e encanta com um texto breve, um voo rápido e em versos.

Beleza pura encapsulada.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

O lançamento de um livro novo de Clauder Arcanjo é um acontecimento relevante por si mesmo, dado o reconhecimento da sua dimensão como autor, da substância e relevância de cada obra e da sua trajetória.

Leia o que dizem seus pares a este respeito. O escritor Alder Teixeira qualifica o livro com uma palavra: belíssimo. E atesta que a obra é a um só tempo sensível no plano do conteúdo e rigoroso no plano da expressão. O escritor José Anchieta de Oliveira define o lançamento como um canto de amor e celebração a uma existência repleta de experiências marcantes. A escritora Lilia Santos ressalta que o autor repassa a vida corajosamente e sem condescendência consigo. Galileu, escritor e professor, diz que Um Provinciano no Caos leva-nos ao reino das lembranças que só o amor resgata. O escritor Hildeberto Barbosa Filho anota que o autor conduz uma viagem lírica ao encontro de si mesmo nas diversas estações da vida. O escritor Marcos Ferreira registra que Clauder Arcanjo é um vate de grande sensibilidade e que sua contribuição à Poesia é preciosa e relevante.

O LIVRO

O livro se estrutura em sessenta e oito pequenos poemas, ou, se preferir, num poema longo. O texto se distribui em quatro divisões de tempo: a infância, a juventude, a maturidade e afinal.

Clauder Arcanjo canta e homenageia Licânia, sua cidade natal e cita nominalmente apenas pai e mãe, Zequinha e Djanira.

Recomenda-se a leitura, sem reservas. E quantas releituras forem necessárias para absorver do texto a beleza de suas linhas e entrelinhas.

CURTAS 

“…Da província, uma dor, 
Sem razão e sem cura, 
Apertou-me o peito,
Mas o choro não fluía…

“…No sertão enterraram todo o mistério 
Ossadas, botijas, sonhos, reinações. 
Tesouros e histórias dessedentadas, 
Enterradas nas raízes ocas do sortilégio…

“…Com o passar dos anos
O futuro reduz o brilho, 
O presente se amorna, 
E o passado impera…

“…Silenciei, contrito, a entender o veredicto..
— Setenta vezes sete, hei de a ti perdoar…
E eu retornei, cabisbaixo, ao meu exílio… 

“…Se ficar este instante de riso
— Apesar de sua brevidade avara — 
Hei de construir um recanto de memória
No qual até os tijolos clamarão por ti…

“…Os sinos se calaram, 
Quando eu recuei
Diante da torpe injustiça, 
Á qual presenciei e calei. 

“…Em meio aos orixás, 
Entre aprendizados do petróleo, 
Fiz-me melhor, mais plural, 
Menos ridículo e preconceituoso…

“… o mundo é mera aldeia de Licânia…

BONS MOMENTOS

“…Hoje estou aqui, minha Licânia,
Com meu cesto de poemas. 
— Mas isso nunca, jamais, te pedi.
Apesar disso, terra minha, a ti
Eu todos ofertei. Dentro de mim, 
Para ti, eles vívidos brotaram. 
— E eles estão em forma de flor?
Sou jardineiro torto, ás rosas
Tenho amor., delas, no entanto, 
Não herdei o zelo de cuidador…

“…Djanira tem mãos muito grandes!
Quem a mandou ser tão generosa!
Mamãe não se encaixa nesta estrofe. 
Maria, sabe, é tão larga, mui caridosa
Nossa mãe, pai, você bem a conhece
— Seus lençóis idílicos, guardiã, deusa…—,
Não tem jeito: é maior do que a Poesia. 
Minha mãe não cabe neste poema.  

“…Aprendi, provinciano em exílio:
De onde nasci, herdei
A genética telúrica do chão. 
Das cidades nas quais morei, 
 A carnadura dos gestos e da voz
Gestada na adoção pelo carinho. 
Das terras invisíveis e desconhecidas, 
O sonho de ser parteiro nas letras, 
Imperador onírico de novos mundos. 
Aprendi, eterno provinciano em exílio. 

“…Na turbulência da vida
Recobria-me de silêncio.
Imaginava-me sozinho
Com meus fantasmas, 
Entre amigos e sonhos. 
Se eles me deixassem
Tampouco me importaria. 
O silêncio sempre me bastou
Na turbulência da vida…

“…Levo na alma a solidão de um canoeiro, 
Aguardando as águas em leito seco. 
Carrego nos ossos lívidos o silêncio
De um búzio há tempo esquecido
No sertão que um dia já foi alto-mar…

“Haverá um amigo
Que me siga
Nos passos deste horror?
Quem, silente, insista,
Ao meu lado,
Sem se importar
Com tanta insensatez?
Haverá um animal
(Doméstico ou selvagem)
Que queira me servir
Como um cão no caos?
Poesia, raro lenitivo.

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

Mais do autor

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

1 comentário