Pré-leitura do livro “Povo, Poder e Lucro”, de Joseph Stiglitz

O AUTOR

Joseph Stiglitz, nascido em 1943, nos EUA, doutor em economia, Prêmio Nobel de 2001, é professor na Universidade de Columbia e escritor.

A PUBLICAÇÃO

O livro “Povo, Poder e Lucro – capitalismo progressista para uma era de descontentamento”, de autoria de Joseph Stiglitz, com 406 páginas, foi lançado no Brasil pela editora Record, em 2020 (um ano depois da estreia nos EUA).

CIRCUNSTÂNCIAS

Os Estados Unidos conquistaram o reconhecimento de ser a nação mais próspera e a democracia mais estável, desde o início do século XX. Consolidaram essa posição nas três décadas de ouro, após a segunda guerra mundial. De repente, uma manobra radical muda o rumo e o desempenho.

Nos anos 1980, o presidente Ronald Reagan cortou impostos dos ricos, depois veio o discurso da globalização, seguida de uma financeirização radical. Os avanços tecnológicos foram apropriados por poucas empresas e os benefícios se concentraram também no restrito topo da pirâmide. A base da pirâmide, desde então, nada conquista, ao contrário, perde renda, perde confiança.

O livro descreve essa trajetória nos grandes temas até Donald Trump e seus primeiros anos, 2017 e 2018.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

O país está vendo a China prestes a tomar-lhe a hegemonia econômica, assim como vê ameaçada a sua democracia desde a eleição de Donald Trump. O autor constata efeitos nocivos da globalização e da financeirização, entre eles a exacerbação das desigualdades.

Com a autoridade que o Prêmio Nobel lhe dá, Stiglitz ainda crê possível aos EUA frear o declínio e salvar seu capitalismo e sua democracia, como sugere o título do livro. Ponto de partida: contrapor-se ao poder do 1% e mobilizar a força do povo. E defende a ideia de um capitalismo progressista.

O LIVRO

Joseph Stiglitz estrutura seu livro em duas grandes partes, que se desdobram em onze títulos. A primeira parte recebe o nome de “Perdendo o Rumo”, e trata fundamentalmente de economia, mas não só, e põe o foco nos erros e desvios que a elite americana promoveu em quatro décadas para seu próprio benefício e prejuízo da população. A segunda parte se chama “Reconstruindo a Política” e trata de política (com um olho na economia) para formular um texto esperançoso, porém prático, propondo meios de frear a decadência e fazer uma retomada.

Stiglitz escreve com simplicidade e clareza. É direto nas suas proposições. Trata economia e política do jeito certo: juntas, uma condicionando a outra. O livro apresenta ideias e não foge de apontar quem é quem no jogo de interesses.

INSIGHTS

“Ainda não é tarde demais para salvar o capitalismo de si mesmo.

“Podemos terminar com desigualdade ainda maior e uma sociedade ainda mais dividida e descontente.

“No fim das contas, o único contrapoder atual é o poder do povo, o poder das urnas.

“No centro de grande parte do nosso progresso sempre estiveram as universidades, e todas as nossas principais universidades são públicas ou sem fins lucrativos.

“Os 1% se preocupam com a possibilidade de um governo forte usar seus poderes para tirar dinheiro deles e distribuí-lo entre os necessitados.

“Em resumo, os mercados não solucionarão nossos problemas. Somente o governo pode proteger o meio ambiente, assegurar justiça social e econômica e promover uma sociedade dinâmica…

“…como todas as instituições humanas, incluindo o mercado, o governo é falível e pode ser melhorado. A visão de que o governo é o problema, não a solução, é simplesmente errada.

“…parecemos estar nos transformando em uma economia e uma democracia dos 1%, para os 1% e pelos 1%.

IDEIAS CENTRAIS

“Não entendemos os perigos e o poder do dinheiro; não entendemos como o dinheiro concentrado corrompe a democracia e como as elites podem usá-lo para modelar economia e política a fim de gerar ainda mais concentração de poder econômico e político.

“Confundimos fins e meios: a globalização deveria criar uma economia mais forte para servir melhor aos cidadãos; mas então dissemos às pessoas que, por causa da globalização que ‘nós mesmos criamos’, eles tinham de sofrer cortes nos salários e nos programas públicos.

“Revisar outros episódios perigosos da história americana e mundial pode nos fornecer esperança e inspiração para seguirmos adiante. Trump não é o primeiro presidente a abusar de seu poder. E essa não é a primeira vez que enfrentamos desigualdade obscena e que nossa economia é distorcida por excessos de poder de mercado.

“As elites ignoraram o sofrimento de muitos americanos enquanto pressionavam por globalização e liberalização, inclusive dos mercados financeiros, prometendo que todos se beneficiariam com as “reformas”. Mas, para a maioria, os benefícios prometidos jamais se materializaram.

“Enquanto milhões em todo o mundo perdiam seus empregos e dezenas de milhares nos Estados Unidos pediam suas casas, nenhum dos grandes financistas que levaram a economia global à beira da ruína foi responsabilizado. Nenhum deles foi preso; em vez disso, foram recompensados com bônus gigantescos. Os banqueiros foram socorridos, mas não suas vítimas.

“A divisão econômica levou a uma divisão política, e a divisão política reforçou a divisão econômica. Aqueles que têm dinheiro usam seu poder para escrever as regras do jogo econômico e político de maneiras que aumentem suas vantagens. Os Estados Unidos têm uma elite muito pequena controlando uma parte cada vez maior da economia e uma base cada vez mais ampla com quase nenhum recurso.

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.