Pré-leitura do livro “O professor, Beethoven e o ladrão”, de Edmilson Caminha

O AUTOR

Edmilson Caminha é escritor, professor e jornalista. Membro da Academia Brasiliense de Letras, da Academia de Letras do Brasil e do PEN Clube do Brasil.

A PUBLICAÇÃO

O livro “O professor, Beethoven e o ladrão – artigos e crônicas”, de autoria de Edmilson Caminha, foi publicado em 2016 pela editora Thesaurus, com 270 páginas.

CIRCUNSTÂNCIAS

Na orelha do livro, o próprio autor explica a origem da publicação. Diz ele: “…Escrevo para contar histórias, dividir com os leitores a experiência de mais de 50 anos dedicados à literatura, como escritor, como professor, mas, sobretudo, como jornalista, profissão que me deu o privilégio de conhecer os maiores nomes da poesia e da prosa brasileiras…”.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Este livro de Edmilson Caminha é retrato do afeto que sente quanto à literatura, e mostra a cada linha a sua afinidade com com as palavras, em cada parágrafo seu carinho para com os livros e em cada página sua prazerosa e rica relação com grandes escritores. Todo o livro é baseado em eventos reais e situações vividas pessoalmente. O livro “O professor, Beethoven e o ladrão” coloca o leitor face a face com toda essa gente culta e sensível, e a conversação se dá naturalmente, flui tranquila de uma fonte que parece pura e infinita. Nesta perspectiva, este livro é único, encantador.

O LIVRO

O livro O professor, Beethoven e o ladrão oferece 66 crônicas e artigos que relatam histórias que aconteceram com o autor na sua relação com escritores, principalmente. Os textos são breves e cheios de riqueza humana. Os fatos relatados envolvem direta ou indiretamente os mais relevantes escritores brasileiros de todos os tempos, de todas as correntes. A seleção feita pelo autor é primorosa. O livro pode ser lido em qualquer sequência e merece leituras e releituras sem moderação. O texto é amigável, direto, cativante.

CURTAS

“… na opinião do conservador Winston Churchill, o trabalhista Clement Attlee não passava de um político medíocre: é que ele escrevia os próprios discursos.

“…Todos se surpreenderam quando a embaixatriz declarou, com a maior naturalidade, ser a favor da poligamia. Ao que um diplomata brasileiro comentou baixinho, com discrição e bom humor: “Pois eu prefiro a monotonia“.

“…Era só escritor, essencialmente escritor, profundamente escritor, totalmente escritor…

“Devemos, pois, à literatura não só o encanto da poesia, o frescor da crônica, o fascínio do conto, a sedução do romance. Ela também é fonte de generosidade, expressão maior da grandeza a que pode chegar o homem. Sem os que a têm, o mundo seria pior, e já não valeria a pena viver.

“Religião e comida, sabem judeus e cristãos, unem-se desde o Gênesis, com a maçã na alegoria do pecado original: parta-se a maçã ao meio e ali veremos a genitália feminina, à espera de que a cobra fálica entre pela primeira vez…

“…sobre a complexa gênese de uma obra literária, onde marcas alheias evidenciam que nada do que se escreve é rigorosamente original. Há, sempre, dívidas a pagar, influências a reconhecer, contribuições a declarar.

BONS MOMENTOS

“Por que exigir de um ator, um músico, um milionário, um atleta que, além dos dons que os fizeram ricos e célebres, se descubram também grandes escritores? Seria querer muito de uma só pessoa…Para tanto existem os profissionais do texto, que cobram pelo que produzem como qualquer trabalhador. Nem todos, é verdade, com o brilho de Otto Lara Resende. Assessor da alta direção da Rede Globo, foi quem escreveu a carta com que o amigo Walter Clark deixou a empresa. Horas depois, Roberto Marinho o chamava para que dissesse do pesar com que lera tão comovente despedida. E assim fez Otto, profundamente emocionado com a beleza que dera à emoção do outro…

“Essa, a importância e a modernidade desse verdadeiro monumento que é Don Quixote de la Mancha, obra capaz de, sozinha, fazer a perenidade de uma literatura, a grandeza de uma língua, a glória de um povo. No dia do Juízo Final, quando se puserem os homens sob a condenação de Deus, esperemos que um anjo interceda por nós: “Mas Senhor, um deles escreveu o Dom Quixote!“. E esataremos todos salvos.

“Eleito em 1961 para a Academia Brasileira de Letras, problemas no automóvel que o conduzia a uma sessão obrigaram-no a descer em plena rua e pegar um táxi. De fardão, espada à cinta e chapéu com plumas, Aurélio percebeu que o motorista o observava pelo retrovisor, até criar coragem e, corajosamente, perguntar: “Sois rei?“. Diz-se que o episódrio inspirou a Jô Soares o personagem Reizinho, que mandava e desmandava em Viva o Gordo.

“Jornalista, contista, romancista, cronista, o festejado mineiro de São João del-Rei foi, principalmente, uma grande figura humana, um príncipe da Renascença, mestre em conquistar admiradores e fazer amigos. Com Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino, tornou ainda maior e mais puro o sentimento de fraterna cordialidade. Para Nelson Rodrigues, era obsessão – uma das tantas do dramaturgo, que se superou ao dar a uma peça o título de ‘Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária’. Segundo ele, conversador assim tão brilhante deveria andar com um taquígrafo a tiracolo, para não perder uma só das frases que de sua boca jorravam como água da fonte…

“Joel tornara-se conhecido de Chateaubriand em 1943, à custa das famosas reportagens que escrevera sobre grã-finos paulistas – por sinal incluídas no ‘Tempo de Contar’. Nelas, com pena de mestre, ironiza impiedosamente o grand monde tupiniquim, pondo a nu o vazio e a ilusão em que flutuam ricaços e dondocas. O efeito foi de verdadeira bomba: Prados e Matarazzos lançaram a prêmio a cabeça do autor, que deixou São Paulo protegido por estudantes do Centro 11 de Agosto, entre eles, um chamado Jânio da Silva Quadros. Chateaubriand, ao ler a matéria, não se conteve: “Quem escreveu isso não é um repórter, é uma víbora! Quero esta serpente trabalhando pra mim“. E conseguiu.

“Os que temos a paixão da literatura, absolutamente incapazes de viver sem livros, pertencemos a uma grande e singular confraria, em que escritores, bibliófilos, professores, bibliotecários e leitores exercem a nobre e sublime virtude da generosidade. Homens e mulheres que amam os livros não com a soberba da vaidade ou a agonia do ciúme, mas com o sentimento da partilha, com a convicção de que, por mais raros que sejam (e mais caros), não nos pertencem como patrimônio a guardar no cofre: deles somos cuidadores, apenas, pois as mãos a que finalmente se destinam talvez não sejam as nossas.

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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