Pré-leitura do livro O CEARENSE, de Parsifal Barroso, por Osvaldo Euclides

O AUTOR

Parsifal Barroso (1913-1986) foi governador do Ceará (1959-1963), depois de ter sido ministro do Trabalho, Indústria e Comércio do presidente Jucelino Kubitschek, senador (1958/59) e Deputado classista (a partir de 1936) e constituinte (1945-46). Foi professor do Liceu do Ceará e da Universidade Federal do Ceará. Foi um dos líderes da ‘União pelo Ceará’, fazendo o sucessor no Governo do Estado. Com o golpe de 1964, retirou-se das funções públicas, voltando nos anos 1970 como Conselheiro e depois Presidente do Tribunal de Contas do Distrito Federal. Seu pai, Hermínio Barroso, foi deputado estadual. Foi casado com Olga, filha do líder sobralense Chico Monte. Escreveu ‘História da Política do Ceará’, “Vivências Políticas” e publicou inúmeros artigos na imprensa.

A PUBLICAÇÃO

‘O Cearense’, de autoria de Parsifal Barroso, teve sua segunda edição lançada no ano de 2017, pela editora Escrituras (a primeira edição é de 1969), com 125 páginas e prefácio de Djacir Menezes (para a primeira) e Igor Queiroz Barroso (para a segunda edição), com capa dura, apoio do Instituto Myra Eliane.

CIRCUNSTÂNCIAS

Em 1944, Gilberto Freyre fez uma conferência e publicou em jornal um texto de título ‘Precisa-se do Ceará’, em que tratava das características da gente nascida nas terras alencarinas. Parsifal impressionou-se e, anos depois, passou a pesquisar o tema. Buscou financiamento para o que seria uma pesquisa com rigor científico, que começaria nos registros oficiais portugueses e se transformaria em livro de dois volumes. Parsifal não conseguiu o financiamento, a pesquisa teve que ficar restrita a seus limites circunstanciais. E ele publicou seu trabalho em um só volume.

A IMPORTÂNCIA DA OBRA

Nas palavras do autor, o livro “O Cearense” foi uma espécie de ‘toque de clarim’ que abriu caminho e serviu de estímulo a outros estudiosos da “cearensidade” (a palavra é usada a primeira vez neste livro), o ‘conjunto de sinais, gestos e traços de culturas, realmente singulares e inconfundíveis, dessa gente”. A leitura do texto (um ensaio antroplógico) oferece ao interessado uma visão panorâmica de qualidade sobre inúmeros aspectos que explicam a trajetória dessa gente singular.

O LIVRO

Parsifal Barroso reúne, apresenta no livro “correntes que explicam a etnia e as bases da formação do cearense”: a combinação básica de portugueses e ameríndios e a miscigenação cigana (degredados do Reino), principalmente. Lista e comenta as hipóteses dos primeiros momentos da ocupação da Capitania, como a que estabelece a participação dos índios Kariris, ou da que atribui especial significado e dimensão à Serra da Ibiapaba (dois séculos de evolução civilizadora), em contraposição à colonização que vem do litoral. E comenta todos os traços marcantes do cearense e seus tipos: a cabeça chata, o rosto triangular, o migrante, o moleque, o mercantilista, o vaqueiro, o beato, o jangadeiro, o jagunço. E não esquece de explicar os efeitos da alternância imprevisível de secas e chuvas e de uma geografia particular, uma ferradura formada por serras que tendem a isolar essa terra, como um anfiteatro que se completa com as ‘cortinas de dunas’.

O livro faz a divisão do ensaio em seis capítulos, todos breves. Lê-se rápido e com prazer. E depois da leitura, pode melhor escolher o cearense se deve continuar a desvalorizar-se. Mas não será mais por desconhecer-se.

CURTAS

— Ser fabuloso e inesgotável, sempre norteado por uma inteligência viva e sagaz, ainda se reforça com o poder imaginativo…

— Não se deverá permitir que persistam duas imagens ou manifestações da cearensidade, correspondendo uma ao Ceará-migrante e outra ao Ceará-moleque…

— O Ceará deveria sobralizar-se, isto é, valorizar-se a todo custo, à base de um conhecimento cientificamente válido…

— … no Ceará, nada persiste em linha de continuidade e de enraizamento, e jamais houve clima favorável à tradição.

— Tal como um amante que se deixasse prender à sua amada infiel e ingrata, o cearense prefere ficar em sua terra e somente cumpre o destino migratório, após se desiludir por inteiro, vítima dos erros e omissões que se acumularam ao longo dos séculos.

— No Ceará, até agora, tudo passa e recomeça tudo, a toda hora, e ninguém se apega ao passado, nem ao perdido, porque tudo, afinal e sempre, tende a renovar-se e a recomeçar.

— …falta ao cearense a capacidade de saber situar-se, tanto em relação às ajudas como às desajudas…

— A dura e imemorial relação que se criou entre o cearense e a água incerta e fugidia, transformou-o num complexado, desprovido de consciência geográfica, obsidiado pela alternativa que se renova a cada ano…

BONS MOMENTOS

— Não vacilo em considerar aceitável a tendência de que se firmou, preferencialmente, no sentido de orientar as pesquisas e os estudos para as combinações étnicas entre portugueses e ameríndios, sem considerar miscigenações outras que, embora reais, não têm a importância que seus defensores lhes atribuem. Dentro dessa orientação, por exemplo, sempre se preferiu apresentar a especificidade Cearense através de tipos marcantes que se situam na paisagem cultural como produtos da unidade original de nossa formação e exteriorizações do nosso próprio modo de ser: o vaqueiro, o beato, o jangadeiro e o jagunço.

— Sempre se desenvolveu a tendência para a identificação do tipo cearense pela sua morfologia, configurada pela face triangular e, frequentemente, pela braquicefalia (cabeça-chata), enquanto essa caracterização se ligava a uma especificidade de formação étnica, sem se cogitar de sua explicitação científica. Como a maioria enveredou, sem maiores indagações, por essa via de acesso, de logo oficializada, estabeleceu-se uma inter-relacão entre a etnia e a morfologia, aguçando-se a curiosidade pela origem da braquicefalia, a partir do caldeamento de que teria resultado o cearense.

— O anfiteatro dessa imensa e dura caatinga, além das três mil horas de luz solar que sempre recebeu, por ano, logrou ter seu clima amenizado e esterilizado pela ação conjunta do ar seco , do vento renovador e do sol dardejante, sem os quais não se tornaria famosa e atraente a salubridade do Ceará. A ausência de uma consciência geográfica, todavia, habituou o cearense a não considerar as benesses do solo e do clima, e a desconhecer as peculiaridades decorrentes da posição e da configuração de sua grande região, no conjunto nordestino.

==- Não se deslembrem os mestres da história do Ceará que a Serra da Ibiapaba, sobre ser a primeira realidade sócio-econômico-política da Capitania, com uma evolução civilizadora de dois séculos, a irradiar-se em todos os sentidos, ainda firmou diretrizes valiosas de defesa da liberdade, de conquista de autonomia, de afirmação de fé diligente e operosa, de proteção de um sistema de inter-relações econômicas e culturais, numa completa e perfeita síntese – exemplo da capacidade de ultrapassar limitações e de superar dificuldades.

— A sequência de anos chuvosos intercalados de secas, sempre imprevisíveis, faz oscilar os resultados do trabalho humano, de que depende a sorte da maioria da população. Gerou-se dentro desse conjunto de limitações, e à base da própria civilização do couro, a natural e primeira forma de escape, que ainda funciona como a principal vocação do cearense: o mercantilismo que sabe encontrar, depressa, meios e fórmulas de fazer negócios.

— Desconhecemo-nos e desvalorizamo-nos, sempre, com os mais graves prejuízos para a garantia do progresso cearense que somente será alcançado através do aproveitamento da capacidade potencial de cada região e de cada pessoa ou instituição, em relação ao seu meio ambiente. Confiamos perdulariamente em quantos se têm aproveitado dessa tendência negativa, que se externa sempre no máximo da abertura fraterna para a hospitalidade, sem que exista compreensão, ajuda e confiança entre os irmãos que se distanciam ou se hostilizam, levados pelo mais acerbado individualismo, embora correndo os riscos de um mesmo destino.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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