PRÉ-LEITURA DO LIVRO “O AVESSO DA PELE”, DE JEFERSON TENÓRIO

O AUTOR

Jeferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro em 1977, mora em Porto Alegre, é doutorando em teoria literária. Está no terceiro livro, também escreve para teatro.

A PUBLICAÇÃO

O livro “O Avesso da Pele”, de Jeferson Tenório, foi lançado em 2020 e em 2021 ganhou o Prêmio Jabuti. Depois foi reeditado pela Companhia das Letras, com 198 páginas.

CIRCUNSTÂNCIAS

Ficção literária na forma de romance, a trama se desenrola em Porto Alegre, possivelmente nos anos 1980/1990. Depois de perder o pai, um jovem se lança a pesquisar a trajetória de sua família (pai, mãe e irmã). Nesse processo, analisa eventos que marcam as humanas relações entre pais e filhos, entre seus pais, entre alunos e professores no ambiente de sala de aula e dele próprio com a namorada e amigos.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Os personagens principais são negros e vivem experiências de preconceito sutil e explícito. A violência policial é uma forma aguda de manifestação racista. O tema é tratado ao longo de toda o livro com um texto que consegue ter ao mesmo tempo força e beleza.

Jeferson Tenório tem estilo único. Administra o ritmo do texto e consegue acelerar ou desacelerar a velocidade da leitura, envolvendo suavemente o leitor. O prêmio mais disputado da literatura brasileira fez justiça ao livro.

O LIVRO

O Avesso da Pele se estrutura em quatro partes (a pele, o avesso, de volta a São Petesburgo e a barca), que se desdobram em textos breves.

O livro tem mais de um narrador, que usa o tempo todo o pronome de tratamento “você”. E ele pode estar falando com qualquer um ou consigo mesmo. Este artifício abraça o leitor e demanda leitura atenta, além de jogar o leitor no meio da trama.

A obra foi censurada em três estados. Os livros já tinham sido adquiridos e foram descartados. Possivelmente por alguém que não o leu, por algum tipo de fanático ou por quem o leu de cabeça para baixo.

INSIGHTS

“Até o fim você acreditou que os livros poderiam fazer algo pelas pessoas. No entanto, você entrou e saiu da vida, e ela continuou áspera. 

“… você teve seu primeiro ataque de ansiedade por causa de um buraquinho no assoalho e também porque ouviu do professor de ciências que o sol iria explodir dali a alguns bilhões de anos. 

“… vocês não se amavam o suficiente para suportarem os seus fantasmas. Vocês eram apenas duas pessoas quebradas. Cada um com seus cacos. Cada um buscando uma escora. O amor como muleta. 

“Entre músculos, órgãos e veias existe um lugar só seu, isolado e único. E é nesse lugar que estão os afetos. 

“Sua indiferença é assustadoramente normal. 

“A dor não escolhe idade quando quer doer.

“Preciso arrancar a tua ausência do meu corpo e transformá-la em vida. 

“Não sei até onde se pode ir na vida íntima dos pais. Não sei até onde suportamos descobrir suas fraquezas, maldades e perversões. Me sinto culpado, mas eu preciso continuar. 

BONS MOMENTOS

“As pessoas que te mataram ainda estão soltas. E não sei por quanto tempo elas continuarão livres. Mas elas nunca saberão nada sobre o que você tinha antes da pele. Jamais saberão o que você carregava para além de uma ameaça. Por isso, sigo recontando a sua vida, que também é um pouco da minha. Investiguei teus afetos através dos meus. 

“No sul do pais, um corpo negro será sempre um corpo em risco. A sua obra foram seus alunos, mesmo aqueles que nem se lembram de você. Sua obra foram as suas aulas tristes. Suas aulas sérias, suas aulas apaixonadas. Eu queria ter morado num pensamento teu. Como uma forma de amor. Um amor entre pai e filhos. Um amor intelectual, silencioso e delicado. 

“E pensei que você nunca tinha me dito nada sobre isso. Sobre suas irmãs, por terem tido pais diferentes, por serem mais escuras que você, e sobre o que elas passavam em Porto Alegre, por serem sempre intrusas numa cidade racista como essa, pensei. Olhei para minha própria pele. E era mais clara que a de meu pai e minha mãe. 

“A segunda abordagem é mais tensa. E um carro. Um Gol. Quatro meliantes. Todos saem do carro. Todos são revistados, menos o rapaz branco. Na verdade, os policiais perguntam se está tudo bem com ele. Três negros com um branco num carro. É algo suspeito. 

“Um ser esquecido entre o quadro e o giz. Na sala de aula, você desaparece para as pessoas. Todos acham que, se você está ali, tendo de aturar os desaforos de crianças e adolescentes, é porque você não deu certo na vida. Dar aulas foi o que sobrou para os perdedores.

“Mauro tinha a pele mais escura que a minha. Suas histórias sobre abordagem policial, perseguição por seguranças em lojas, ou mesmo sobre senhoras que recolhiam suas bolsas quando o viam por perto, acabaram nos aproximando também.

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.