Pré-leitura do livro ´Por quem se curvam os homens´, de ÍRIS CAVALCANTE – por Osvaldo Euclides

A AUTORA

Íris Cavalcante é escritora cearense nascida em Baturité. Publicou prosa e versos. Estreou em 2003 com o livro Palavras e Poesias, seguiu com O Caminho das Letras (em 2006), depois O Sobrevivente (2011) e Ventos do 8*Andar (2017), finalista do Prêmio Jabuti de Literatura. É pós-graduada em Escrita Literária e em Administração Estratégica.

A PUBLICAÇÃO

O livro “Por quem se curvam os homens”, de autoria de Íris Cavalcante, foi lançado pela Amazon Books, com 92 páginas, em 2019, em agosto.

CIRCUNSTÂNCIAS

A autora instala a trama do livro no calor infernal de Sobral, sertão do Ceará, e seleciona pessoas e eventos que marcam três gerações de uma família. Os eventos não são datados exatamente e, salvo por uma e outra referência, que colocam o centro de alguns eventos na década de 1980, eles poderiam ocorrer a qualquer tempo. Os vários narradores vão se superpondo.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Íris Cavalcante consegue, com sensibilidade e mãos hábeis, costurar, num livro breve,  relações que acontecem no seio de uma família tradicional (entre marido e mulher, pais e filhos, irmão-irmã , sem faltarem as tias, os avôs e as avós e até a empregada) e enche de vida e força cada personagem. O tempo vai se desdobrando em ritmo controlado e o leitor vai se enredando na trama das crianças que viram adolescentes e dos adolescentes que ficam adultos e são obrigados a enfrentar tudo o que não enfrentaram no passado.

O LIVRO

O livro é narrado ora por um homem, ora por uma mulher. Esse duplo olhar enriquece os personagens, mas não igualmente. A dor das mulheres parece mais funda. Mesmo quando se curam, suas cicatrizes são maiores, e continuam a doer. Não há aventuras, nem saltos. Só a vida quase real se arrastando e arrastando as pessoas para seus amores, seu sofrimento e seus destinos.

A obra também traz, junto com todo o seu dramático realismo, uma espécie de surrealismo cheio de beleza, quando a autora joga na cena um pavão sensitivo, um poeta num ambiente  absolutamente inusitado e um menino azul.

Não precisa ver para crer. Tem que ler, apenas. Aí fica-se sabendo por quem se curvam os homens.

CURTAS

“O cheiro da clorofila subia à superfície e eu absorvia os silêncios do rio”

“Era assim naquela casa de ausências e cicatrizes, como se mãe e filhos carregassem a síntese do mundo em seus conflitos.”

“Ao julgar-se senhor e proprietário da mulher, fora o marido a abrir a porta para que ela saísse, furtivamente. Ao retornar, ela trazia o corpo, mas a alma ficara”.

“A fervura daqueles sentimentos controversos fez com que mãe e filho se distanciassem e um muro invisível ergue-se entre eles…”

“Poucos são os homens que atingem a alma de uma mulher. Quanto mais conhecedores do corpo, menos sabedores da alma.”

“Não escolhemos o destinatário de nossa benquerença, ele vem como sorte lançada pelos infinitos.”

“Restou-me a eternidade, onde disponho de todo o tempo do mundo para navegar no oceano de minha mente”.

BONS MOMENTOS

“Há muito, ela e o marido mão se olham nos olhos, como se nesse encontro se revelassem as falhas recíprocas. Evitavam também o olhar dos filhos. Olhavam através deles, por sobre eles, como se não estivessem ali ou fossem apenas um vaso inanimado a compor o cenário.”

“Uma mãe põe a vida do filho em marcha, mas pode paralisá-lo; o acolhe no ventre, mas o expulsa no parto; amamenta-o, mas promove o desmame. A mãe é o ser que protagoniza esta insólita relação de extremos.”

“Estava nua. Era o momento de seu confronto com o espelho que assumia a função de carrasco, com se fosse um torturador nos porões de uma ditadura. Ali, era a ditadura da beleza que a martirizava, cujos padrões faziam-na perceber-se mutilada. Através do espelho, fitou o semblante do medo.”

“Persistimos na amizade e, durante muito tempo, alimentei um amor distópico pelo menino azul. Talvez ele continuasse me achando com cara de algodão, desbotada e magricela, enquanto se transformava num rapaz popular, com bons músculos e foco em seu projeto de vida. No tocante a mim, segui por um caminho adverso, conheci outras pessoas e não era propriamente de futuros que tratávamos”.

“Há um estranho pressuposto quando se nasce mulher. Percebi isso muito cedo, porque cresci numa família onde os homens eram cúmplices e as mulheres inimigas. As mulheres não se ajudavam e o machismo era tratado com exibicionismo e não como anomalia que é. Muitas vezes, senti por mim e minha mãe o peso da invisibilidade”.

“Quero todas as palavras, todas as locuções, toda a literatura do  mundo para dizer que te amei e por não ser fácil amar-te, amei-te demasiadamente. Por seres tão sofrida, cuidei de ti como a uma joia, lapidando o brilho. Cingi-te o relevo com a forma que desejava que tivesses. Recitei para ti os melhores versos de amor, como se fosses a musa inspiradora desses poetas. Os livros me disseram o que eu não soube te dizer”.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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