Pré-leitura do livro SEPARAÇÃO, de CLAUDER ARCANJO – por Osvaldo Euclides

O AUTOR

Clauder Arcanjo é engenheiro cearense, nascido em 1963, escritor, membro da Academia Brasileira de Letras (assim como da Mossoroense e da Norte-riograndense), fundador da editora Sarau das Letras. Autor de Licânia (2007), Lápis nas Veias (2009), Novenário de Espinhos (2011), Uma garça no asfalto (2014), Pílulas para o silêncio (2014), Cambono (2016), Separação (2017) e O Fantasma de Licânia (2018).

A PUBLICAÇÃO

O livro ´Separação´, de Clauder Arcanjo, foi lançado em 2018, pela editora Sarau das Letras (que tem mais de 200 títulos no seu acervo), com 123 páginas, apresentação de Hildeberto Barbosa Filho, orelhas de Nelson Patriota.

CIRCUNSTÂNCIAS

Clauder Arcanjo já tinha publicado dois livros de contos quando presenciou uma briga de casal e sentiu-se desafiado a ficcionar a respeito da difícil vida a dois. Decidiu escrever contos em torno do mesmo tema, a separação, abrindo-o, entretanto, para outras separações, como entre amigos e entre pais e filhos.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Além da mais alta qualidade, do rigor no manejo da palavra e da beleza do texto de cada um dos contos, o livro traz a singularidade essencial de abordar um único e sensível tema, a partir os mais variados pontos de vista, sob o comando e o controle delicados do autor, numa leitura que flui suave, mas, talvez por isso mesmo, puxa o leitor para dentro das tramas, evocando emoções, inclusive sorrisos, porque há surpresas bem humoradas também.

Este livro foi saudado de forma francamente positiva por vários escritores e críticos literários. Dimas Macedo, expoente nos dois campos, lista ´Separação´ entre as “coleções estupendas” (de contos) que já leu.

O LIVRO

´Separação´ traz 18 contos, nenhum deles traz um título individual, são numerados em sequência de algarismos romanos, todos eles curtos. Apenas o último não aborda uma separação. O destaque é para a vida a dois, de casais, mas há espaço na obra para o eventual envolvimento de padres, advogados, parentes e vizinhos que enriquecem a trama e oferecem abertura para eventos completamente inesperados. Sempre um final completamente imprevisível, desnorteador.

CURTAS

“…a sua fatal sentença: “O nosso amor passou, não criou raízes”.

“Cada qual a prezar o limite e a privacidade do outro. Como se dois bons e civilizados vizinhos.”

“Homem é bicho que não merece confiança, mulher!”

“Tão novo e tão cheio de latim!”

BONS MOMENTOS

“Na sala, ela dançava, de olhos fechados, a sorrir com o seu retrato (quando mais jovem). Na mesinha do centro, duas taças de champanha. E Roberto a confidenciar-lhes: “Não adianta nem tentar me esquecer… Detalhes tão pequenos de nós dois…”

“Foram levando a vida nesse compasso de crença claudicante e férrea razão. Ele, temeroso, evitava o embate direto no campo das ideias, muito menos no corpo a corpo dos argumentos. Não foram poucas as vezes em que assistira à mulher torcer a cabeça de uma galinha, a cortar os ossos de uma ovelha abatida, a preparar a lenha para o fogo da noite. Numa demonstração de extrema energia que o tornava pacífico, por precaução. “

“Ao abrir a porta, a cena:  Josué, seu esposo, esparramado sobre os lençóis de seda a roncar como um porco gordo. A barriga (melhor dizer, a pança) enorme, a barba por tirar hirsuta, os pés com as unhas por cortar, os cabelos (apesar de poucos) assanhados, feito um frango depenado… naquele dia completavam as bodas de prata…”

“Padre João Pedro chamou o sacristão, no término do rosário, para uma conversa reservada. As mãos do clérigo se apresentavam maiores, os dedos como se em garra, sem falar nos cabelos assanhados. Quando o jovem religioso, sem grandes rodeios, inquiriu o sacristão sobre a procedência de tamanha tragédia no seio de seu redil…, o sacristão perdeu a cor, gaguejou evasivas e alegou que deixara a sacristia aberta, correndo, desabalado, para fora da casa paroquial.”

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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